Centenas em consultas após a doença com sintomas como stress pós-traumático

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Tremor constante, visão turva, cansaço e falta de memória levaram Fernanda, 33 anos, à consulta pós-covid no Centro Hospitalar Lisboa Central que, desde maio, acompanhou 700 doentes com sequelas que incluem situações de stress pós-traumático.

Diagnosticada com covid-19 em agosto, Fernanda esteve internada 30 dias, 10 dos quais entubada e em coma, uma experiência que disse ter sido muito traumática e que a leva a ter “muito medo de sair de casa” com receio de voltar a ficar doente.

A 13 de setembro teve alta do Hospital Curry Cabral, mas a persistência de sintomas fortes, como falta de ar, levou-a duas semanas depois à Clínica de Atendimento Pós-Covid (CAP-Covid), no Hospital de Santa Marta.

À sua espera para a primeira consulta estava Neuza Reis, coordenadora da área de enfermagem da CAP-Covid, que avaliou a sua capacidade funcional e respiratória.

Com a voz cansada e as mãos trémulas, Fernanda contou à agência Lusa que sente “falta de ar, bastante tremedeira e a visão um pouco turva”.

“O meu equilíbrio também não está bem e tenho um pouco de falta de memória”, admitiu, recordando o dia em que soube que estava infetada: “Tinha bastante falta de ar e achei que era uma crise asmática como sempre tive, mas depois fiz o teste e deu positivo”.

Recorreu ao Hospital São José, onde verificaram que “o oxigénio estava um pouco baixo”, mas voltou para casa com medicação, onde ficou dois dias com “muita febre”, até que a situação se agravou e acabou internada nos cuidados intensivos no Curry Cabral.

O regresso a casa foi “bem difícil”, agravado com o facto de o prédio onde vive ter escadas e de, na altura, não sentir as pernas. Voltar ao trabalho numa pastelaria também não foi fácil.

“Ainda não consigo fazer um bolo. Não consigo pegar na espátula, nem cortar nada. Faço o que dá para fazer”, disse à enfermeira Neuza, contando que perdeu 25 quilos durante o internamento.

Apesar de ir retomando aos poucos o dia-a-dia, a sua fragilidade ficou bem patente nos agachamentos que a enfermeira lhe pediu para fazer.

Depois da consulta de enfermagem, Fernanda foi avaliada por Miguel Toscano Rico, responsável pela CAP-Covid, a quem contou que mal saiu do hospital começou, por iniciativa própria, a fazer fisioterapia, ioga e consultas de nutrição, uma decisão saudada pelo internista.

“Fisioterapia foi o melhor investimento que fez, porque fazer exercício é muito importante”, assim como as consultas de nutrição para recuperar a massa muscular, disse o médico, explicando-lhe que dos 25 quilos que perdeu, 15 foram de músculo.

À Lusa, explicou que a recuperação da massa muscular é fundamental: “Sem músculo não temos autonomia”.

As queixas de falta de ar, cansaço e dores de cabeça nove meses depois de ter sido infetada, também levaram Teresa (nome fictício), de 26 anos, a recorrer à consulta no Hospital Santa Marta.

Ao contrário de Fernanda, Teresa não necessitou de hospitalização, nem teve sintomas muito fortes. “Foi só mesmo tosse, algum cansaço e dois ou três dias de cama”, além da falta de olfato e paladar.

Sintomas que voltaram quando a jovem farmacêutica regressou ao trabalho. “Sou uma pessoa saudável e normal, mas notei a falta de ar nos dois meses a seguir”.

“Já não estou tão mal como no início, mas é ter umas semanas normais e depois ter uma semana em que não consigo respirar, não consigo falar direito, não consigo comer, sinto uma falta de ar mais agravada”, relatou Teresa, com a voz ansiosa e a respiração acelerada.

Fernanda e Teresa fazem parte dos cerca de 700 doentes, com idades entre os 27 e os 80 anos, acompanhados na clínica que abriu em maio para dar uma “resposta adequada” aos doentes internados no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Este centro hospitalar tratou cerca de 4.250, dos quais 840 em cuidados intensivos, desde o início da pandemia.

“Estes doentes não são doentes respiratórios, não são doentes cardíacos, são doentes multissistémicos que têm de ser olhados por uma equipa multidisciplinar de forma a não se banalizar nenhum tipo de sinal e sintoma”, enfatizou Neuza Reis.

Miguel Toscano Rico alertou que há “pessoas muito novas com limitações muito grandes”, afirmando que o caso de Fernanda é “um paradigma disso”.

Por isso, defendeu, “é bom que a resposta seja tão precoce quanto possível” para ultrapassar os problemas o mais rapidamente possível.

Cerca de 70% dos doentes internados ao fim três meses ainda mantêm sintomas, sendo os mais mencionados a dor torácica, a falta de ar e o cansaço.

“Mas isto é só a ponta do iceberg”, considerou o médico, advertindo que pode haver muitos outros sintomas, como alterações relacionadas com a memória, o raciocínio, o equilíbrio, as alterações cardiovasculares e neuropsicológicas, estas últimas com um espetro “muito grande”.

Há doentes com níveis de ansiedade e depressão “muito grandes” e há situações de stress pós-traumático. “Felizmente é uma realidade mais rara, mas também os temos”.

Estas situações mais graves são referenciadas para a psiquiatria, afirmou, revelando que cerca de 5% dos doentes já foram reencaminhados.

Conforme o tempo passa, a manifestação de sintomas de ‘long covid’ vai diminuindo, mas há “valores muito conservadores” que estimam que 17% a 20% dos doentes tenham sintomatologia prolongada no tempo.

Helena Neves (texto) e António Cotrim (fotos) da agência Lusa

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