Homenagem a Jorge Sampaio com vivas e muita emoção

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Os portugueses despediram-se hoje de Jorge Sampaio numa cerimónia solene que recordou o “homem bom” e ao Presidente que amou o seu país, e com “vivas” e aplausos de populares no exterior dos Jerónimos e do cemitério.

As três principais figuras do Estado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente do parlamento, Ferro Rodrigues, e o primeiro-ministro, António Costa, recordaram o percurso político de Jorge Sampaio, que morreu na sexta-feira, aos 81 anos.

A vida política começou ainda na ditadura, na década de 1960 como líder estudantil, foi advogado de militantes antifascistas, alguns deles do PCP, foi secretário-geral do PS, autarca de Lisboa (1990-1995) e Presidente da República (1996-2006).

“Nunca quis ser herói, mais foi”, resumiu Marcelo Rebelo de Sousa numa última homenagem ao antigo Presidente, afirmando também que “amou Portugal pela fragilidade” e “não pela força”.

Os dois filhos, Vera e André Sampaio, recordaram o pai como “um homem bom”, que sabia que na vida e na política “nada se pode fazer sozinho”.

“O nosso pai era um homem bom, atento e disponível, para quem as pessoas contavam cima de tudo, não as pessoas em geral, mas cada pessoa com nome e rosto”, destacou a filha.

André Sampaio, visivelmente emocionado, recordou o pai como um homem “popular sem ser populista, sempre próximo sem nunca banalizar a proximidade, que foi estadista e simultaneamente cidadão comum, que foi amado sem gostar de ser venerado”.

Seguiram-se as palavras de António Costa, primeiro-ministro, que, em jovem, estagiou no escritório de advogados de Sampaio e foi seu diretor de campanha nas presidenciais de 1996, em que venceu o candidato da direita, Cavaco Silva.

A democracia portuguesa, disse, “pode e deve orgulhar-se por ter sido servida por um político maior como Jorge Sampaio e a República deve louvar-se por ter sido presidida por um cidadão exemplar como ele”.

Na parte final da sua intervenção, lembrou as palavras Sampaio no discurso de posse como Presidente, em 1996, no parlamento: “Não há portugueses dispensáveis.”

Ferro Rodrigues, que entrou para o PS no mesmo ano de Sampaio, em 1978, recordou “o amigo”, que “escolheu colocar as suas qualidades ao serviço de causas” e cujo exemplo “vai certamente perdurar e inspirar muitas gerações”.

“Jorge Sampaio foi um ilustre português e o seu exemplo vai certamente perdurar e inspirar muitas gerações”, afirmou.

E Marcelo Rebelo de Sousa, hoje Presidente, mas que foi seu adversário nas autárquicas de 1989, quando Sampaio ganhou a câmara de Lisboa com uma coligação de esquerda, fez o último discurso na cerimónia que terminou com o hino nacional.

“Amou Portugal pela fragilidade e tantas vezes na fragilidade. Mais do que isso, fez dessa fragilidade, sua, nossa, de todos nós, força: sua, nossa, de todos nós”, afirmou.

“Nunca quis ser herói, mas foi, em tantos e tantos dos seus lances de vida, heróico. Daquele heroísmo discreto, mais lírico do que épico, mais doce do que impulsivo. Firme, mas doce. E também por isso o recordamos com doçura. E lhe agradecemos o amor que nunca negou a Portugal, à sua maneira de amar Portugal”, acrescentou Rebelo de Sousa.

Na cerimónia nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, que pôde ser acompanhada do lado de fora do mosteiro através de um écrã gigante, foi tocado a “Lacrimosa”, do Requiem, de Mozart, pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, e declamado o poema de Jorge de Sena – “Uma pequenina luz”.

Depois do velório, no sábado, em que milhares de pessoas passaram pelo antigo picadeiro real, de personalidades da política e da cultura e muitos cidadãos, hoje de manhã foram de novo centenas as pessoas que estiveram frente ao Mosteiro dos Jerónimos.

Quando saiu o cortejo fúnebre, voltaram a ouvir-se aplausos e palavras de ordem como “Viva a Liberdade”, “Viva Sampaio”. E o cenário repetiu-se à entrada para o cemitério, no Alto de São João, com a viúva de Jorge Sampaio, Maria José Ritta, a agradecer, com um aceno.

Depois da sessão evocativa nos Jerónimos e das honras militares no cemitério do Alto de São João, Lisboa, houve um curto momento reservado à família e amigos, que acompanharam a urna até ao jazigo onde foi depositada.

Chefe de Estado durante dez anos, após a passagem pela Presidência foi nomeado em 2006 pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas enviado especial para a Luta contra a Tuberculose e, entre 2007 e 2013, foi alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações.

Até morrer, presidia à Plataforma Global para os Estudantes Sírios, fundada por si em 2013 com o objetivo de contribuir para dar resposta à emergência académica que o conflito na Síria criara, deixando milhares de jovens sem acesso à educação.

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