Convertidos, casados e mestiços, tudu bong jenti portuges

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Há um contínuo na história da humanidade sobre a conquista de posições geográficas que fossem mais vantajosas, muitas vezes recorrendo à força, quer fosse entre grupos e tribos, quer mais tarde com as primeiras nações e países.

No passado, a afirmação da presença portuguesa por esse mundo fora também não está isenta, longe disso, do recurso à força. A hegemonia que criou o primeiro império global fez-se pela conjugação de conhecimento e capacidade tecnológica e bélica, muito superiores a qualquer outra nação em meados do segundo milénio. Se a diplomacia e o comércio não funcionavam a seu favor, recorria-se à violência, no que não era nenhuma originalidade. Porém, a história que colocou em contacto povos espalhados pelo mundo, e que até aí em boa medida se desconheciam, ganhou força pelo estabelecimento de relações diplomáticas, comerciais e de cooperação entre reinos e suas populações.

Devemos ter em conta que nesse passado quase não existiam países, como hoje os entendemos, com linhas de fronteira tão claramente definidas. Geralmente, as pessoas circulavam livremente entre territórios e não havia nem bilhetes de identidade nem passaportes, muito menos o controlo aduaneiro moderno. A própria “nacionalidade” foi-se afirmando de múltiplas formas e suas conjugações, assente no sangue, no território, na lealdade a um monarca, numa cultura ou ideia política. Só recentemente, sobretudo no Séc. XX, se generalizou o modelo ocidental de estados e estados-nação.

O inglês Martin Page afirma que o conceito português de identidade sempre foi algo distinto dos seus vizinhos e uma herança do Império Romano. Diz o autor de The First Global Village: How Portugal Changed the World que, por exemplo, enquanto os espanhóis se baseiam sobretudo na ancestralidade e os britânicos na etnia, em ser anglo-saxónico, sendo ainda relevante o local onde se nasceu, ser português, tal como ser romano, era especialmente um estado de espírito, a aceitação da cultura e do modo de vida num abraço geral. Muitos dos mais eminentes romanos não eram italianos e alguns nunca meteram o pé na capital do império. Diz ainda o autor que muitos portugueses há muito têm orgulho na relativa ausência de discriminação racial e na antiga tradição de casamentos com indianos, africanos e chineses, assim como ingleses ou alemães. Exemplificando, refere os contactos com a Índia, em que, ao contrário da política de estrito separatismo dos ingleses, os portugueses foram encorajados a estabelecer relações íntimas com as mulheres locais. Na maioria das vezes isso acabava em casamento, mas, mesmo que assim não fosse, o estado procurava obrigá-los a assumir a responsabilidade pelos seus filhos.

Como evidencia Orlando Ribeiro, os primeiros portugueses resultam eles próprios, desde o neolítico, da colonização e mistura de povos distintos que habitaram o território que hoje se conhece como Portugal continental, podendo identificar-se uma antiga civilização megalítica ocidental, mais junto à costa atlântica, com relações com a Bretanha, o País de Gales e a Irlanda, no que veio a conhecer-se, ao Norte do Tejo, como terra dos lusitanos, e, a Norte do Douro, como a terra dos calaicos. Mas estes povos misturaram-se com celtas, celtiberos (mistura de celtas e iberos do centro da península), com navegadores do mediterrâneo, como fenícios, gregos, cartagineses, com gentes da brilhante civilização de Tartessos. Foram depois longos anos de mistura com os romanos de todo o lado, seguidos das invasões bárbaras de povos germânicos, como os suevos e os visigodos, para depois se dar a conquista pelos árabes e o movimento da reconquista cristã e afirmação do reino de Portugal. Deve sublinhar-se, segundo o autor, que esta história se fez, em regra, pela continuidade dessas populações.

Estudos genéticos confirmam essa miscigenação. Luísa Pereira e Filipa Ribeiro mostram em O Património Genético Português: a História Humana preservada nos Genes como a variação genética na Península Ibérica também resultou da longa presença de Judeus Sefarditas, de muçulmanos do Norte de África e de gentes da África subsariana, sobretudo a partir do século XV, nomeadamente com a vinda de escravos. Esse legado genético foi depois espalhado pelos portugueses nas diferentes regiões do mundo no decurso da expansão marítima.

Talvez um dos casos mais conhecidos de inequívoca miscigenação, de sangues e culturas, seja a “América portuguesa”, como lhe chamou Caetano Veloso, numa entrevista ao Expresso, em dezembro de 2009, valorizando essa herança de povos da Europa, África, América e Ásia que deu o Brasil, e a identificação que sente com o país europeu que se desdobrou noutros (são as suas palavras). Também a colonização das ilhas de Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe passou pelo incentivo de relações sexuais livres, entre brancos e negros, tendo surgido sociedades mestiças que, segundo Oliveira e Costa e Lacerda, eram mais europeizadas do que as suas congéneres no continente africano. À falta de gente num país pouco populoso como Portugal, elementos destas comunidades foram determinantes na Expansão Portuguesa, assumindo inclusive postos de comando militar e direção administrativa. Uma visão mais lúcida da história compreenderá que ela se fez de abordagens distintas e em paralelo. Por exemplo, ao mesmo tempo que os mestiços tinham um papel decisivo, crescia o tráfico de escravos e, por essa associação duplamente penalizadora, crescia o preconceito relativo à cor da pele. No entanto, para beber das melhores águas da época, o melhor é recordar o olhar do pe. António Vieira sobre os habitantes de Santiago, numa carta ao Padre André Fernandes, escrita, em 25 de dezembro de 1652, a partir daquela ilha: “São todos pretos, mas somente neste acidente se distinguem dos europeus. Têm grande juízo e habilidade (…) Há aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer invejas aos que lá vemos nas nossas catedrais”.

Oliveira e Costa e Lacerda referem ainda que a Expansão Portuguesa misturou povos, entre todos os continentes, muito por causa da fraca circulação de mulheres europeias nas viagens marítimas, especialmente no caminho da Ásia, o que incentivou o nascimento de uma nova realidade étnica naquelas paragens, gente de nome cristão, que se dizia portuguesa, que vestia à portuguesa, mas tinha uma tez que denunciava sangues fundidos. A sua cultura era cartão dessa identidade, pois, sendo cristãos, falando português e defendendo as coisas de Portugal, também dominavam as línguas e costumes locais.

Os casamentos com mulheres das costas onde os portugueses aportavam terão sido fruto da vontade e da necessidade, mas serviram ainda uma política de estado, para colonizar ilhas não habitadas, manter uma rede de população leal ou favorecer alianças com outros povos. Como referi no artigo anterior, dedicado à expansão do açúcar no mundo, uma peça central na política do reino de Portugal, para fortalecer alianças nos novos mundos e a edificação de uma rede de apoio ao comércio, foi a concessão de privilégios aos casados, portugueses que casavam com mulheres nativas e mestiços seus descendentes, em particular a isenção do pagamento de impostos.

Essa política de casamentos mistos foi colocada em prática por Afonso de Albuquerque em Goa logo após a sua conquista (1510). Aos portugueses que se casassem com nativas, e se fixassem definitivamente na terra, a Coroa pagava um pequeno dote e oferecia um lote de terra para a agricultura, retirada à aristocracia muçulmana, sendo-lhes ainda concedida mais facilmente a dispensa do serviço régio, se o desejassem, ou, pelo contrário, as devidas promoções.

No reino do Sião, onde o primeiro tratado luso-siamês é de 1506, imediatamente terão começado a evangelização, o comércio e os casamentos. Diz o professor Charnvit Kasetsiri, da Universidade Thammasar (Banguecoque), que os portugueses trouxeram para Aiutia, antigo reino do Sião, atualmente Tailândia, “nova tecnologia, poderosas armas de fogo e soldados, além do cristianismo; a propagação da religião católica foi autorizada, em especial para os estrangeiros, mas mais tarde espalhou-se igualmente aos eurasianos, após os portugueses começarem a casar-se com siamesas, japonesas e vietnamitas”.

Nos alvores do século XVI, a presença portuguesa, comercial, militar e diplomática no Sudeste Asiático, provocaria alterações assinaláveis em toda a região, por via de uma densa rede de convertidos, casados e mestiços que os portugueses (com reciprocidade local) ali construíram, chegando mesmo aos portos secundários e ao comércio de cabotagem, tendo a língua portuguesa substituído a malaia como língua franca. O próprio conceito do que seria ser português integrava ainda os portugueses pretos, que ali tinham chegado como escravos ou prisioneiros, assim como mais tarde os assimilados locais, que tinham o português como língua materna ou que o tinham aprendido no seguimento da conversão ao cristianismo. Dado o seu prestígio e importância, a língua era utilizada por todos. Ainda no séc. XVIII, era nela que comerciantes ou monarcas comunicavam com os congéneres europeus de línguas distintas. A crescente integração de pessoas etnicamente diversas nesse conceito alargado de identidade, mais assente na cultura e na religião, sobressai num relato do navegador inglês William Dampier que, tendo visitado Timor em 1699, refere a existência de mestiços que se mostravam orgulhosos da sua identidade católica e portuguesa. Na capital Lifau – onde apenas viu três brancos, dos quais dois eram padres – os habitantes assumiam-se como portugueses e católicos, ficando revoltados se alguém colocasse em dúvida a sua identidade.

Desde o Índico à China todos os já referidos, inclusive mestiços, eram aceites e vistos como portugueses. George Souza mostrou como a sociedade portuguesa na China constituía uma agregação comunitária altamente diversa e multirracial. Através de casamentos inter-raciais, concubinagem, conversão ao catolicismo, e pelas vantagens políticas e comerciais, elementos não europeus juntavam-se a este grupo de administradores da Coroa Portuguesa, comerciantes e missionários. Os casados ocupavam mesmo as posições cimeiras no Senado da Câmara de Macau e na gestão das relações comerciais com a China e estados vizinhos.

José Pedro Braga, luso-chinês, figura determinante no desenvolvimento de Hong Kong na primeira metade do Séc. XX, comprova o importante contributo para o sucesso da região das famílias originárias de Macau, que designa com contido orgulho como “os portugueses de Hong Kong”.

Como a maioria sabe, muitos dos que hoje envergam o passaporte português nunca viveram em Portugal ou sequer visitaram a “sua terra”, como acontece em Macau, na Índia, no Sri Lanka ou em Timor-Leste. Outros ainda, sem direito a passaporte e mesmo que o estado português (e a sociedade portuguesa) não lhes dê a atenção que mereceriam, dizem-se, orgulhosamente, descendentes de portugueses e agarram-se como podem aos fragmentos da sua identidade para salvar uma origem perdida nos confins da memória.

No sudeste asiático, onde kristang (cristão) foi sinónimo de português, merecem atenção os Kristang de Malaca (Malásia), onde ainda hoje, pessoas como a Sara Frederica Santa Maria, lutam com dificuldades para preservar as marcas dessa identidade portuguesa, em especial a língua papiá kristang. Mutu grande merseh, Sara! Tudu bong jenti portuges. Além de comunicarmos bem, por ser muito próxima ao português de 1500, faz-me sentir que estou a falar com alguém que conviveu com o poeta Camões quando ali se foi recuperar depois do naufrágio junto ao rio Mekong, em que, segundo a lenda, apesar de ter salvo o manuscrito d’Os Lusíadas, perdeu Dinamene, a sua amada chinesa.

Podem ser referidos muitos exemplos que mereceriam outra atenção, como os Mardicas de Tugu, norte de Jacarta, ou os portugueses de Aceh (Indonésia), conhecidos como os mata biru (olhos azuis), os Bayingyi na Birmânia, os Burghers Portugueses do Sri Lanka, a comunidade de Korlai (Índia) ou os portugueses de Ziguichor, no Senegal, onde alguns serviços públicos adotaram a língua portuguesa como oficial, ou os portugueses do Suriname, descendentes de madeirenses, que teriam sido transacionados como escravos com destino à Guiana Inglesa.

Podem contestar-se as teses luso-tropicalistas mais benevolentes, do famoso sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, sobre as razões na base da miscigenação genética e cultural ocorrida por esse mar afora, mas nunca negar que ela aconteceu, bem ao contrário do comprovado separatismo noutros impérios, como no britânico, no francês ou no holandês.

Ângelo Ferreira
Texto publicado em simultâneo no Diário de Aveiro e no Timor Post

Sugestões/comentários: angeloferreira@ua.pt

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