Conhecimento do português não torna lusodescendentes piores alunos na língua do país – Estudo

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O uso da língua portuguesa no seio das famílias portuguesas na Suíça, não impede que as crianças lusodescendentes desenvolvam uma alta proficiência na língua nativa daquele país em que são escolarizadas (francês, italiano ou alemão).

Foi o que provou o estudo ‘Crescer bilingue na Suíça. Sobre a importância de usar a língua portuguesa no seio familiar’. Os resultados mostram “que os pais não precisam de ter receio em falar o português porque o uso da língua de herança não prejudica o desenvolvimento da língua maioritária – bem pelo contrário, o seu desenvolvimento está positivamente correlacionado”, revela Cristina Flores, investigadora principal e coordenadora do estudo.
“Os resultados obtidos são muito interessantes e corroboram a nossa hipótese de partida, mostrando até que quanto mais competente um aluno é na língua de herança, mais competente é também na língua de escolarização”, sublinha Lurdes Gonçalves, responsável pela Coordenação do Ensino Português na Suíça (CEPE Suíça).
Desenvolvido com a colaboração da Coordenação do Ensino Português na Suíça (CEPE Suíça) pelas universidades do Minho e de Braga e a Goethe Universität de Frankfurt (Alemanha), o estudo ‘Crescer bilingue na Suíça. Sobre a importância de usar a língua portuguesa no seio familiar’ foi coordenado por Cristina Flores, diretora do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, Lurdes Gonçalves, responsável da Coordenação do Ensino Português na Suíça (CEPE Suíça), Esther Rinke e Jacopo Torregrossa, professores na Goethe Universität de Frankfurt (Alemanha).
O projeto de investigação surgiu na sequência da preparação de uma oficina de formação contínua de professores da CEPE Suíça com o conhecimento do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua. Participaram 28 professores, cerca de 500 alunos inscritos nas aulas de português e os seus encarregados de educação, residentes nas três áreas linguísticas da Suíça, em 2019.
O objetivo foi comprovar que o desenvolvimento de uma elevada proficiência em português como língua de herança não tem efeitos negativos no desenvolvimento da língua maioritária de estudo (francês, italiano ou alemão) naquele país; o contacto com a língua portuguesa no seio da família é o fator que mais influencia o seu desenvolvimento; as aulas complementares de português língua de herança dão um contributo importante ao desenvolvimento e estabilização de conhecimento linguístico dos alunos lusodescendentes.

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Para chegar a estas respostas, a investigação centrou-se em três perguntas:
– Quais os resultados globais atingidos nas várias línguas? Existe uma correlação, positiva ou negativa, entre os resultados atingidos nas duas línguas dos participantes?
– Quais são os padrões de uso da língua portuguesa no seio das famílias selecionadas? E em que medida os resultados do ‘teste das lacunas’ estão correlacionados com os padrões de uso da língua portuguesa no seio das famílias?
– Em que medida a frequência das aulas de português língua de herança influenciam o desenvolvimento linguístico das crianças e adolescentes investigados?
“O estudo foi desenvolvido com os nossos alunos nas três zonas linguísticas (alemã, francesa e italiana) para perceber se a competência linguística na língua de herança (LH) interfere negativa ou positivamente na competência linguística da língua de escolarização (LE)”, explica Lurdes Gonçalves ao ‘Mundo Português’.
A coordenadora do EPE na Suíça revela ainda que este foi “um estudo inédito”. “Porque compara não só a competência na LH e LE, mas também porque temos dados em três LE da Suíça, podendo traçar um perfil da competência plurilingue dos nossos alunos em toda a Suíça”, sublinha.

Analisados têm entre 08 e 15 anos

“Apesar de a investigação linguística ter mostrado, nas últimas décadas, que a criança bilingue adquire as suas línguas sem qualquer prejuízo cognitivo (…) subsistem ainda, entre a comunidade não científica, conceções estereotipadas sobre o bilinguismo, sobretudo o não-elitista, desenvolvido em contexto de migração”, lê-se no estudo a que o ‘Mundo Português’ teve acesso. Os responsáveis por este projeto de investigação assinalam que muitas famílias de origem emigrante são ainda confrontadas com opiniões não fundamentadas de professores, psicólogos ou pediatras “de que, em contextos multilingues, o uso da língua da família pode impedir o normal desenvolvimento da língua maioritária”.
“Como consequência, estas famílias são aconselhadas a adotarem a língua maioritária também como língua de comunicação no seio do núcleo familiar, abandonando o uso da língua de herança”, alertam.
Os alunos que participaram no estudo, e ajudaram a perceber que o bilinguismo é um fator positivo na aprendizagem, tinham entre 08 e 15 anos e frequentam as aulas de português da rede EPE Suíça, variando a duração de frequência entre 0,5 e 9 anos. Todos começaram a adquirir a língua portuguesa no seio da família desde a nascença, sendo, por isso, falantes de português língua de herança.
A recolha de dados partiu de vários elementos, como um questionário de perfil linguístico preenchido pelo encarregado de educação, um teste de preenchimento de lacunas em português e um equivalente na língua maioritária (alemão, francês ou italiano) e ainda uma narrativa, gravada nas duas línguas com o suporte de imagens, que foi recontada, por escrito, pelos alunos.
Os dados foram recolhidos com o apoio dos professores da rede EPE na Suíça, que distribuíram os questionários aos encarregados de educação e aplicaram os outros em duas das suas aulas, com pelo menos duas semanas de diferença. O estudo reporta os resultados dos trabalhos feitos por 180 crianças/adolescentes, 60 de cada área linguística da Suíça (alemã, italiana e francesa), assim como dos questionários preenchidos pelos seus encarregados de educação.
O estudo analisou a relação entre a quantidade de uso do português no dia a dia das crianças e a proficiência atingida não só na sua língua de herança, mas também na língua maioritária, “contribuindo, assim, para a desconstrução de visões pré-concebidas sobre o bilinguismo migratório e a valorização do uso da língua portuguesa na diáspora”. E demonstrou que a proficiência atingida por crianças lusodescendentes na sua língua de herança, o português, “não tem efeitos subtrativos sobre a língua maioritária”, lê-se no documento.

“Os resultados vieram confirmar, de forma muito clara e cientificamente sustentada, o que a comunidade científica tem vindo a afirmar nas últimas décadas, nomeadamente que o bilinguismo, isto é, a aquisição de duas ou mais línguas na infância, não é prejudicial, bem pelo contrário, e que as famílias em contexto de migração têm um papel essencial na transmissão e manutenção da língua portuguesa”, explica Cristina Flores ao ‘Mundo Português’.

Médias das respostas nas quatro línguas foram próximas

As médias de respostas dadas em português nas três áreas linguísticas mostra que estas são muito próximas – 25,6 (área francesa), 26,9 (área italiana) e 27,2 pontos (área alemã). Um teste estatístico ANOVA confirma que não existem diferenças significativas entre os resultados no teste de português nos três grupos linguísticos. “Este resultado mostra que as crianças a viver em diferentes regiões linguísticas da Suíça apresentam, globalmente, uma proficiência linguística muito semelhante a português”, revela o estudo.
Quanto aos valores médios alcançados nas três línguas maioritárias, também são bastante próximos – 26,55 (área alemã), 30,45 (área francesa) e 32,9 (área italiana). Os valores ligeiramente mais elevados em italiano e francês podem ser explicados com a presença de duas variedades de alemão nas regiões alemãs. Na escola é falado o alemão padrão, mas fora das salas de aulas o dialeto suíço (Schyzerdeutsch) é predominante. “Também a natureza da língua em contato – italiano e francês são línguas românicas como o português, em oposição ao alemão – poderá ter um efeito, embora muito ligeiro”, explicam os investigadores. “Estes resultados confirmam a nossa hipótese de ausência de bilinguismo subtrativo, isto é, o desenvolvimento de alta proficiência a português não tem um efeito negativo sobre a proficiência na outra língua. Pelo contrário, as crianças que desenvolvem elevada competência na sua língua de herança, por terem muito contato com o português, alcançam também elevada proficiência a alemão, italiano ou francês”, lê-se no estudo.

A coordenadora do EPE na Suíça, Lurdes Gonçalves, afirma, por sua vez, que os resultados obtidos “são muito interessantes e corroboram a nossa hipótese de partida, mostrando até que quanto mais competente um aluno é na língua de herança, mais competente é também na língua de escolarização”

O estudo mediu, por outro lado, os padrões de uso da língua portuguesa no seio das famílias portuguesas emigrantes na Suíça. Os pais que participaram no estudo vivem na Suíça entre quatro e 33 anos e a idade variou entre os 31 e os 65 anos.
Na maioria, pai e mãe nasceram em Portugal e 82,5% afirmaram dominar a língua portuguesa como falantes nativos. Sobre o falar português em casa, 79% disseram ser muito importante e 21% afirmaram ser importante que os filhos dominem a língua. Em relação à quantidade de português falado em casa, os resultados são claros: quanto mais pessoas falam português no seio da família, mais elevado é o conhecimento dos lusodescendentes em relação à sua língua de herança.
Os resultados do estudo mostram ainda que não há nenhuma correlação entre a quantidade de contato dos lusodescendentes com a língua portuguesa no seio da família e os resultados que obtêm na outra língua.
“Os resultados vieram confirmar, de forma muito clara e cientificamente sustentada, o que a comunidade científica tem vindo a afirmar nas últimas décadas, nomeadamente que o bilinguismo, isto é, a aquisição de duas ou mais línguas na infância, não é prejudicial, bem pelo contrário, e que as famílias em contexto de migração têm um papel essencial na transmissão e manutenção da língua portuguesa”, explica Cristina Flores ao ‘Mundo Português’.
“Mostram que os pais não precisam de ter receio em falar o português porque o uso da língua de herança não prejudica o desenvolvimento da língua maioritária – bem pelo contrário, o seu desenvolvimento está positivamente correlacionado”, vinca ainda a investigadora principal e coordenadora do estudo.
A coordenadora do EPE na Suíça, Lurdes Gonçalves, afirma, por sua vez, que os resultados obtidos “são muito interessantes e corroboram a nossa hipótese de partida, mostrando até que quanto mais competente um aluno é na língua de herança, mais competente é também na língua de escolarização”.

Ana Grácio Pinto

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