Panorâmico de Monsanto em Lisboa ganha obras de Arte Pública com o ‘selo’ do Iminente

Data:

20.

O Oficina Iminente, versão do festival em ano de pandemia da covid-19, está desde 09 de setembro a fazer do Panorâmico de Monsanto residência artística, com o público a fazer parte do processo criativo através de ‘workshops’.

Além disso, no âmbito do Oficina Iminente, a Underdogs, responsável pela curadoria artística do festival, desenvolveu “um parque de esculturas” para o espaço, relacionado com o programa de Arte Pública que aquela plataforma cultural desenvolve com a Câmara Municipal de Lisboa e a Galeria de Arte Urbana (GAU).

“A partir do momento em que o Panorâmico de Monsanto reabrir [enquanto miradouro, o que deverá acontecer em outubro], as pessoas terão acesso às peças, que vão fazer parte do nosso roteiro de Arte Pública em Lisboa”, referiu, em declarações à Lusa, Juliana Almeida, ‘project manager’ da Underdogs.

As peças, da autoria de AkaCorleone, Add Fuel, Tamara Alves e Wasted Rita, “foram pensadas, idealizadas e concebidas para locais específicos”.

“Alguns aproveitaram partes do Panorâmico, outros criaram novas estruturas, mas todas têm um grande impacto na paisagem e no ambiente do local”, referiu Juliana Almeida.

AkaCorleone optou por revitalizar o vitral da escadaria redonda do edifício, do qual restava apenas a estrutura metálica.

“A peça chama-se ‘Equality’ [‘Igualdade’, em português] e traz questões de igualdade, tão óbvias hoje em dia, mas que ainda não estão resolvidas”, explicou Juliana Almeida, salientando tratar-se de uma peça “bastante colorida e que joga muito com a luz”.

Perto do vitral está colocada a peça de Tamara Alves, que “trouxe para a tridimensionalidade uma pintura” que fez parte da exposição que a artista teve patente na galeria Underdogs, no início deste ano.

Nessa mostra, lembrou Tamara Alves em declarações à Lusa, “uma das imagens mais fortes e centrais eram os carros com os lobos”.

“Quando me convidaram para fazer uma peça de Arte Pública foi a primeira coisa que me veio à cabeça, tirar esses elementos – o carro como embate, um sentimento forte, e o lobo a puxar o nosso instinto animal – para o mundo real”, contou.

Tamara Alves optou também por incorporar na peça “a envolvente, com a Natureza e a paisagem” do Parque Florestal de Monsanto: “Há umas heras que crescem em Monsanto que vão ser instaladas dentro do carro para se apoderarem dele e para o carro se tornar parte da paisagem também”.

Também colocada fora do edifício está a obra de Add Fuel, que criou uma estrutura metálica, algo que Juliana Almeida salienta ser “inédito” no trabalho daquele artista.

“Ele jogou muito com o negativo do ‘stencil’ e também com a sombra. É uma escultura que tem camadas diferentes, que jogam com a sombra e a luminosidade do dia”, disse Juliana Almeida sobre a obra do artista cujo trabalho se caracteriza pela reinvenção do azulejo tradicional português.

Já dentro do edifício, onde em tempos funcionou um restaurante, numa das varandas está a obra de Wasted Rita, “uma cama de betão inspirada na ideia de fim do mundo e no ano apocalíptico que é 2020”, partilhou a artista com a Lusa.

Em cima da cama estão alguns livros e revistas, também em betão, “com algumas mensagens sobre 2020, mensagens antifascistas, antirracistas, anti misógenas, coisas que marcaram este ano”.

“A peça foi pensada para ter o menos impacto visual possível neste sítio, que é público e não me pertence, e a ideia é que faça algum sentido e tenha alguma funcionalidade”, explicou Wasted Rita.

A cama é um sítio onde os visitantes “se podem sentar ou deitar” a apreciar a vista sobre Lisboa, “mas tem mensagens que fazem pensar”.

Além destas quatro peças de caráter permanente, foi também criada para o local uma instalação temporária, de Francisco Vidal, que é uma homenagem ao ator Bruno Candé, que faria hoje 40 anos e morreu em julho, após ter sido baleado, várias vezes, em plena Avenida de Moscavide, no concelho de Loures.

MAKA Lisboa – Museu de Arte e Cultura Africana de Lisboa, que, segundo o artista, “também pode querer dizer Momento de Arte e Cultura Africana de Lisboa”, basta trocar a palavra que começa pela letra M, isto porque “Museu também é uma estrutura opressora, historicamente”.

“O que estamos a fazer aqui é pensar sobre a Humanidade e a maneira de nos relacionarmos, de pensarmos aquilo que nós somos e onde é que chegámos. O MAKA Lisboa é um trabalho que se manifesta numa escultura, mas que tem muitas pessoas que o fizeram ser. Passa por usar a arte, a escultura e a pintura como uma ferramenta para pensarmos aquilo que somos e que estamos a fazer”, partilhou com a Lusa.

Além disso, é uma homenagem a Bruno Candé, “um ator da cidade”.

O rosto do ator, em vários cartazes, cobre parte da instalação e está também em cem t-shirts que estarão à venda no ‘site’ da Underdogs e cujo valor total angariado reverterá para os três filhos de Bruno Candé, “que precisam de crescer protegidos”.

“São filhos de um mártir que não está presente para os proteger”, destacou o artista.

Francisco Vidal fala na necessidade de se perceber que tem de se “trabalhar um legado, uma imagem, uma história”. “Vamos edificar a sério um espaço onde possamos estudar o que somos, o que estamos aqui a fazer. Somos seres humanos e todos os seres humanos importam”, afirmou.

O festival Iminente, que junta música e artes visuais e tem Vhils como um dos fundadores, realizou-se pela primeira vez em Oeiras, em 2016, cidade à qual regressou no ano seguinte.

Em 2018, o Iminente mudou-se para Lisboa, para o Panorâmico de Monsanto, onde voltou a realizar-se no ano passado.

Este ano, adaptado à realidade da covid-19, a organização ‘ocupa’ o edifício até sábado.

Os ‘workshops’ terminaram na quinta-feira, e hoje e no sábado há uma programação de debates e concertos, acessível apenas aos participantes dos ‘workshops’, mas que será transmitida ‘online’, em ‘streaming’, entre as 15:00 e as 20:00 de cada um dos dias.

O Oficina Iminente tem curadoria de Alexandre Farto (Vhils) e da plataforma cultural Underdogs, fundada em 2010 e que se divide entre arte pública, com pinturas nas paredes da cidade, exposições dentro de portas (no n.º 56 da Rua Fernando Palha) e a produção de edições artísticas originais. A plataforma começou em 2015 a organizar visitas guiadas de arte urbana em Lisboa.

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