Rolão Preto, a outra face da génese sindicalista em Portugal

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Francisco Rolão Preto lutou contra a República ao lado de Paiva Couceiro, foi um dos fundadores do Integralismo Lusitano e chefe carismático do Movimento Nacional Sindicalista. Rolão Preto era um revolucionário da direita radical que odiava Salazar. Em 74 defendia a democracia. Rolão Preto foi condecorado em 1994 por Mário Soares com a Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo, pelo seu «entranhado amor pela liberdade».

A vida de Francisco Rolão Preto (1896-1977) conta-nos a história de um homem de fortes convicções que sempre se opôs a Salazar e ambicionava para Portugal uma outra política que não a ditadura militar instituída a partir de 1926.

Parece confuso mas aconteceu. Francisco Rolão Preto, fascista, monárquico, tentou derrubar Salazar por ser um “homem de centro e um formalista universitário”.

Rolão Preto criou o Movimento Nacional-Sindicalista, anunciado como antidemocrático, anticomunista, antiburguês, antiparlamentar, nacionalista, corporativista e familiar. Era o partido da extrema-direita, dos portugueses que vestiam camisas-azuis, faziam a saudação romana e que tentariam por diversas vezes derrubar o regime. O grupo foi perseguido, alguns membros aderiram à União Nacional, o partido de Salazar, e o líder acabou preso e forçado ao exílio em Espanha.

Salazar chegou a temer esta personagem pouco conhecida de muitos portugueses, que quis conquistar as massas operárias para a causa fascista, apostando no movimento sindical e defendendo a comemoração do 1.º de Maio, Dia dos Trabalhadores.

Quase um século depois, muitos estranharão as divergências doutrinárias que existiam entre dois defensores de um regime autoritário e repressivo de direita. Mas a verdade, é que houve especificidades ideológicas que caraterizaram os diferentes fascismos na primeira metade do século XX e Salazar era até ‘homem de centro’ na ótica de algumas destas ideologias.

“Em março de 1934, já em luta aberta com Salazar, Rolão Preto referia-se com orgulho ao aparecimento de uma nova ‘elite’ operária” associada ao nacional-sindicalismo: “Deêm-se possibilidades aos humildes, aos filhos do povo que logo de tenra idade amassam com o suor do seu rosto o pão que comem”, escreveu o líder do nacional-sindicalismo numa obra citada por Costa Pinto (reedição revista e atualizada da tese de doutoramento de Costa Pinto, publicada em 1994).

Em 1934 o Nacional Sindicalismo era proibido por decreto, mas no ano seguinte os nacionais-sindicalistas tentaram mais uma vez derrubar o regime. O golpe falhou e o movimento dos camisas-azuis, como ficou conhecido, extinguiu-se.

Apesar de Rolão Preto ter saudado com esperança as vitórias das forças nacionalistas na Europa (nomeadamente dos fascistas em Itália e dos nazis na Alemanha),  a verdade é que este, em entrevista à United Press, não deixou de fazer alusão à sua distinta matriz doutrinária, enunciando uma clara demarcação ideológica: o fascismo de Mussolini e o Nacional-Socialismo de Hitler, eram “totalitarismos divinizadores do Estado cesarista”, ao contrário do Nacional-Sindicalismo, que filiava a sua doutrina nas tradições cristãs de Portugal.

Até ao 25 de Abril, Rolão Preto, homem da direita radical, haveria de continuar sempre na oposição a apoiar os dissidentes do Estado Novo: o General Norton de Matos, Quintão Meireles e Humberto Delgado.

Com a Revolução, rendeu-se aos princípios democráticos e tornou-se dirigente do Partido Popular Monárquico, um reencontro com os tempos da sua juventude em que foi um defensor ativo da Monarquia e um dos fundadores do Integralismo Lusitano, que estaria mais tarde na base do Nacional-Sindicalismo.

As suas principais obras foram reeditadas por José Melo Alexandrino, professor universitário que quis recuperar o pensamento de uma figura nacional que marcou o século XX português.

Fernando Rosas, professor catedrático jubilado do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, referiu por ocasião do lançamento do livro ‘Salazar e os Fascismos’ que “se eu começasse agora a investigar o que eu iria estudar seria a dimensão do fascismo ‘plebeu’ em Portugal. A dimensão do nacional-sindicalismo está subestimada: o fascismo ‘plebeu’ do Rolão Preto e dos camisas azuis…O nacional-sindicalismo e o fascismo ‘plebeu’ teve bastante mais importância no início dos anos 1930 em Portugal, do que se quer normalmente fazer crer”, considera o historiador.

O Nacional-Sindicalismo

A partir de 1922 Francisco de Barcelos Rolão Preto torna-se membro da Junta Central de Integralismo Lusitano.

Com o começo do movimento militar de 1926, que instaurou a ditadura militar, começa a colaborar com Gomes da Costa, sendo o redator dos 12 pontos do documento distribuído em Braga.

Em 1930 dirigiu com David Neto, e outros Sidonistas, a Liga Nacional 28 de Maio, um grupo de origem universitária que se auto proclamara defensora da Revolução Nacional, mas quando Rolão Preto lança publicamente o Movimento Nacional-Sindicalista torna-se uma figura nacional, em Fevereiro de 1933. Anunciara-o através de vários comícios que comemoravam o primeiro ano de publicação do jornal Revolução, Diário Académico Nacionalista da Tarde, que aparecera em 15 de Fevereiro de 1932 e, que, em 27 de Agosto, desse mesmo ano, tinha adotado o subtítulo Diário Nacional-Sindicalista da Tarde.

O Movimento Nacional-Sindicalista era conhecido pela designação camisas azuis, que usavam como uniforme. Sendo um movimento de inspiração cristã, usavam uma braçadeira com a Cruz de Cristo, seu símbolo máximo. Fizeram comícios uniformizados, durante os quais utilizavam a saudação romana em voga nas organizações nacionalistas da época, conseguindo forte apoio nas universidades e na oficialidade mais jovem do Exército português. Era um movimento influenciado pela Doutrina Social da Igreja e pelo personalismo cristão. Fortemente sindicalista, queria corporativizar a representação política em Portugal, opondo-se ao comunismo e ao capitalismo.

Rolão Preto realizou um discurso antissalazarista, em 16 de Junho de 1933, numa sessão no São Carlos. Criticou o Estado Novo nascente por ter estabelecido o partido único, e por acreditar que não fez o suficiente pelo sindicalismo. Devido a esse acontecimento o jornal nacional-sindicalista Revolução acabou por ser suspenso em 24 de Julho de 1933.

Em Novembro, no mesmo ano em que o jornal Revolução fora suspenso, os nacionais-sindicalistas sofreram uma cisão interna. Um grupo numeroso de jovens decidiu apoiar Salazar e integrar-se na União Nacional, abandonando assim as ideias de independência perante o novo regime defendidas por Rolão Preto e Alberto Monsaraz.

Em 10 de Julho de 1934 Rolão Preto é detido, após uma última representação ao Presidente da República, general Carmona, em defesa de um governo nacional com a participação de todas as tendências políticas nacionalistas, é exilado quatro dias residindo durante um tempo em Valência de Alcântara, em Espanha, frente a Castelo de Vide. Em 29 de Julho o nacional-sindicalismo é proibido por meio de uma nota oficiosa de Salazar, que afirma que o movimento se inspirava «em certos modelos estrangeiros», nomeadamente o fascismo italiano.

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