Portugal voltará a ter uma Capital Europeia da Cultura em 2027, simultaneamente com uma cidade da Letónia

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Além de Lisboa, em 1994, Portugal já recebeu a Capital Europeia da Cultura em mais duas ocasiões: o Porto, em 2001, e Guimarães, em 2012. Aveiro, Leiria, Faro, Viana do Castelo, Coimbra, Évora, Braga, Guarda e Oeiras já anunciaram que vão apresentar uma candidatura para 2027.

A Capital Europeia da Cultura é uma iniciativa da União Europeia com o objetivo de promover uma cidade da Europa, por um período de um ano, durante o qual a cidade tem a hipótese de mostrar à Europa a sua vida e desenvolvimento cultural, permitindo um melhor conhecimento mútuo entre os cidadãos da União Europeia.

A iniciativa começou em 1985 sob proposta da ministra grega Melina Mercouri, com o nome de Cidade Europeia da Cultura. Apenas uma cidade era nomeada por ano, sendo a responsabilidade da organização do evento do Estado-membro ao qual pertencia essa cidade e sucediam-se por ordem alfabética dos países.

Em 1990, o Conselho de Ministros decidiu alargar a iniciativa a outros países da Europa não pertencentes à União Europeia. A norma teria início apenas em 1996, ano em que terminou um ciclo completo e é limitada a países que segundo a Comunidade Europeia, respeitem os princípios da democracia, do pluralismo e do estado de Direito. Segundo as novas regras era sugerido que fosse feita a alternância entre países membros e outros países, assim como se propunha a alternância entre capitais e cidades de província.

Em 25 de maio de 1999, o Conselho de Ministros e o Parlamento Europeu decidiram mudar o nome de Cidade Europeia da Cultura para Capital Europeia da Cultura.

Lisboa 1994

Antigos responsáveis da Lisboa Capital Europeia da Cultura 94 divergem na avaliação da iniciativa, com Santana Lopes a assinalar o sucesso numa década de Portugal “quase sempre em festa” e João Soares a lamentar “o pouco que ficou”.

“Correu bastante bem, foi muito positivo”, disse Pedro Santana Lopes, que em 1994 era secretário de Estado da Cultura do segundo Governo de Cavaco Silva.

Santana Lopes, que anos mais tarde, em 2001, viria a assumir a presidência da Câmara de Lisboa, destacou os “benefícios que trouxe para a cidade”, que conheceu ao longo daquele ano um reforço da programação cultural, em qualidade, quantidade e dimensão.

Além disso, a atribuição da distinção de Capital Europeia da Cultura serviu também como mote para a reabilitação de vários equipamentos da cidade, como o Museu da Arte Contemporânea. Mas, a “grande obra” foi o Coliseu dos Recreios, que era até essa altura “uma sala com condições antigas, deficientes” e “foi modernizado para ter as condições atuais”. A obra do Coliseu dos Recreios, é, aliás, praticamente o único ponto de ‘concórdia’ entre Santana Lopes e o então vereador responsável pelo pelouro da Cultura na Câmara de Lisboa, João Soares.

Painel publicitário colocado na Praça de Espanha, em Lisboa, por ocasião da L94. Foto de Kimberly DaCosta Holton

“Pode-se dizer que o Coliseu de alguma maneira, nesse desastre do ponto de vista patrimonial que foi a Capital Europeia da Cultura em 1994, o Coliseu foi a única coisa que escapou e o Museu de Arte Contemporânea no Chiado”, disse João Soares. Bastante mais crítico que o então secretário de Estado da Cultura, João Soares lamentou que nunca se queira fazer “avaliações rigorosas”. Em relação a Lisboa Capital Europeia da Cultura 94, a avaliação que faz é que “ficou muito pouco em relação ao que podia ter ficado”.

Para João Soares que passou a chefiar a autarquia da capital, depois de Jorge Sampaio se demitir da Câmara de Lisboa para se candidatar à Presidência da República, “o balanço que eu faço não é um balanço negativo, mas acho que podia e devia ter sido diferente (…). Não foi negativo, não sou pessimista, mas acho que também não é caso para se dizer que foi bom, podia ter sido diferente”, resumiu.

De acordo com o balanço realizado no dia do encerramento da Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 17 de dezembro de 1994, pelo comissário da iniciativa, Vítor Constâncio, ao longo dos dez meses que durou a iniciativa realizaram-se mais de 1.300 apresentações, com 530 projetos diferentes.

“A aposta foi ganha e a aventura valeu a pena”, considerou o então presidente da Câmara de Lisboa, Jorge Sampaio, no dia do encerramento.

Porto 2001

Antigos responsáveis do Porto – Capital Europeia da Cultura 2001, destacam a importância do trabalho prévio à candidatura e a apresentação de uma proposta “criativa, abrangente e ambiciosa”, pois o evento é “pretexto” para deixar “tudo diferente” numa cidade.

“A Capital da Cultura é um pretexto para a cidade, para tentar trazer algo de novo à sua rotina. No Porto, até a reabilitação urbana, apesar dos incómodos, tornou a cidade mais apelativa e preparada para ser usufruída. Aquelas ruas recuperadas junto aos Clérigos, onde mais tarde se veio a instalar a ‘movida’, mudaram completamente o espaço da cidade”, descreveu Teresa Lago, ex-presidente da sociedade Porto 2001.

Para o ex-presidente da Câmara do Porto, Fernando Gomes, a iniciativa “foi uma motivação importantíssima para unir a cidade e a região e dar-lhes uma competitividade em matéria de oferta cultural que antes não tinham” e “tudo ficou diferente”.

Quase 20 anos depois de o Porto ter sido Capital Europeia da Cultura, juntamente com a cidade holandesa de Roterdão, Fernando Gomes considera que o evento foi “um marco essencial para consolidar os equipamentos culturais de que a cidade e a região necessitavam”. O Porto 2001, como ficou conhecido, foi, ainda, determinante para “consolidar a fixação de públicos e atrair novos públicos”, sem esquecer o aproveitamento para a melhoria do espaço público, acrescenta.

Já Teresa Lago sugere que as cidades portuguesas que se vão candidatar ao evento apresentem “uma proposta criativa, abrangente e ambiciosa”. “No Porto 2001 abordámos também a ciência e o pensamento, a par da literatura ou da música”, recordou a responsável.

Teresa Lago defende ainda uma “mistura de componentes”, pois daí “resulta uma grande riqueza”.

“A recuperação urbana do Porto era uma componente tão importante como a vertente cultural. Acho que deixámos no Porto marcas definitivas na cidade, nomeadamente nos equipamentos, alguns dos quais se tornaram icónicos, como a Casa da Música”, afirmou.

Além da reabilitação de ruas da baixa, Teresa Lago recorda a recuperação da marginal entre o Edifício Transparente e a Praia do Homem do Leme.

A cidade esburacada, antes e depois de 2001, por causa da Capital Europeia da Cultura, mas também do Metro do Porto, ficaram a fazer parte da história do evento, tal como o trabalho diplomático de Fernando Gomes e do então ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho. Terão sido estas diligências, nos bastidores da UE, que permitiram, por exemplo, fazer frente à intensa contra-campanha lançada pelos espanhóis, que pretendiam incluir Valência no rol das capitais culturais de 2001.

Com a saída de Gomes para o governo, coube ao seu sucessor, Nuno Cardoso, escolher a astrofísica Teresa Lago para presidir à Porto 2001, mas cedo se assistiu a novos desentendimentos, motivados quase sempre pelas obras de renovação da Baixa.

O ano da Capital Europeia da Cultura chegou com ameaças de nova demissão, mas Teresa Lago “aguentou” até ao final do mandato, em junho de 2002, data em que a Porto 2001 deu origem a uma nova sociedade que geriu os projetos pendentes até à conclusão da Casa da Música, em 2005.

Guimarães 2012

A Capital Europeia da Cultura Guimarães 2012 foi há sete anos, mas “ainda perdura”, seja no simbólico coração que o evento “eternizou”, seja no “ânimo criativo” que continua e que levou a cidade a “assumir-se como polo cultural”.

Pelas ruas da cidade, o coração que serviu de apresentação e representação de Guimarães2012 é visível em praticamente todas as lojas, “tornou-se símbolo da cidade”, explicam os lojistas, que, embora reconheçam que o evento continua a marcar o pulsar do comércio, referem que os anos seguintes a 2012 foram “duros e de retrocesso” no negócio.

Para a ex-vereadora da Cultura da autarquia, Francisca Abreu, que exerceu o cargo nos anos que antecederam a Capital Europeia da Cultura e até 2013, mesmo com o poder político a “antecipar de alguma forma o efeito ressaca, que é normal depois de um ano tão intenso”, ainda assim “muita coisa perdurou”.

“Se a cidade já tinha uma dinâmica cultural invejável e pouco comum à dimensão de Guimarães, com a Capital Europeia da Cultura isso não acabou, pelo contrário, a cultura e as atividades culturais enraizaram-se no dia-a-dia dos vimaranenses”, apontou.

O “símbolo” Capital Europeia da Cultura levou também Guimarães a assumir-se como “um centro cultural mais desenvolvido e como um novo polo turístico de excelência”, com o aumento do número de visitantes aos monumentos da cidade a “manter um nível de crescimento consistente”.

“A cidade mudou. Não só pelas estruturas que surgiram, como a Plataforma das Artes e da Criatividade, ou a Casa da Memória, ou muitas outras mais pequenas que foram criadas para aquele ano, mas que perduram, mas também por iniciativas como a Outra voz (Coro comunitário) que ainda se mantêm ativas”, referiu Francisca Abreu.

Os vimaranenses, “mas não só, começaram a encarar a Cultura como uma coisa do dia-a-dia, que deve ser acessível a todos e não como uma atividade de elites”. Para a então responsável, esse foi um dos “grandes legados” da Capital Europeia da Cultura: “A democratização da cultura, a perceção de que a cultura é um bem essencial e não um luxo”.

 

Próximas capitais europeias da cultura

2020 — Rijeka (Croácia) e Galway (Irlanda)

2021 — Timisoara (Roménia), Novi Sad (Sérvia) e Elêusis (Grécia)

2022 — Esch (Luxemburgo) e Kaunas (Lituânia)

2023 — Uma cidade na Hungria

2024 — Uma cidade na Estónia e uma cidade na Áustria

2025 — Uma cidade na Eslovénia e uma cidade na Alemanha

2026 — Uma cidade na Eslováquia e uma cidade na Finlândia

2027 — Uma cidade na Letónia e uma cidade em Portugal

2028 — Uma cidade na República Checa e uma cidade em França

2029 — Uma cidade na Polónia e uma cidade na Suécia

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