O Museu da Resistência e da Liberdade em Peniche já tardava…

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Era uma notícia esperada há 43 anos pelos antigos presos que por lá passaram durante a ditadura: a Fortaleza de Peniche vai acolher o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade

A Fortaleza de Peniche “é praticamente o único símbolo da resistência ao fascismo”, disse à Agência Lusa Domingos Abrantes, 83 anos, o antigo preso político que mais anos esteve encarcerado.
“Passaram 43 anos e não podemos deixar de nos interrogar porque é que não temos o museu. Não foi por acaso e foi deliberado”, lançou Domingos Abrantes.
O histórico comunista, membro do comité central do PCP, recordou uma resolução do Conselho de Ministros de 1976, em que o Governo da altura decidia que nesse espaço seria erguido um museu nacional.
O membro do comité central do Partido Comunista Português (PCP) para aí foi transferido logo depois da célebre fuga do histórico líder do PCP Álvaro Cunhal, em 1960, ainda antes de ter sido condenado, e esteve numa cela individual “sem contactos com outros presos e sem livros”.
Depois de fugir da prisão de Caxias e voltar à clandestinidade, foi preso e voltou a Peniche para cumprir pena entre 1965 e 1973.
Durante esse período, casou-se, condição necessária para que a mulher o pudesse visitar. Num dos casamentos porventura mais curtos da história, perante testemunhas e o funcionário do Registo Civil, deu o nó matrimonial e voltou “sem direito a boda” para a cela isolada do pavilhão C, onde se encontravam os “resistentes do fascismo mais responsáveis”.
“A única fotografia que tenho de casamento é à porta da fortaleza com a noiva, convidados, padrinhos, amigos e sem o noivo”, lembra à Lusa, enquanto percorre os espaços da antiga cadeia.

Depois de vários projetos para aí previstos, após pressão da Assembleia da República na sequência de manifestações contra a inclusão do monumento na lista do património a concessionar pelo Estado para fins turísticos, em abril de 2017 o Governo optou por investir 3,5 milhões de euros na instalação do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.
“Ainda não temos o museu, mas agora o processo é irreversível”, concluiu o antigo preso, satisfeito com o desfecho “feliz” da luta entre 2016 e 2017 para travar que aquelas paredes e edifícios prisionais, pejados de memórias vivas de presos e respetivas famílias que por lá passaram, fossem demolidos ou utilizados para dar lugar a um hotel de luxo.
“De todos os símbolos do fascismo só restava este e este esteve também ameaçado de desaparecer e o facto de estar de pé é uma conquista”, sublinhou o resistente antifascista.

Os antigo presos políticos, Domingos Abrantes (esq), João Pedro Soares (dir), e Afonso Rodrigues (centro) Foto: Lusa

Preservar uma memória de luta e resistência

“Hoje é uma grande alegria chegar aqui, 45 anos depois, e ver os edifícios a serem pintados e a ser recuperados para serem parte integrante do futuro museu”, confessou José Pedro Soares, outro dos antigos presos que ainda se encontram vivos.
De lágrimas nos olhos, para este antigo preso político “é muito importante perpetuar para o futuro e sobretudo para as novas gerações o que foi o fascismo e a luta pela liberdade e haver esse testemunho para memória futura”.
José Pedro Soares, condenado a três anos e meio por “trazer muita gente para a luta” antifascista, cumpriu um ano em Peniche, cuja enfermaria era usada para “trocar informações” entre presos de diferentes pavilhões, que de outro modo não contactavam.
“Escrevíamos num papel pequenino informações, embrulhávamos tudo com miolo de pão e colávamos no banco em que esperávamos para sermos atendidos, porque sabíamos que os presos do outro pavilhão iriam lá a seguir e tiravam a mensagem”, contou.
Ambos consideraram que as palavras “resistência” e “liberdade” não podem estar dissociadas, pois o 25 de Abril de 1974, conhecido também como a ‘Revolução dos Cravos’, “não teria existido sem os 48 anos de resistência”.
À exceção dos presos que se encontravam em cela individual, os restantes encontravam-se em celas coletivas e tinham horas para vir ao recreio exterior. Era o caso de Afonso Rodrigues, um dos muitos nomes que passaram por Peniche.
Nas escadas da entrada do pavilhão A, onde as medidas de segurança eram menores do que no C, ocupava-se de “encadernar livros”, que aprendera com um colega que tinha estado numa tipografia clandestina, e escondia relatórios escritos a lápis em papel de mortalha para chegarem ao exterior.
Dos cerca de 2.400 presos que estiveram em Peniche e que hoje vão ver erguido um memorial com todos os seus nomes gravados, restam cerca de 50 sobreviventes.
Neste sentido, defenderam a necessidade de um museu para preservar a memória desse período da História de Portugal e recordá-lo às novas gerações.

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