Consoada portuguesa dos emigrantes teve preços para todos os gostos

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A consoada típica portuguesa aconteceu onde quer que existam emigrantes, mas os preços da refeição oscilaram entre os valores pagos em Portugal e quase 200 euros por família na Venezuela, apenas para comprar os bens básicos do cabaz de natal.

Um cabaz de natal – com dois quilos de bacalhau (nalguns países não é possível encontrar salgado), um quilo de batatas, dois quilos de couves, um litro de azeite, um quilo de farinha, dois quilos de abóbora – custaram 33,2 euros no Reino Unido, mas em Caracas, capital da Venezuela, esse valor quadruplicou, custando 118,61 euros.

O Centro Português de Caracas organizou um jantar a preço de custo onde o bacalhau não entrou – “porque não há”, referiu o presidente, Juan Ricardo Ferreira – e cada pessoa teve de pagar 60 euros. Aqui, é difícil definir um preço dos produtos. Primeiro é preciso encontrá-los e depois negociar.

Numa comparação de preços entre vários locais de destino dos emigrantes portugueses, Macau foi outro dos locais em que o mesmo cabaz de natal custava o dobro de Portugal ou da Europa. O mesmo cabaz que custava cerca de 25 euros em Portugal custava 65,1 em Macau, um sinal da distância que os produtos tradicionais têm de percorrer até serem comercializados no “mercado da saudade” dos países de destino.

Em Angola, esse mesmo cabaz tinha um custo de 46,5 euros, um valor que desceu um pouco na África do Sul, com 41,3 euros. Também no hemisfério sul, em Timor-Leste, um português que quisesse comemorar a consoada de Portugal teria de gastar 62,3 euros neste cabaz enquanto que em São Paulo, no Brasil, o valor atingiu os 33,3 euros, também beneficiando do facto de a moeda local – o real – estar numa baixa acentuada face ao euro.

O grande custo associado ao natal foi o bacalhau, cujo preço oscilou entre os 13,1 euros por quilo no Reino Unido, os 23 euros de Timor-Leste e os 45,1 euros na Venezuela.

Já nos restantes produtos, tudo dependeu da tradição agrícola do país. A abóbora e o azeite são caros em Macau (dois euros o quilo e 11 euros o litro) enquanto no Brasil estes mesmos produtos custam menos de metade (60 cêntimos o quilo de abóbora e 4,5 euros o litro do azeite).

A Venezuela permanece, nesta equação, uma parcela à margem. Um quilo de tomates custa cinco euros, cereja está a 49,54 euros e uvas a 19,21 euros. Nas carnes, um quilo de carne de porco está à venda por 10,23 euros enquanto o frango, difícil de conseguir nas prateleiras, fica a 5,68 euros.

Em Caracas, a família de José Caldeira (três pessoas) gastou 158 euros, um orçamento que “incluiu uma garrafa de vinho, o pernil, e as ‘hallacas’ (um prato típico que consiste num guisado envolto numa massa embrulhada em folhas de bananeira)”. Este ano “bacalhau nem vê-lo”, disse José Caldeira, visivelmente cansado do desgaste da procura diária dos bens de primeira necessidade no país.

Esse esforço não sente Elsa Mendes, de Mangualde, no Reino Unido há 15 anos.

“Os meus pais e irmãos estão cá, por isso passo sempre cá e juntamo-nos todos. A ceia tem tudo como se fosse em Portugal: fazemos bacalhau com couves e polvo com molho verde, biscoitos (de azeite) e filhoses”, referiu entusiasmada.

Em Macau há seis anos, Luís Martins, 33, chegou sozinho, constituiu família e em meia-dúzia de anos o Natal ‘iluminou-se’. “Agora tenho uma filha e um Natal mais português. Quando cheguei, não conhecia ninguém, montava apenas uma árvore de Natal e telefonava para Portugal, para a família”, recorda.

“Como trabalho na restauração tenho mais facilidade em arranjar produtos portugueses, não dispenso, mas com os meus horários acabo por investir mais nas sobremesas e nos doces do que propriamente na ceia”, explica.

De Joanesburgo, África do Sul, Analiza Lousada, olha para o natal de um modo diferente, por ser no hemisfério sul e em pleno verão. “A partir de 16 de dezembro quase todas as empresas já entraram em férias e o ambiente é de festa”, com cânticos de natal em todos os centros comerciais e nas ruas das cidades, explicou. “Nós, portugueses aqui (na África do Sul) abrimos as prendas no dia 24. Os ingleses, por norma, fazem-no no dia 25, enquanto nós é na noite de consoada”, diz Analisa, provando que as tradições portuguesas se repetem em todas as latitudes.

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