Faz hoje 211 anos que a família Real portuguesa partia para o Brasil

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12 000 pessoas embarcam em 8 naus. A partida da corte portuguesa para o Brasil, em 29 Novembro de 1807, foi preparada e pensada com antecedência. Ao longo da História portuguesa outros monarcas ponderaram também esta solução, ou por interesses económicos ou por ameaças diversas: D. João III, no século XVI, admitiu a hipótese da transferência do governo para o Brasil, que funcionaria como sede do império português. D. João VI, após a Restauração de 1640, considerava o Brasil o destino mais seguro para o estabelecimento da família real, longe da ameaça espanhola. E o próprio Marquês de Pombal que após o terramoto de 1755 e o atentado contra a vida de D. José I, em 1759, ponderou a partida do rei para o novo continente.

Durante o ano de 1807, verificou-se o avanço das tropas napoleónicas sobre a Península Ibérica. Napoleão Bonaparte pretendia tornar-se o senhor da Europa e lançara uma vasta campanha de conquista dos territórios e dos seus habitantes. Impôs o que ficou conhecido por Bloqueio Continental, de 21 de Novembro de 1806, um bloqueio económico contra a Inglaterra, que se traduzia no fecho dos portos ao comércio com este país e na entrega aos franceses de todos os súbditos ingleses que residissem em território nacional. Portugal optava pela neutralidade, não cumprindo as ordens francesas e numa estratégia diplomática tentou comprar a paz aos franceses, o que não conseguiu.Por esta altura, a família real espanhola sofreu a expatriação, a prisão e o consequente desterro imposto pelo governo francês.Em Portugal reinava ainda D. Maria I, que se encontrava incapaz de governar devido a uma longa e grave doença psíquica que a afectava desde 1795. O príncipe regente D. João, futuro D. João VI, assumiu a regência e assistia com atenção aos avanços dos franceses na Europa. Em Agosto, fora aconselhado pelos ministros a partir para o Rio de Janeiro. Por isso, a 7 de Setembro de 1807, dirigiu um ofício ao ministro de Portugal residente em Londres, comunicando a sua intenção de se retirar para o Brasil, para evitar a guerra, a invasão do território português e para manter a salvo a monarquia portuguesa. A 22 de Outubro de 1807 D. João assinou com Jorge III, uma convenção secreta, em que era garantida a protecção e a defesa a Portugal, apoio na partida da família real para o Brasil e na ocupação temporária da ilha da Madeira pelas forças britânicas. Em troca o governo português não entregaria os súbditos britânicos nem lhes confiscaria os bens e não fecharia os portos à navegabilidade e comércio com a Inglaterra.

Divisão do território português em 3 partes

Ao saber da convenção luso-britânica, os franceses assinaram com os espanhóis o tratado de Fontainebleau de 27 de Outubro de 1807, que previa após a invasão de Portugal, a divisão do território português em três partes, o norte tomaria o nome de “Lusitânia Setentrional” e seria entregue à Casa da Etrúria, o centro do país seria destinado aos franceses e o Algarve seria entregue ao Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Manuel de Godoy.

Desde 18 de Outubro que o exército francês de 20.000 homens comandados por Junot se concentrava em Baiona e atravessava, após a assinatura do tratado, a fronteira espanhola dirigindo-se para Portugal para invadir o país. Uma esquadra inglesa, comandada por Sidney Smith, estava pronta para defender Lisboa.
A 20 de Novembro, o Comandante Junot entrou em Castelo Branco, o príncipe regente encontrava-se em Mafra e a restante família real em Queluz. Organizaram-se então os preparativos, já pensados desde Agosto, para o embarque e viagem para o Brasil. Foram escolhidas as pessoas que seguiriam com a família real, nobres, membros do clero, oficiais, funcionários públicos e demais pessoal que acompanharia a máquina governativa e entregues os passes para o embarque.As residências reais de Queluz e Mafra são evacuadas. O Tesouro Real é aprovisionado para ser levado para o cais de Belém, assim como mobiliário dos palácios, material das repartições públicas, volumes da biblioteca da Ajuda e arquivos, documentos estatais e até uma tipografia.O príncipe regente assina o decreto de 26 de Novembro, em que estabelece as condições da regência do país durante a sua ausência. Esta seria entregue ao Marquês de Abrantes, Francisco da Cunha Meneses, ao Regedor das Justiças, Pedro de Melo Breyner, ao Presidente da Mesa da Consciência e Ordens, Dr. Francisco de Noronha, ao Conde Monteiro-Mor D. Miguel Pereira Forjaz e ao Conde de Sampaio, João António Salter de Mendonça. O decreto apelava “à manutenção da paz no reino” e à “conservação da harmonia entre os exércitos das Nações”.

Na manhã de 27 de Novembro, o príncipe D. João chega a Belém acompanhado pelo infante de Espanha, D. Pedro Carlos, que embarcam na nau “Príncipe Real”.
D. Carlota Joaquina e os seus 6 filhos seguem para a “Rainha de Portugal” e “Afonso de Albuquerque”. A rainha D. Maria I chega numa liteira e como oferece resistência no embarque é levada ao colo.
Com eles vão também os Duques de Cadaval, os Marqueses de Angeja, de Vagos, do Lavradio, de Alegrete, de Torres Novas, de Pombal, de Belas e ainda os Condes do Redondo.

Cerca de 12000 pessoas embarcam numa esquadra composta por 8 naus, “Príncipe Real”, “Rainha de Portugal”, “Medusa”, “D. João de Castro”, “Afonso de Albuquerque”, “Príncipe do Brasil”, “Conde D. Henrique”, e “Martim de Freitas”; 3 fragatas, “Golfinho”, “Minerva” e “Urânio”; 4 brigues, “Voador”, “Vingança”, “Lebre” e “Curiosa”; 1 escuna de guerra; e 20 navios mercantes da marinha nacional.Na manhã do dia 29, enfim, “ao nascer do dia”, põem-se em movimento as oito naus de linha, as quatro fragatas e quatro embarcações menores, que levavam a corte, e mais uns quarenta navios mercantes, onde viajava a elite económica e social de Portugal. Foi uma das maiores fugas oceânicas de que se tem notícia. Com a corte, vão todos os tesouros do reino, deixando-se nos cofres públicos apenas os títulos de dívidas que nunca seriam pagas.

No cais amontoavam-se habitantes de Lisboa, que ao se aperceberem da partida da família real tentam também embarcar. Guardas da polícia patrulham o cais, no qual se chegou a erguer duas tendas, que albergavam toda a carga e a bagagem. Seges e liteiras chegam de todas as direcções com os ministros e os que partem. A confusão foi grande e na pressa muito ficou por embarcar, porque não fora prevista o volume de pessoas e de carga. A bordo os barcos encontravam-se cheios, e segundo os testemunhos e relatos da época a confusão era grande.

Por falta de vento a viagem não pode logo prosseguir e a Corte ficou a pairar no Tejo até ao dia 29 de Novembro. A 30 as tropas de Junot entraram na cidade de Lisboa acompanhados pela guarda real portuguesa, que tinha ordens para receber os invasores sem hostilidade. A família real partiu e com ela seguiu a armada de Sidney Smith, que deveria acompanhar a expedição portuguesa e assegurar a boa viagem da corte até ao Rio de Janeiro.
A vida na cidade parou. A pilhagem teve início, funcionários e credores ficaram sem os seus pagamentos, os preços dos bens essenciais atingiram preços muito altos e parou a circulação da moeda. Por Lisboa eram afixados os editais a informar o povo de que o exército francês viera salvar a cidade, o porto e o príncipe da “influência maligna da Inglaterra”.

Partiu pela primeira vez a Corte para o Brasil, e aí permaneceu até 1821.
D. João compreendeu a vulnerabilidade do país e as poucas hipóteses dos esforços diplomáticos. Optou pela manutenção da monarquia e pela salvaguarda dos interesses económicos, no velho e histórico pacto com a Inglaterra.

Partida da Corte para o Brasil (1807) “Vejo que pelo interior do meu Reino, marcham tropas do Imperador da França e Rei de Itália (…) e que as mesmas se dirigem a esta capital (…) Conhecendo eu igualmente que elas se dirigem particularmente contra a Minha Real Pessoa e que os meus Reais Vassalos serão menos inquietados ausentando-me eu deste Reino, tenho resolvido (…) passar com a Rainha (…) e toda a Real Família para os Estados da América e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro até à paz geral (…)” Carta de D. João VI (adaptação)
“As bagagens da Corte, expostas ao tempo e quase abandonadas, ocupavam desde a rua da Junqueira até ao Cais e as carruagens não puderam entrar no Largo de Belém porque (…) o imenso povo que estava no largo, as bagagens e o regimento de Alcântara que faziam a guarda de honra impediam o trânsito (…) Por uma salva da esquadra soubemos que Sua Alteza tinha chegado a bordo. A maior parte das famílias, em consequência da confusão que reinava, dividiam-se embarcando no primeiro navio que encontravam; as bagagens ficavam em terra e muita da que embarcou foi em navios aonde não iam os seus donos (…)”

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