E agora: para onde Venezuela?

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A nação, é a impossibilidade de um projeto nacional nos dias atuais, o nacionalismo é a origem do problema, o contrário da sua solução, o verdadeiro obstáculo a ser derrubado.

Chegou-se a um ponto em que a Venezuela cada vez mais isolada em matéria de relações internacionais foi-se refugiando numa reorganização do aparato estatal e, sobretudo do PDVSA (Petróleos da Venezuela), que consolidaria uma facção própria do capital nacional, uma “burguesia” caracteristicamente chavista que apoiaria o regime por todos esses anos. De forma paradoxal a reorganização que se deu após a tentativa de golpe de 2002 traria também custos ao capital ao desorganizar a exploração de petróleo, afastando a pequena burguesia associada com os aspetos técnicos da produção.
O “chavismo”, direcionado pelas próprias facções do capitalismo de Estado que ele havia fortalecido e até criado, reforçou seu compromisso com a centralidade do petróleo como o único motor viável da economia nacional.
Os setores de exportação não petrolíferos começaram a morrer e tentou-se assegurar a coesão social com uma mescla de programas de direcionamento de rendimento para os setores excluídos de uma produção que não sabia como absorvê-los de forma produtiva e um autoritarismo crescente.

A morte de Chavez e a crise política

Recorde-se que apenas 15 meses depois da morte de Chávez, em junho de 2014 o preço do petróleo no mercado internacional caíu com estrondo. O regime, incapaz de manter uma coesão básica entre as diferentes facções da burguesia e cada vez mais temendo uma revolta social, estava a perder o tempo e as alternativas. Para complicar mais as coisas, faltava apenas uma crise política e social, foi o que viria a acontecer em 2015, com o “chavismo” a perder as eleições parlamentares, começando assim uma violenta batalha entre os dois polos da burguesia venezuelana — o campo chavista e sua oposição — que chegou a seu apogeu no verão de 2017.
A estratégia de Maduro e da ANC foi até agora de salvar o Estado da falência ao declarar a sua dependência do capital chinês e russo. Uma de suas primeiras medidas foi a de modificar a “Lei Orgânica sobre os Hidrocarbonetos” para eliminar o mínimo de 50% da participação do Estado em projetos mistos. Tratou-se de uma privatização disfarçada da PDVSA (Petróleos da Venezuela), cujo corpo central já está há muito descapitalizado, era o desejo da Rosneft (uma aliança entre o capital russo e a British Petroleum) para entrar na bacia do Orinoco. A privatização foi então estendida a toda a mineração, correspondendo aos interesses Chineses no país.
Esta posição começou a produzir conflitos crescentes dentro da própria estrutura chavista e mesmo tentando administrar a falência do Estado, não foi capaz de evitar o aprofundamento do colapso económico e respetiva decomposição social. Tudo o que tem sido tentado para se recompor, nomeadamente o aumento do preço do combustível, agrava ainda mais a pobreza dos trabalhadores e da classe média. É por isto que as suas medidas parecem contraditórias: nacionalizar o capital oposicionista, racionar combustível e aumentar os salários em 40%.
A famosa “crise do pernil” não nos mostrou apenas o crédito nulo que as agências venezuelanas têm com o exterior, mas também a extrema fragilidade de uma grande parte da população, que vive desamparada, e que as forças armadas não sabem como conter nem como lhe prover alimentos.

A Venezuela tem algum futuro?

O natal na Venezuela foi de escassez: de comida, recursos, dinheiro vivo para poder gastar nas lojas, serviços básicos e até mesmo de abastecimento nos hospitais. A decomposição social já atingiu um nível selvagem. Em 2017, o Estado venezuelano contabilizou mais de 26 mil assassinatos, quase 70% a mais do que todas as casualidades das guerras jogoslavas nos anos 90 somadas. Quatro das cidades mais violentas e perigosas do mundo estão na Venezuela. E o futuro?
A Venezuela é uma demonstração da impossibilidade do desenvolvimento independente do capital nacional na era imperialista; é a refutação material de todos os argumentos a favor da “libertação nacional” na periferia do mercado mundial e a negação por meio da dura realidade de todas as ilusões desenvolvimentistas do capitalismo de Estado que nos foram vendidas ao longo de décadas pelo “socialismo de rosto humano”. A situação na Venezuela não tem outro caminho à sua frente senão a decomposição social, a migração em massa e o desenvolvimento autoritário do Estado. A perspectiva do capitalismo nesse país é a de um novo Estado falido e dependente deste ou daquele imperialismo. Para os trabalhadores venezuelanos, a única alternativa é a da construção da luta à margem de chavistas, antichavistas ou qualquer outra facção, agindo em seus próprios interesses. Qualquer luta que siga a lógica da nação, da pátria, da Venezuela ou até mesmo da “grande pátria latino-americana”… estará sempre condenada à derrota. Entre outros motivos, porque “a nação”, é a impossibilidade de um projeto nacional nos dias atuais, o nacionalismo é a origem do problema, o contrário da sua solução, o verdadeiro obstáculo a ser derrubado.
José Manuel Duarte

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