Batalha de La Lys: dois testemunhos de quem sobreviveu

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A seguir à Batalha de Alcàcer Quibir, a Batalha de La Lys foi o maior desastre militar português, por mais ilustrações de heroísmo que houve, a realidade é bem crua, triste.

As forças portuguesas perderam na Batalha de La Lys, entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, 327 oficiais e cerca de 7.500 soldados, dos 721 e 20.359, respectivamente, que haviam entrado em combate.
Uma derrota humilhante – apesar da forte resistência dos portugueses e de algumas histórias individuais de heroísmo – que marcou o início do fim da participação portuguesa na I Guerra Mundial.
Os efetivos ainda aptos do CEP foram posteriormente formados em três batalhões de infantaria, e integrados no exército inglês, no qual lutaram até ao armistício, em novembro de 1918.

O herói ‘Milhões’

Aníbal Augusto Milhais nasceu 9 de julho de 1895 em Valongo, Murça, , distrito de Vila Real, e faleceu em 3 de junho de 1970, aos 74 anos. Mais conhecido por ‘Soldado Milhões’, foi o soldado português mais condecorado da I Guerra Mundial e o único soldado português premiado com a mais alta honraria nacional, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, entregue no campo de batalha, em vez da habitual cerimónia pública em Lisboa.
Na Batalha de La Lys, a 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português foi completamente desbaratada, sacrificando-se nela muitas vidas, entre os mortos, feridos, desaparecidos e capturados como prisioneiros de guerra.
No meio do caos, distinguiram-se vários homens, anónimos na sua maior parte. Porém, um nome ficou para a História: Aníbal Augusto Milhais. Viu-se sozinho na sua trincheira, apenas munido da sua arma, uma metralhadora Lewis, conhecida entre os lusos como a ‘Luísa’.
Munido de coragem, enfrentou sozinho as colunas alemãs que se atravessaram no seu caminho, o que em último caso permitiu a retirada de vários soldados portugueses e ingleses para as posições defensivas da retaguarda.
Vagueando pelas trincheiras e campos, ora de ninguém ora ocupados pelos alemães, o ‘Soldado Milhões’ continuou ainda a fazer fogo esporádico, para o qual se valeu de cunhetes de balas que foi encontrando pelo caminho.
Quatro dias depois do início da batalha, encontrou um médico escocês, salvando-o de morrer afogado num pântano. Foi este médico, para sempre agradecido, que deu conta ao exército aliado dos feitos do soldado transmontano.
Regressado a um acampamento português, o comandante Ferreira do Amaral saudou-o, dizendo o que ficaria para a História de Portugal: “Tu és Milhais, mas vales Milhões!”

Aníbal Augusto Milhais ficou conhecido por ‘Soldado Milhões’

Analfabeto e pobre, mas valente

O ‘Soldado Milhões’ tornou-se herói da Primeira Guerra Mundial ao enfrentar sozinho uma ofensiva alemã e a sua história faz parte da aldeia de Valongo de Milhais, que mudou de nome em sua homenagem e quer transformar a sua casa num memorial.
Na sua terra natal todos conhecem a história do jovem analfabeto e pobre, um franzino com pouco mais de metro e meio de altura, que desobedeceu às ordens de retirada e ficou para trás, sozinho e abrigado numa trincheira, a disparar contra o inimigo.
“Cresci a ouvir a história do meu avô. O meu avô acabou por estar sempre muito presente na família”, afirma Eduardo Milhões Pinheiro, um dos netos de Aníbal Augusto Milhais, a propósito do centenário da chegada à Flandres dos primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial.
Após a guerra e a condecoração, o soldado regressou à sua terra natal. Tornou-se agricultor, casou, teve 10 filhos, ainda chegou a emigrar para o Brasil, de onde pouco tempo depois regressou por pressão da comunidade portuguesa, que considerava “que não era digno” um herói nacional ser emigrante.
A comunidade portuguesa arranjou dinheiro, coletando-se, e convidou-o a regressar à sua terra natal. Passou a ser usado pela propaganda dos governos da primeira República e pelo Estado Novo.
O ‘Soldado Milhões’ teve sempre uma vida modesta e as medalhas conquistadas foram doadas ao Museu Militar do Porto e também no Museu do Regimento de Infantaria 13, em Vila Real.

O busto de João Manuel da Costa Assunção

A Associação Memória das Migrações lançou uma campanha de angariação de fundos para oferecer a cópia do busto de um soldado português que lutou na Primeira Guerra Mundial à sua filha, de 91 anos.
O busto original de João Manuel da Costa Assunção, que pesa 80 quilos, foi esculpido em pedra pelo artista autodidata Manuel Jorge Pereira em homenagem ao português de Ponte da Barca, que se apaixonou por uma francesa que morava perto da frente de batalha e que acabou por ficar em França.
Agora, a associação quer oferecer uma réplica, “em matéria mais leve”, a Felícia Glória d’Assunção Pailleux, a filha do soldado que nos últimos 40 anos tem sido a porta-estandarte de Portugal nas comemorações anuais da Batalha de La Lys.
“Na nossa semana cultural, no ano passado, o Manuel Jorge Pereira teve a ideia de fazer um busto para oferecer a Felícia, em homenagem ao seu pai. Eu fiquei encarregue de lhe arranjar fotografias e de falar com a família. Mas o busto acabou por pesar 80 quilos e como queremos que ela o leve para as exposições, decidimos angariar fundos para fazer uma cópia em matéria mais leve”, contou à Lusa o presidente da associação, Parcídio Peixoto.
O busto original “deverá ir para um local público”, em França, em memória do Corpo Expedicionário Português (CEP) e a cópia deverá ser entregue a Felícia d’Assunção no dia 9 de abril, durante as comemorações do centenário da Batalha de La Lys, no norte de França.
Felícia Glória d’Assunção Pailleux é a terceira de 15 filhos do soldado que escolheu a França quando a guerra terminou e que foi um dos sobreviventes da Batalha de La Lys, a 9 de abril de 1918.

História contada na exposição ‘Racines”- “Raízes’

Felícia conta que, no final da guerra, o pai ainda foi até ao barco para regressar a Portugal mas arrependeu-se e foi bater à porta da mãe, onde ficou a dormir no corredor até casar com ela. Alguns anos depois, o português adquiriu a nacionalidade francesa e abriu uma oficina de bicicletas.
Esta é uma das histórias que vão estar em destaque na exposição ‘Racines”- “Raízes’, comissariada pela bisneta de João Assunção e neta de Felícia, Aurore Rouffelaers, e que vai estar patente de 7 de abril a 6 de maio de 2018, em Richebourg, perto do cemitério onde estão sepultados 1.831 soldados portugueses da primeira guerra mundial.
A imagem de João Assunção vai, ainda, integrar a exposição ‘As faces do combate’, com os rostos de homens e mulheres que participaram na Batalha de la Lys espalhados pelas diferentes localidades onde esteve o CEP.
A Associação Memória das Migrações, em conjunto com a associação Amicale Culturelle Franco-Portugaise Intercommunale de Viroflay, vai participar nas comemorações do centenário da Grande Guerra a 8 e 9 de abril, com uma viagem a Boulogne-sur-Mer, Richebourg e La Couture.
Durante o congresso da associação de autarcas de origem portuguesa Cívica, foi anunciado pelo conselheiro da Embaixada de Portugal em Paris, Carlos Pires, que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa, se vão deslocar-se a França para as cerimónias do centenário da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, de 8 a 10 de abril.

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