“A Venezuela é um país com muito potencial no que se refere ao ensino da Língua Portuguesa”

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Entrevista
Rainer Sousa, coordenador na Venezuela

A promoção e difusão da Língua e Cultura portuguesas é o grande objetivo da Coordenação do EPE (Ensino Português no Estrangeiro) na Venezuela. Um país onde a maioria dos estudantes de Português ainda são luso-descendentes, mas onde se tem notado “cada vez mais” o interesse em estudar esta língua por parte de venezuelanos sem nenhum vínculo com a comunidade portuguesa. Para que este interesse permaneça e cresça, é necessário, entre outras metas, formar mais professores, como sublinha Rainer Sousa.

Na Venezuela, o Português é dinamizado no regime de ‘ensino paralelo’, oferecido de forma extracurricular. “Ainda estamos a dar os primeiros passos na introdução do Português de maneira oficial nas escolas venezuelanas”, afirma Rainer Sousa. Há 22 instituições que oferecem cursos de Português, duas das quais começaram este ano organizá-los.
E se os alunos ainda são, maioritariamente, luso-descendentes, a Língua Portuguesa tem, a cada ano que passa, despertado o interesse de venenzuelanos sem nenhum vínculo familiar a Portugal.
São pessoas que por questões de emprego, de curiosidade ou porque, como eles próprios dizem, “o português chama-lhes a atenção” decidem inscrever-se nos diferentes cursos que vão aparecendo”, revela, nesta entrevista, o Coordenador do EPE na Venezuela.

Quais são as grandes metas para o EPE no que concerne à Venezuela?
A Coordenação de Ensino na Venezuela tem várias metas. Talvez a principal seja promover e difundir a Língua e Cultura portuguesas na Venezuela. Tanto a nível da nossa comunidade, como também entre os próprios venezuelanos. Nos últimos anos temos visto um grande interesse por aprender Português da parte dos luso-descendentes e não só.
O governo venezuelano tem visto com bons olhos a introdução de outras línguas estrangeiras, além do inglês, no currículo oficial de ensino. Prova disso foram as recentes alterações na lei do ensino venezuelano que já refere a importância de aprender outras línguas como o Português. Obviamente que, para corresponder a esse novo cenário, linguístico é preciso formarmos mais professores na Venezuela. Essa é outra das metas.
Quantos alunos aprendem Português a nível dos ensinos básico e secundário, no presente ano letivo na Venezuela e quantos professores o dinamizam?
É preciso compreender que todo o ensino de Língua Portuguesa ainda está inserido num ensino “paralelo”, isto é, as escolas oferecem cursos de forma extracurricular. Ainda estamos a dar os primeiros passos na introdução do Português de maneira oficial nas escolas venezuelanas.
No entanto, existem instituições com turmas de crianças e jovens que aprendem Português (variante europeia e brasileira) neste já mencionado ensino paralelo. Existem na atualidade cerca de 880 estudantes para um número de 37 professores.

Em quantas escolas o Português é ensinado em 2017? Neste ano letivo há mais escolas a dinamizá-lo?
Há 22 instituições que oferecem cursos de Português, incluindo duas que este ano começaram a receber estudantes de Língua Portuguesa.

Qual é atualmente o perfil desses alunos de Português num país com uma forte presença de portugueses e luso-descendentes? Estes descendentes estão a ‘redescobrir’ a língua dos seus país/avós?
A maioria ainda são luso-descendentes, mas há cada vez mais venezuelanos interessados em estudar Português sem ter nenhum vínculo com a comunidade. São pessoas que por questões de emprego, de curiosidade ou porque, como eles próprios dizem, “o Português chama-lhes a atenção” decidem inscrever-se nos diferentes cursos que vão aparecendo.
Há também o caso dos luso-descendentes que querem morar em Portugal e sabem que precisam do idioma para poderem continuar os estudos ou trabalhar nas suas respetivas áreas profissionais. Há um pouco de tudo.

Referiu recentemente que está a aumentar a procura dos cursos de Língua Portuguesa, havendo uma cada vez maior vontade dos venezuelanos em aprenderem esta língua. O que está na génese dessa procura?
Como disse anteriormente, e depois de ter ouvido muitas opiniões, é uma mistura de curiosidade, interesse linguístico e também um pouco de afinidade com a comunidade portuguesa.
Os portugueses são muito bem vistos pelos venezuelanos e há também bastantes aparentados com portugueses, através de casamentos. É comum conhecer venezuelanos que têm algum dos avós português.
Esta miscigenação, se assim podemos chamar, é uma mais-valia neste país. Além disso, os venezuelanos sabem muito bem que têm um grande vizinho mesmo ao lado que é o Brasil, o maior país lusófono do mundo.

Pode dar exemplos de projetos/atividades dinamizados prelos professores? De que forma complementam o ensino do Português?
Com o apoio da Coordenação de Ensino os professores têm dinamizado concursos com os alunos.
Anualmente levamos a cabo o concurso ‘10 de junho’ para o qual os estudantes devem preparar algum trabalho alusivo a Portugal e à sua história. Também temos todos os anos o Concurso ‘Postal e Conto de Natal’, no qual os alunos também devem participar com trabalhos originais relacionados com a quadra natalícia.
Os professores, por sua própria conta, organizam clubes de leitura e festejam nas suas instituições alguns dos feriados portugueses. Em Caracas, por exemplo, alguns docentes preparam os alunos para apresentações culturais relacionadas com algum capítulo da História de Portugal, tal como peças de teatro, etc.

Na área cultural, quais são os projetos dinamizados pela Coordenação, que têm mais receptividade por parte dos alunos? E o que já está planeado para o próximo ano letivo?
Também organizamos o Encontro de Estudantes de Língua Portuguesa da Venezuela. Este ano não foi possível levá-lo a cabo por questões bem particulares relacionadas com a situação da Venezuela, mas já agendámos esta atividade para o primeiro trimestre de 2018. Nessa oportunidade os alunos podem mostrar os talentos que têm em português, tais como teatro, música, coro etc.

A formação contínua de professores é uma atividade a que a Coordenação do EPE na Venezuela tem dado bastante importância.
O IV Encontro de Professores de Português na Venezuela, que decorreu recentemente foi muito participado?
Todos os anos a Coordenação de Ensino prepara um Encontro de Professores de Língua Portuguesa. O último foi realizado no dia 18 de novembro em San Diego, uma pequena cidade perto de Valencia.
Trouxemos uma professora de Portugal, a Dra. Helena Lemos, versada em questões de oralidade, com um conjunto de manuais relacionadas com essa área específica do ensino do Português para estrangeiros.
Foi muito bom. A professora esteve primeiro em Caracas, onde também ofereceu uma formação de 16 horas a docentes. O objetivo destes encontros é propiciar a formação dos professores, mas sobretudo estimular a interação entre docentes de várias partes da Venezuela, unindo os professores da variante europeia e brasileira num mesmo objetivo: difundir a língua de Camões neste país sul-americano.
Além disso, é uma grande oportunidade de convívio que projeta, através dos meios de comunicação e redes sociais, o esforço que estamos a fazer na promoção da língua.
Neste encontro estiveram presentes cerca de setenta pessoas, entre professores e atores envolvidos no ensino do Português.
Gostava ainda de ressaltar uma coisa, estas reuniões também têm a finalidade de formar uma espécie de identidade única entre os docentes. O meu objetivo é que depois dessa formação e convívio, o professor ou professora possa sair daí com mais ânimo e força para continuar o seu trabalho.
Na minha opinião, ensinar línguas estrangeiras é muito importante, porque aproxima povos e culturas de uma maneira muito particular.

Na área da formação contínua de professores, há já atividades planeadas para 2018?
Sim. Vamos organizar as II Jornadas de Formação em Língua Portuguesa com professores da Venezuela. Queremos que os docentes venezuelanos possam compartilhar com os seus colegas aquilo que têm feito na sala de aula ou queiram apresentar algum trabalho de investigação.
Também queremos organizar o V Encontro de Professores de Língua Portuguesa em outubro de 2018. Uma vez que a recetividade a este tipo de encontro está a crescer, estamos a pensar em mudar o nome e chamá-lo de “I Congresso de Professores de Língua Portuguesa da Venezuela”.
Com a Universidade Central da Venezuela, instituição com a qual o Camões I.P tem um protocolo de cooperação de quase 23 anos, também queremos participar na Semana do Intérprete e do Tradutor que todos os anos é realizada em Caracas.
Além disso, desejamos arrancar, de uma vez por todas, com um projeto de formação à distância para apoiar os professores em outras regiões da Venezuela. Este último projeto é levado a cabo com a Universidade de Carabobo.
A importância da docência do Português na Venezuela levou já à criação de uma associação de professores. De que importância se reveste? É uma parceira da Coordenação?
Esta associação chama-se Associação Venezuelana para o Ensino da Língua Portuguesa (AVELP). A AVELP tem ajudado sempre a Coordenação de Ensino.
Contudo, ainda há um longo caminho a percorrer para se afirmar mais no contexto venezuelano. O presidente da AVELP, o Professor David Pinho, tem apoiado sempre as iniciativas desta Coordenação de Ensino.

Em 2018, que novidades haverá no novo ano letivo na Venezuela a nível dos ensinos básico e secundário? Há a possibilidade de abertura de novos cursos de português?
Sim, sempre há instituições que, a meio do ano letivo, abrem novas turmas de Português.
É o caso do Colégio San Agustín e o Colégio Nossa Senhora de Fátima.

Na sua opinião, até onde poderá chegar o ensino da Língua Portuguesa na Venezuela?
A Venezuela é um país com muito potencial no que se refere ao ensino da Língua Portuguesa. Com certeza continuará a crescer nos próximos anos.
No entanto, um crescimento do interesse no Português coloca desafios a esta Coordenação de Ensino no que diz respeito à formação dos professores, devidamente capacitados para corresponder a essa procura.

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