1 – Emigrar era o desejo irresistível de muitos portugueses

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Portugal tem sido desde o século XV um país de emigrantes, o que inclusivamente acabou por condicionar e marcar a nossa história na actualidade.
Dos Descobrimentos e da vocação atlântica à actual integração plena no espaço da União Europeia, passando pelas “explosões de partidas” para Brasil e França, conhecer e viver noutras paragens sempre foi uma vocação dos portugueses.

Logo a partir do século XV e XVI a emigração dirigiu-se inicialmente para a costa Africana, aproveitando a navegação de cabotagem dos navegadores portugueses. As primeiras vagas de que há registo foram para as praças fortes do norte de África, nomeadamente Ceuta (1415), Tânger, Arzila, Alcácer Ceguer, Safim, Azamor, Mazagão e Cabo de Guer.

Igualmente se emigrou nesta época para a Madeira 1420-1425) e os Açores (1427), mas também para outras ilhas Atlânticas, como as Canárias, Cabo Verde e S. Tomé.

A partir de 1498 com a descoberta do caminho Marítimo para a Índia começa um grande período de emigração para o Oriente que se manteria bastante activa até ao século XVIII. Os portugueses vão-se estabelecendo ao longo da costa oriental de África e depois no golfo pérsico em Ormuz. Na Índia fixam-se em Goa, Diu, Cochim, Coulão, Bassaim e Chaul. Estabelecem-se ainda em Bengala, Malaca, ilhas Molucas, China, Japão, Timor e Indonésia

Em meados do século XVI aumenta a emigração para o Brasil, que viria a tornar-se no século seguinte o principal destino dos portugueses. Os primeiros emigrantes fixam-se na Baía e Pernambuco e logo a seguir para o Rio de Janeiro e cada vez mais para o interior. Mais tarde com as descobertas das minas de ouro e diamantes a emigração portuguesa para o Brasil toma novos rumos e formam-se então as colónias de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.

A expulsão dos judeus portugueses vem também contribuir muito para a diáspora tendo muitos fixado colónia nos países baixos (Holanda e Bélgica) e França, Alemanha e Inglaterra. Por tudo isto calcula-se (dados de Vitorino Magalhães Godinho) que só entre 1500 e 1580 tenham emigrado cerca de 280 mil portugueses e no período seguinte de 1580 a 1640 (dominação Filipina) mais 360 mil, o que para a época eram números impressionantes.

A emigração para o Brasil não mais parou de crescer até meados do século XVIII por causa da exploração mineira. Nesta altura os portugueses vão também da Madeira e dos Açores repovoando o litoral de Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

No período de 1700 a 1760 calcula-se que a emigração tenha atingido 600 mil pessoas, um número esmagador já que em 1732 a população portuguesa não chegaria aos dois milhões e meio de pessoas o que significa que nestes 60 anos 25 por cento da população portuguesa emigrou.

No entanto nos finais do século XIX com a fixação da corte portuguesa no Brasil a emigração para aquele país não diminuiu. No último quartel deste século e até 1930 ocorreu em Portugal um grande fluxo de emigração levando os portugueses a olhar para outros destinos onde se registavam novos movimentos humanos e que pudessem ser alternativa para o Brasil, e por isso começam a espalhar-se pelos Estados Unidos, Argentina, Venezuela, Canadá, Austrália, Uruguai, Ilhas do Hawai e aumentando também a emigração também para Angola e Moçambique, para além de outras regiões de África, daí a razão de começarem a aparecer grandes comunidades na África do Sul e Zimbabwe.

A debandada dos anos 60

E chegamos assim aos anos sessenta em que a emigração atingiu tal expressão que se pode falar de uma autêntica “debandada nacional” que abalaria completamente as estruturas da sociedade portuguesa de então.

Portugal era nesses anos um país deprimido. O regime de Salazar ia governando o país fechando-o cada vez mais na sua pequenez geográfica. A nossa neutralidade política durante a Segunda Grande Guerra, tinha-nos empurrado para um estado de isolamento das outras nações. Apesar de “orgulhosamente sós”, como o regime gostava de apregoar, a realidade era bem diferente e esse estar só, começava a criar-nos problemas estruturais graves. Para complicar todo o quadro, a guerra em África estava cada vez mais complicada e levava-nos os jovens na casa dos vinte anos, três e por vezes mais anos para África.

Mas também era aqui que tinham a oportunidade de conhecer um mundo diferente das suas pequenas e acanhadas aldeias. De perceber que afinal havia mais alternativas e oportunidades do que aquelas que apenas conheciam no local onde tinham nascido.

Na maioria dos casos quando acabado o serviço militar, o regresso para as suas terras era quase uma impossibilidade. Depois do que tinham vivido, das experiências porque tinham passado, a aldeia já de si pequena, acanhava-se ainda mais e começava assim um grande ciclo, que primeiro levaria esta nova geração para os grandes centros, e mais tarde a não resistir aos apelos de países como a França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça que constantemente pediam braços para desenvolver as suas economias. Só para França partiu mais de um milhão de portugueses no espaço de apenas de dez anos.

Os números da emigração portuguesa neste período são impressionantes. Só entre 1958 e 1974 as estatísticas oficiais registam que 1,5 milhões de portugueses tenham deixado Portugal. Em 1973 foram 123 mil e no ano seguinte mais 73 mil.

Mas não se entenda este movimento como um fenómeno social, enquadrado e limitado no seu tempo. Como se disse no início é um movimento perpétuo que integra a “herança genética” dos portugueses e que os leva a este estado permanente de “estar sempre de partida” para os lugares, onde as oportunidades sejam mais apelativas.

Estamos em 1970. O regime em Portugal caminha para o fim e apesar de continuarmos “orgulhosamente sós” no conjunto das nações, os milhões de emigrantes portugueses iam “abrindo” a mentalidade do país para novos problemas, mas também para novas soluções e costumes que traziam dos países que os haviam acolhido. Através destes emigrantes começavam a perceber-se os outros países e via-se que eram locais de progresso onde muitos iam alcançando a sua realização pessoal. Nesta altura já se emigrava também por razões culturais para além das razões económicas, mas em Portugal falar de emigração era assunto tabu que o regime não apreciava. No fundo era admitir que a Pátria era madrasta para tantos portugueses que para fugir ao miserabilismo de um país atrasado, se viam obrigados a emigrar. E assim de emigração não se falava, nem os seus problemas se discutiam e eram bastantes os problemas.

Os portugueses que emigravam acabavam por ficar duplamente órfãos. Por um lado era a orfandade do seu país que deixavam para trás de onde se desenraizavam, por outro era a orfandade num país onde chegavam, perdidos na maioria das vezes, não falando a língua, não conhecendo os costumes e sem ter um lugar para trabalhar. Mesmo depois de começar a organizar a sua vida os problemas persistiam e a sensação de orfandade de quem abandonou o seu país e de quem não é plenamente aceite no país que escolheu para viver, demorava a passar e quase nunca passava completamente.

Foi este quadro que no final dos anos sessenta dois homens perceberam de forma muito especial. O industrial gráfico Valentim Morais e o Padre Vítor Melícias, partindo de uma amizade pessoal que os ligava há muito e de uma análise da sua sociedade que também compartilhavam, perceberam que a emigração era uma realidade incontornável e sobretudo tomaram consciência de que era preciso fazer qualquer coisa que despertasse as mentalidades para esta realidade na sociedade portuguesa de então.

Assim que fruto deste projecto a dois nascia no dia 12 de Janeiro de 1970 o jornal O EMIGRANTE sob o lema AGIR SERVINDO e especialmente destinado como se podia ler no primeiro editorial a “ser um jornal de acção. Um jornal que seja vida, que seja diálogo de homens em luta pelo progresso de todo o homem. Eis porque o nosso lema é Agir Servindo, por isso aqui estamos de peito aberto, para informar, discutir, denunciar, exigir. Mais: estamos aqui para agir” E foi precisamente este sentido de AGIR que sempre diferenciou este jornal de todos os outros, para além de informar foi sempre um jornal de causas, que sempre deu a cara e sempre batalhou pelos interesses dos seus leitores. E foi compreendido por eles, por isso o transformaram no jornal português de maior circulação no mundo.

Um jornal para EMIGRANTES

Já em 1970 no seu primeiro número se dava conta de que emigrar estava sempre presente na alma de cada português. Dizia-se então que “o português é por natureza ou por situação geográfica do país que o viu nascer, todo virado para o mar, na contemplação de horizontes imensos, dado à aventura. Não admira por isso que um desejo incontido de viajar o faça sonhar com outros mundos e outras gentes. Nem só a busca de um pão menos amargo leva o seu espírito aventureiro a procurar nova vida em terras estranhas, embora seja essa, afinal, a principal causa da grande emigração portuguesa para as quatro partidas do mundo”.  A sociedade portuguesa dividia-se então em matéria de perceber se a emigração era uma coisa boa ou má para o país. O jornal O EMIGRANTE lançou publicamente a discussão, e se uns viam no imediato a vantagem das remessas, para outros como por exemplo o Prof. Adriano Moreira afirmava que “não há nada que compense a perda de uma parte da população. Sobretudo porque por via de regra quem emigra são os mais diferenciados, os de maior iniciativa, os de menor resignação, os mais ricos de possibilidades humanas. O benefício da entrada de divisas é de curto prazo e sobretudo aparentemente importante quando outros problemas tornam aguda a necessidade de divisas. Mas trata-se de uma aparência enganosa, porque as remessas são meras migalhas de contribuição dos emigrantes quando comparadas com o aumento da riqueza com que contribuem nos países onde se vão fixar. É essa capacidade de produzir riqueza que fica completamente perdida para nós.

A história tem destas coincidências. 1970 haveria de ficar para o futuro como um ano importante de transformações sociais, que iriam conduzir ao 25 de Abril quatro anos mais tarde. Marcello Caetano nomeava um novo governo onde pontificavam nomes como Rui Patrício nos Negócios Estrangeiros, Veiga Simão na Educação, Baltazar Rebelo de Souza nos Assuntos Sociais à época designado por Corporações e Previdência Social, abrindo-se assim um período histórico que ficaria conhecido como a “Primavera Marcellista”, por se registar uma abertura maior da sociedade portuguesa a novas ideias e estilos de vida que chegavam constantemente a Portugal.

Era nesse contexto que nascia o EMIGRANTE/MUNDO PORTUGUÊS. E para apresentação oficial do jornal à sociedade portuguesa foi escolhido o Hotel Ritz um lugar mítico normalmente reservado aos eventos da mais alta sociedade de então. Com esta escolha os fundadores deste jornal pretenderam desde logo dar um sinal de que iriam dedicar todo o seu esforço a levar o fenómeno da emigração a todos os lugares e ao centro de todos os debates. Pode dizer-se com propriedade que logo no lançamento do Emigrante acabava um dos grandes tabus da sociedade portuguesa – a emigração que ninguém discutia e o próprio regime fingia não existir.

 

 

 

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