“A nossa ideia foi sempre fazer uma coisa diferente…”

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Fernando Benevides nasceu nos Açores e começou a importar e comercializar produtos portugueses nos EUA. Michael Benevides acrescentou-lhe uma dimensão nova, aliando a modernidade à tradição. O ‘Portugalia Marketplace’ é já a referência em produtos gourmet no outro lado do Atlântico.

Como é que decidiu vir para os EUA?
Fernando Benevides -Vim com a minha mulher e com o Michael ao nosso colo. Eu tinha 25 anos, ele tinha 22 meses. Chegámos aqui com uma mala vazia e com 300 dólares na algibeira. Eu era um sonhador que nascido numa ilha sabia que não podia ir muito longe. Estava limitado pelo mar. A opção também passou pelo continente, que já era maior, mas eu tinha era que sair. Numa ilha quem tem, tem. Quem não tem, não vence. Eu não tinha possibilidades de ter feito nos Açores nem uma terça parte daquilo que fiz aqui.

Como é que foi a experiência aqui?
F. B. – Quando cheguei aos EUA encarei isto melhor do que imaginava. Isso é uma realidade. Sete dias depois de ter chegado à América disse: -Vim para aqui para ser dono do meu nariz, não para ser mandado por ninguém. Sete dias depois de ter chegado estava a morar sozinho com a família num apartamento. Comprei as mobílias a crédito, a um americano, tinha começado a trabalhar três dias antes, foi mesmo só o indispensável. Uma cadeira para cada um, garfos e facas e pouco mais.
Depois de ter feito algumas poupanças quis comprar a casa maior desta cidade e a mais velha. Mas isto tem uma razão de ser. Quando eu cheguei nunca tinha trabalhado como carpinteiro e foi a minha primeira profissão nos EUA. Era a única vaga que havia, a construir iates, numa empresa perto de Newport. Então quis comprar a casa mais velha que havia, uma vez que já sabia do ofício. A minha mulher chamava-me doido e sonhador, mas eu sabia aquilo que queria e acreditava que ia ser o nosso futuro. Até que um dia encontrei num jornal aquilo que procurava. Acabei por comprar a casa, apesar de a minha mulher não ser muito a favor. Foi assim.
Entretanto, remodelei a casa, arrendei-a e disse para mim mesmo: -Agora é que eu entrei na América, quatro anos depois! A casa arrendada pagou-se sozinha e permitia-nos fazer uma vida diferente. Depois de a casa estar toda a funcionar valorizou mais do dobro do valor que paguei por ela. Apareceram compradores, mas nunca quis vender. Aquela casa representa o início da minha vida na América. Tinha remodelado as garagens e foi lá que comecei a trabalhar na importação. Comprei uma caixa de um camião frigorífico para ter o bacalhau que importava do Canadá e foi assim que comecei. Mas sempre com a segurança de ser carpinteiro, já ganhava naquela altura 10 dólares por hora com todas as regalias, era muito bom. Mas mesmo assim, ainda fui trabalhar numa fábrica durante a noite a ganhar 7.50 dólares por hora. Só quando o negócio começou a expandir é que larguei o emprego. Já não era compatível, por vezes tinha que ir a Nova Iorque buscar camarão durante a noite, com o meu filho, que desde criança me acompanha, apesar de a escola ter sido sempre uma prioridade. Num país como este, se isto não der arranja-se sempre trabalho, se não for aqui é em Nova Iorque, na Califórnia, ou em qualquer outro lugar, desde que se tenha escolaridade está-se preparado para tudo.
O facto de a casa ter valorizado mais do dobro, permitiu-me alguma liberdade para poder investir, deu-me a hipótese de poder pedir dinheiro ao banco para fazer outros investimentos, para adquirir negócios, para fazer melhor. Acabei por não durar muito tempo nas garagens. Num ano, no Natal, fiz uns panfletos que pusemos nos carros das pessoas a anunciar a venda de camarão, aqui vendia-se mesmo muito camarão naquele tempo. Eu tinha camarão mais barato do que os carapaus. Foi uma enchente, as pessoas queriam entrar na garagem para comprar camarão e não podiam. Na altura não tinha licença para vender a retalho, só tinha licença para importar e exportar, tive que resolver isso. Acho que também tive um pouco de sorte, apesar de ter trabalhado de noite e de dia.

Isto acabou por obrigá-lo a expandir?
F. B. – Sim, depois comecei a procurar um espaço para alugar aqui na área. Não foi fácil. Acabei por adquirir uma antiga fábrica de refrigerantes, onde atualmente temos um armazém. Mas passado pouco tempo este espaço começou a tornar-se apertado outra vez. Comprei entretanto um restaurante, alguns apartamentos que havia por cima e uma casa nova que ainda nem estava acabada. Por vezes dava por mim a olhar para as câmaras frigoríficas e pensava: – Como é que é possível? Sempre tive muita sorte por ter pessoas de todo o lado a vir comprar-me produtos. Importava também bacalhau da Noruega, a bom preço. Sempre procurei importar o melhor que há no mercado. Tento sempre comprar o melhor, mesmo que seja mais caro. O cliente acaba por compreender que o meu produto é o melhor.
As pessoas chegam a ligar para pedir uma caixa de bacalhau e nós enviamos, até para a Califórnia. Naquela altura não era como agora que já temos uma loja on-line. Naquele tempo era tudo por telefone. Então foi assim. Mas as pessoas já não cabiam naquela loja, às vezes tinha que vir a polícia, ou alguém da câmara municipal para nos ajudar a organizar as pessoas. Foi por isso que decidimos procurar um novo espaço para comprar e separar os dois negócios, a venda e a importação de produtos. O Michael quis dar sequência ao nosso negócio e abrimos este espaço. Graças a Deus tem corrido tudo muito bem.

Porque é que escolheram este local?
F. B. – Quando passávamos na estrada isto era tão feio que apetecia desviar o olhar. Ainda bem, porque foi assim que viemos aqui dentro e ficámos encantados da vida. Isto não era nada do que parecia visto de fora, ninguém sabia o valor disto. Negociámos, mas o agente imobiliário queria muito dinheiro. Conseguimos encontrar uma maneira de comprar isto e valorizámos este espaço. Optámos por deixar o aspeto rústico, original da fábrica têxtil que aqui havia, em vez de recuperar tudo e construir uma casa nova em blocos, este prédio é muito mais bonito assim e tem uma história. Muitos portugueses trabalharam aqui, ou em fábricas destas. A maioria dos emigrantes que vieram para esta cidade trabalharam na indústria têxtil. A fachada tinha umas janelas velhas que recuperámos, acrescentámos um alpendre novo, mantendo o original aqui dentro, até o chão é original, tem 100 anos praticamente.

E o Michael porquê conceber o ‘Portuguese Market’? Quais são os seus objetivos?
Michael Benevides – O meu pai começou a empresa de importação há 28 anos, numa garagem. O projeto foi evoluindo e há 4 anos abrimos esta loja. Já conhecíamos bem a zona, há muitos emigrantes portugueses, a ideia foi que eles servissem de base, mas ao mesmo tempo abrir portas para todos, não só para os portugueses. A ideia é abrir mais lojas. Não quero parar por aqui. Mas não quer dizer com esta dimensão, aqui temos cerca de 1700m2 só de loja. Mas queremos abrir lojas em outros mercados, em espaços mais pequenos. Temos alguns produtos relacionados com o mercado da saudade, mas junto com outros produtos gourmet, temos um pouco de tudo. Esta é a nossa loja ‘bandeira’, o marco da expansão, onde tudo começou.

Este é um conceito diferente do habitual…
M. B. – A nossa ideia foi sempre fazer uma coisa diferente, representar as marcas novas de Portugal. Eu vou a Portugal de vez em quando e reparei que o mercado aqui não estava a acompanhar o que se passa hoje em Portugal. Já fui ao SISAB Portugal pelo menos 6 ou 7 vezes e gosto bastante porque já temos lá alguns contactos e fazemos as reuniões com os nossos fornecedores. Encontram-se sempre alguns produtos novos, uma aposta nova a fazer. Todos os anos trago alguma novidade. Já temos a maior seleção de azeites portugueses. Apesar de ainda não fazer importação de vinho, trabalhamos com distribuidores de vinhos, temos mais de 400 referências de vinhos portugueses, do mais barato ao mais caro.

De quem é a responsabilidade do conceito de modernidade e produtos gourmet?
F. B. – Sem dúvida do Michael. Ele veio acrescentar modernidade ao conceito da loja. Eu trabalhei sempre à moda antiga. Quando comecei na garagem em 1988 servia as comunidades portuguesas de outra geração. Sempre o apoiei. Também gosto muito das coisas modernas.
M. B. – Quando iniciamos a construção deste projeto eu é que lidei com as empresas de construção, com tudo. Por vezes quando era preciso gastar mais do que o que estava previsto o meu pai perguntava sempre: “Vale apena?”, e avançávamos. O meu pai nunca foi de me cortar as ideias. Apoiou-me sempre e deu-me total independência para fazer este projeto.

 

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