Estudantes da Universidade do Porto dão explicações a crianças carenciadas

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Fortemente marcado por uma componente social, este projeto garante apoio escolar a crianças e adolescentes carenciados.

No Já T’Explico, projeto criado por alunos da Universidade do Porto (UP) para crianças carenciadas, há “aulas” personalizadas misturadas com relações humanas, em que os aprendizes têm dos 10 aos 17 anos e os explicadores perto de 20.
Uma das crianças que frequenta as explicações de Catarina Moreira, 23 anos, estudante de Ciências da Nutrição, tinha nota dois (numa escala de zero a cinco) na disciplina de ciências quando entrou para o projeto, mas vai acabar o ano com nota quatro. Já Tiago Francisco, 20 anos, a estudar Ciências de Computadores, descobriu no Já T’Explico como ajudar uma criança hiperativa a concentrar-se quando está a estudar. Comprou-lhe um dispositivo em que pudesse mexer enquanto ouvia a explicação e trocou algumas vezes a sala pelo recreio.
São histórias do Já T’Explico, um projeto “feito de jovens e para jovens”, uma organização de estudantes universitários da UP que dá apoio educativo a crianças e jovens, do 5.º ao 9.º anos de escolaridade, com dificuldades financeiras ou carência de apoio familiar.
“Percebemos que havia muita desigualdade em termos educacionais. Uma criança de uma família que não tem condições boas não tem as mesmas oportunidades, não é estimulada da mesma forma. Achamos injusto e que devia haver um espaço em que conseguíssemos pôr os mais pequenos a pensar em grande”, descreve à agência Lusa a presidente do Já T’Explico, Mariana Bernardo.
Depois de um longo processo de recrutamento, que levou alguns meses, o projeto iniciou-se em novembro de 2015. Atualmente conta com 137 voluntários distribuídos por vários departamentos desde as explicações, à organização de iniciativas. Os “professores” frequentam cursos como economia, psicologia, engenharia ou letras.

Dizer “eu consigo”
Neste ano letivo passaram pelo Já T’Explico 27 ‘alunos’, ora encaminhados por associações, ora por escolas ou juntas de freguesia e também por pais que passam a palavra e contam que existe um sítio onde as sessões de explicação não se pagam.
Mariana Bernardo conta que no ano de arranque apenas duas crianças reprovaram de ano. “Além de nos preocuparmos com as notas, procuramos desenvolver na criança a ambição por dizer ‘eu consigo’”, aponta a responsável que ajuda na matemática, no português ou nas ciências, entre outras disciplinas, crianças com várias realidades culturais, familiares e socioeconómicas, algumas delas institucionalizadas.
Existem três polos de explicações – a escola primária da Lomba no Bonfim, a Casa das Associações Juvenis do Distrito do Porto e o Fórum da Juventude e Cidadania de Vila Nova de Gaia – e um alargamento só avançará se “existir a certeza de que não fica prejudicado o trabalho direto com a criança”. É que os explicadores querem manter aquilo que veem como diferenciador no Já T’Explico: as “aulas” personalizadas e o contacto pessoal.
“Há crianças mais tímidas, mais rebeldes, com mais dificuldades a uma área, crianças mais recetivas a receber ajuda que outras. Temos de aceitar que o ‘background’ da criança não é o mais feliz e, sobretudo, não é o que ela merece. Então tentamos fazer com que o estudo seja um momento de felicidade e que a criança goste de estar connosco”, descreve Mariana Bernardo.
Já Tiago Francisco conta que o método de ensino é adaptado ao aprendiz: “Se percebe melhor com esquemas, fazemos esquemas, se percebe melhor estudando o livro, estudamos o livro”. E Catarina Moreira fala em “aprendizagem mútua”: “Porque eu aprendo com os miúdos e os miúdos comigo”, sintetiza. O contacto direto com jovens pouco mais velhos é aplaudido por Joana Guimarães, 14 anos, que na última quarta-feira estudou com o Já T’Explico para os exames nacionais do 9.º ano.
Esta aluna da Alexandre Herculano soube do projeto através da Associação de Famílias Numerosas e conta à Lusa que “antes tinha mais negativas do que agora” e que “sente mais proximidade” com o explicador do que com o professor da escola.
Já Ana Pinto, 12 anos, da escola Ramalho Ortigão, “culpa” o Já T’Explico pelo facto de ter agora “notas mais tranquilas” e elogia as atividades extras, proporcionadas pelo projeto.
O grupo de universitários voluntários criou o “JTE”, um cartão que pode ser adquirido por 14 euros/ano ou dois euros/mês e que proporciona descontos em várias lojas aos aderentes, servindo a receita para as atividades do Já T’Explico. Somam-se parcerias com várias entidades.
Os responsáveis pelo projeto também promovem a atividade ‘Speed Futuring’, uma espécie de ‘speed dating’ (encontros rápidos) que coloca frente a frente aprendizes e alunos de vários cursos, incluindo de secundário e profissionais, para troca de experiências.

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