“A geração que tem hoje 20 e poucos anos vai ser uma geração melhor do que a nossa…”

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João Moniz faz parte da geração que emigrou em massa dos Açores para os Estados Unidos. No seu caso, foi no início de 1974 que tudo começou. Pouco tempo depois de chegar a Rhode Island começou a importar peixe fresco e cigarros, desde aí tem-se dedicado à importação e distribuição de produtos alimentares na região de Fall River, no estado do Massachusetts. Pelo caminho não esqueceu o arquipélago que o viu nascer e tem investido em empresas históricas açorianas como a Sociedade Corretora, fábrica de conservas de atum fundada em 1913 e a Fábrica de Cervejas e Refrigerantes Melo Abreu que é a fábrica mais antiga do género em Portugal cuja licença de exploração data de 1892.

Como é que tudo começou?
Eu vim dos Açores em janeiro de 1974. Naquela altura comecei por trabalhar naquilo que havia por aqui que eram as fábricas. Trabalhei lá durante quatro anos e em 1978 comecei a importar peixe fresco e cigarros, foram os primeiros produtos que importei. Trabalhava na fábrica durante o dia e à noite ia distribuir o peixe uma vez por semana. Depois comecei a importar queijo. Ainda me lembro da primeira importação de queijos que fiz. 40 Queijos na antiga TWA. Foi assim que tudo começou. Devagarinho, gradualmente até onde estamos hoje.

Que tipo de produtos comercializa atualmente?
Quando cheguei aos Estados Unidos vim viver para Bristol, Rhode Island e comecei por importar aquilo que o mercado procurava.
Naquela altura só podia vender aos portugueses porque os americanos não compravam os nossos produtos. Há cerca de 30 anos adquirimos este armazém, em Fall River e mudei-me para aqui. Fall River é considerada a capital dos açorianos na américa e tenho-me dedicado a importar tudo aquilo que posso vender. É isso que eu faço. Também temos uma comunidade muito grande de Cabo-Verdianos. Hoje digo que 25 por cento do nosso volume de vendas é conseguido com Cabo-Verdianos. São muito bons consumidores. São diferentes dos portugueses, compram mais e gostam de comer. O cabo-verdiano gosta de comer arroz, feijão, atum e muito peixe e não poupa dinheiro na comida. É uma emigração com uma característica muito engraçada, nós hoje em dia conseguimos vender aos cabo-verdianos sabão ‘Clarim’ e sabão ‘Solavar’ coisa que não acontece com os Portugueses. São muito conservadores nos produtos que consomem.

(…) Quando cheguei aos Estados Unidos vim viver para Bristol, Rhode Island e comecei por importar aquilo que o mercado procurava. Naquela altura só podia vender aos portugueses porque os americanos não compravam os nossos produtos. Há cerca de 30 anos adquirimos este armazém, em Fall River (…)

E agora embarcou numa nova aventura nos Açores?
Há 18 anos já tinha entrado numa participação na Sociedade Corretora, uma das fábricas mais antigas em Portugal de conservas de atum. Depois dessa, há dois anos, adquiri a fábrica de cerveja Melo Abreu.

E conseguiu recuperar a empresa com mais de 125 anos?
Eu não acredito que nenhuma empresa possa não ser rentável. Todas as empresas são rentáveis, nós é que temos muitas vezes que nos adaptar às empresas. Muitas vezes o empresário não se quer adaptar às empresas. Por exemplo, eu estou na Melo Abreu sem receber um tostão. Nem um café. Se eu fosse debitar à Melo Abreu as minhas passagens, as minhas reuniões, o meu ordenado e as minhas refeições, a Melo Abreu tinha uma despesa enorme comigo. Eu digo isto com orgulho, não há empresário nenhum em Portugal que tenha feito aquilo que eu fiz. Trabalho numa empresa com 125 anos e nunca recebi um café sequer. A única coisa que recebo é um telemóvel que a empresa me paga quando estou em Portugal. Conhece algum gestor em Portugal, com uma empresa para gerir, que não receba nada?

Como sente o mercado dos EUA?
Na minha opinião, e já ando há muitos, muitos anos nisto, lembro-me que não havia as grandes superfícies como hoje. Havia mais lojas pequeninas que as pessoas que emigraram para aqui iam abrindo e fazendo o pão, vendendo o leite, os queijos, os congelados…essas pessoas, a maior parte delas já morreram e os filhos são hoje advogados, médicos, engenheiros, já não quiseram seguir o rumo dos pais. Nos últimos 35 anos, daquilo que eu conheço, só abriram aqui duas casas.

E o seu negócio como vai?
As pessoas vão precisar sempre de comer, nada disto acaba. E os grandes supermercados daqui a 20 anos, vamos ver, mas vão acabar. As próprias grandes marcas já se aperceberam disso e estão a abrir lojas mais pequenas. A loja de bairro vai sempre vencer. Hoje em dia, a juventude já não quer andar 3 horas com o carrinho a fazer compras. Quer sim passar é perguntar ao ‘Sr. Manuel’ se o peixe está pronto, procura um atendimento mais focado e comunicativo. Personalizado.
A geração que tem hoje 20 e poucos anos vai ser uma geração melhor do que a nossa. Eles vão ter coisas que nós não tínhamos. São uma geração mais aperfeiçoada, uma geração de elite. A nossa geração era mais rebelde, antigamente nós não tínhamos poder de escolha, era aquilo e tínhamos que aceitar. Hoje em dia, esta geração tem uma mobilidade muito diferente, está onde quer. Tem poder de escolha.
Esta geração não quer ficar fechada dentro de um centro comercial. Em Rhode Island, o Garden City é digno de visita. Um centro comercial ao ar livre, monumental. É isso que esta geração procura. Um quadrado ao ar livre onde saltam de rua para rua e de loja para loja.

(…) Antigamente nós não tínhamos poder de escolha, era aquilo e tínhamos que aceitar. Hoje, esta geração tem uma mobilidade muito diferente, está onde quer. Tem poder de escolha (…)

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