1471: Batalha de Arzila e entrada em Tânger

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Por mares nunca dantes navegados, há 600 anos atrás os portugueses seguiram ao encontro de outras terras e novos povos. O esforço para conquistar locais longínquos e cheios de perigo era o preço a pagar pela abertura de novas rotas do comércio. Na epopeia dos Descobrimentos, a conquista de lugares longínquos, como Ceuta ou Malaca, a força militar lusa e o domínio da construção naval tiveram um papel preponderante. Este especial sobre «A Presença Militar Portuguesa à Época dos Descobrimentos», que poderá ler ao longo de seis semanas, destaca o papel inovador de portugueses que os levou a vencer grandes batalhas…

Vamos observar a conquista da cidade de Arzila por D. Afonso V em 1471 e a ocupação da cidade de Tânger, duas cidades magrebinas, através do trabalho da doutoranda Inês Filipa Meira Araújo: ‘As Tapeçarias de Pastrana, uma Iconografia da Guerra’. Iremos fazer, também, o levantamento de algumas das armas utilizadas nestas conquistas.
Arzila, cidade norte-africana, está voltada para o oceano. Hoje em dia pertence ao atual Reino de Marrocos, como lembra o historiador Paulo Dias, da Universidade Nova.
Não há certezas da data dos primeiros povoamentos em Arzila, mas pensa-se que no século IX as tribos berberes tenham construído nesta cidade uma torre de vigia para poderem controlar melhor a sua costa marítima, podendo assim aperceber-se da aproximação de navios inimigos, nomeadamente os navios Normandos, que ameaçavam constantemente as povoações costeiras.
No século X Arzila já é descrita em várias crónicas árabes, como sendo uma pequena cidade rodeada de muralhas, com “poços de boas águas” e campos de cereais.
Contudo, no século XIII Arzila volta a perder alguma importância, só a voltando a ganhar com a subida ao poder dos Merínidas, transformando-a num importante porto comercial, fazendo negócios com inúmeras cidades de todo o mundo. E no século XV Portugal demonstra interesse na cidade, partindo à sua conquista.
Rui de Pina escreve que Portugal não tinha condições para mais uma diligência, mas ainda assim foram enviados dois espiões a Arzila, sendo eles Pêro da Alcáçova e Vicente Simões, disfarçados de comerciantes, com a missão de investigar pontos de ancoragem e de desembarque.
O cronista estima ainda que tenham saído de Portugal cerca de 30 mil homens e 477 velas.
Contudo, o autor Luís Miguel Duarte, na ‘Nova História de Portugal’, Volume 1, tem dúvidas de que Portugal, depois de tudo, tivesse este número de homens disponíveis para esta missão.

Desembarque atribulado
Os portugueses atacam Arzila na tarde de 20 de agosto de 1471.
O desembarque não correu bem, pois a praia tinha muitos recifes e o mar estava que muito agitado, o que fez com que esta operação durasse três dias com a perda de algumas barcas de carrego, barcas de carga, entre outras, e mais de duas centenas de homens, como refere Luís Miguel Duarte.
As tropas portuguesas iam pesadamente armadas, com armamento de arremesso, como, ‘bombardeiros’, ‘trons’, espingardas, besteiros e artilheiros, com equipamento defensivo, de proteção, e equipamento ofensivo como armas de mão, brancas e de haste.
D. Afonso V não podia estremecer: mesmo com a dificuldade que houve no desembarque era preciso atacar de imediato antes que a fortaleza recebesse reforços.
Durante os dias seguintes ocorreram terríveis batalhas e, a 24 de agosto de 1471, os mouros renderam-se devido à falta de reforços.

Banho de sangue…
Alguns deles abrigaram-se no Castelo e na Mesquita, mas o Conde Afonso de Marialva e as suas tropas entraram na Mesquita matando homens armados, mulheres e crianças. Todavia, os Mouros conseguiram derrubar o Conde do seu cavalo e este morreu degolado.
Com a Mesquita conquistada, as atenções viraram-se para o Castelo. O Rei D. Afonso V e o príncipe D. João, de apenas 16 anos – que ganhou aqui as suas esporas de cavaleiro – tomam Arzila para o Reino de Portugal. D. Afonso V entrega a capitania ao Conde Valença, D. Henrique, que já era então capitão de Alcácer.
A conquista da cidade foi um verdadeiro banho de sangue, como diz Paulo Dias. Foram mortos cerca de 2000 muçulmanos e aprisionando cerca de 5000.
Contudo, do lado português não há estimativa de quantos mortos houve, apenas foram registados o nome de alguns dos nomes mais importantes, como o de D. Álvaro de Castro, Conde de Monsanto, e D. João Coutinho, Conde de Marialva.
Depois de conquistada Arzila, D. Henrique foi informado que os habitantes de Tânger abandonam a cidade, deixando-a em chamas.
Estes perceberam que não iriam conseguir manter-se na cidade com a presença portuguesa em Ceuta, Alcácer-Quibir e agora em Arzila. A 29 de agosto de 1471 é feita uma expedição à cidade com o fim de comprovar o boato. Ao chegarem a Tânger os portugueses verificaram que realmente houve incêndios na cidade, mas, com a pressa de sair, os habitantes não queimaram tudo.
Assim, as tropas puderam apoderar-se de alguns objetos intactos, como bombardas grossas, pólvora e outras peças de artilharia, refere ainda Luís Miguel Duarte.
Em 1509 os portugueses ampliaram e reforçaram a praça fortificada construída logo após as conquistas. Diogo Boitaca, por sua vez, reconstruiu a alcáçova e a cerca da muralha, acrescentando uma torre de mensagens.
Os portugueses conseguiram tornar em pouco tempo as cidades em importantes portos comerciais e estratégicos na rota do ouro saariano. Deste modo, em 1520, foi criada uma feitoria em Arzila, por D. Manuel I.
Depois do desastre da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, Portugal perde a sua independência para Espanha, e em 1589 D. Filipe I de Portugal devolve Arzila ao sultão saadiano.
Hoje em dia poucos são os vestígios de portugueses em Arzila. Em Tânger os vestígios são mais visíveis, pois esta cidade resistiu a várias tentativas de ocupação como a de 1437 e a de 1463/64.

AS ‘TAPEÇARIAS DE PASTRANA’ E O ARMAMENTO USADO NA BATALHA
As ‘Tapeçarias de Pastrana’ são uma das melhores obras para observarmos a iconografia destas conquistas. São minuciosas no que diz respeito aos pormenores sobre os militares, os seus equipamentos e armamento. Não se sabe ao certo quando foram feitas, mas provavelmente durante o período de 1475 e 1500, indica Inês Filipa Meira Araújo. São compostas por quatro tapeçarias: o desembarque em Arzila, o cerco a Arzila, o assalto a Arzila e a entrada em Tânger. Foram feitas com a técnica de fios urdidos em trama num tear manual. Os teares eram constituídos por dois cilindros de madeira, na parte superior, na parte inferior é onde se esticam os fios de teia. Os fios usados nestes teares eram normalmente feitos de lã e linho.
A técnica usada para a composição destas tapeçarias é bastante semelhante à dos teares manuais dos nossos dias. Os fios da urdidura, são passados pelos liços verticalmente e intercalados com fios coloridos na horizontal. Tal como hoje, naquela época também existiam dois tipos de teares – os de baixo liço ou pedais e os de alto liço de alavancas. Os teares de alavancas são mais trabalhosos pois o utilizador fica apenas com uma mão livre para trabalhar, enquanto os de pedais deixam as duas mãos livres para o trabalho.
De qualquer forma, tecer peças deste tamanho é sempre muito trabalhoso e demorado, destaca Inês Meira Araújo.
Durante o século XV estas representações são cada vez mais usadas para interpretar temas militares. As ‘Tapeçarias de Pastrana’ são disso um bom exemplo, porque representam as cenas de forma direta, seguindo todos os passos da batalha, com bastantes pormenores.
Contudo, este tipo de decoração só era usada por monarcas, nobres e alto clero: os burgueses mesmo abastados não as usavam. Estas decorações eram usadas nas paredes e apenas nas casas habitadas, por isso era comum serem levadas nas viagens, sendo também muito apreciadas em festas e banquetes.
Em 1915, foram enviados para Pastrana dois pensadores – José de Figueiredo e Reinaldo dos Santos – que tinham como objetivo estudar as tapeçarias apresentadas na Igreja de Nossa Senhora das Assunção. Os estudiososviram rapidamente que as tapeçarias representavam os feitos de D. Afonso V em África. Contudo, não se sabe como ou porquê estas obras foram ali parar, quem as teceu e onde foram feitas.
Ao regressar a Portugal, José de Figueiredo e Reinaldo dos Santos, anunciaram a descoberta na Academia das Ciências de Lisboa e dataram-nas como sendo do século XV, dando a hipótese dos seus “cartões” poderem pertencer a Nuno Gonçalves devido à semelhança das tapeçarias e dos Painéis de S. Vicente – contudo, estas tapeçarias estavam em muito mau estado de conservação.
Depois de algumas negociações, foram conseguidos fundos para recuperas as peças. E em 1926 conseguiu-se o primeiro restauro das obras.

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