«Casal Garcia» continua a ser o vinho branco português mais vendido no mundo

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Martim Guedes viveu e estudou Finanças no Porto. Trabalhou seis anos na Banca, no Porto e em Lisboa. Aos 28 anos juntou-se finalmente ao negócio de família – A Aveleda. Começou no Marketing, hoje divide a gestão da empresa com o seu primo António. Leia a entrevista…

A história da Quinta da Aveleda perde-se no tempo mas existem inúmeros registos sobre a mesma a partir do século XVI. Foi sempre de uma propriedade agrícola composta por um conjunto de quintas que, ao longo dos anos, passaram de mão em mão, até que Manoel Pedro Guedes de Silva da Fonseca, em torno 1850, cansado da vida da capital e da política, começou a apaixonar-se pela sua Quinta e foi viver para a Aveleda. Era uma pessoa com uma grande visão e dedicou-se à propriedade, plantando vinhas, fazendo obras, desenvolvendo as estruturas da Quinta, construindo inclusive uma adega com capacidade para 300 pipas. Nas décadas de 1870 e 1880, com a invasão da filoxera, grandes extensões de vinha foram completamente destruídas. Procedeu-se então à reconversão da vinha, segundo moldes avançados para a época, com talhões de um hectare de vinha, por castas, aramadas, obrigando a grandes terraplanagens. Na altura, com pouco dinheiro para a plantação de vinha e numa época em que estes trabalhos eram feitos manualmente e à custa de tracção animal, foi com ranchos de Galegos que se procedeu à reconversão da vinha. Inovadoras formas de plantio da vinha e selecção de castas permitiam controlar a produção e a qualidade dos vinhos de ano para ano. Manoel Pedro Guedes de Silva da Fonseca acreditava plenamente no futuro da vinha e foi comprando inúmeras terras para alargar a propriedade. Hipotecava terras para poder comprar mais terra e desta forma alargou o património agrícola até Penafiel. Quando morreu, em 1898, o ex-deputado deixou toda a quinta plantada de vinha segundo moldes inovadores para a época, tendo por esse trabalho ganho várias medalhas em exibições e concursos internacionais, como por exemplo Berlim (1888), Paris (1889) e Sevilha (1929).
Os dois filhos de Manoel Pedro Guedes de Silva da Fonseca, Fernando e Manuel, continuaram o seu trabalho como produtores de Vinho Verde. Na altura os vinhos vendiam-se à pipa, a maior parte tinto, mas a venda não era fácil, “quando se vendia uma pipa de vinho era dia de festa”, numa altura muito conturbada do país, com a queda da Monarquia, o advento da I República e depois a I Grande Guerra. O segundo filho de Fernando Guedes – Roberto Guedes – começou a ajudar o pai quando acabou a tropa. De todos os irmãos – quatro irmãs e três irmãos – foi na altura o único a trabalhar na Aveleda e por lá ficou. Em 1946, com a morte de Fernando Guedes, os filhos constituem uma sociedade agrícola para administração da propriedade. É neste período que a Quinta mais se desenvolve, graças ao vertiginoso aumento das vendas de Vinho Verde para o Brasil e mercados de África. Nesta fase de prosperidade são frequentes os melhoramentos, as construções de novos edifícios e o engrandecimento dos jardins e parque. Dois nomes ficaram ligados a esta fase – Roberto e Fernando, que se dedicaram apaixonadamente à empresa.

A Aveleda tem uma história fantástica, a exportação, por exemplo, começou pela necessidade de ultrapassar um problema. Quer recordar um pouco essa história?
Tal como muitas empresas exportadoras nacionais, até 1974, as exportações da Aveleda estavam assentes nas então colónias, tendo começado pelo Brasil, seguindo-se Angola, Moçambique e Cabo Verde. Com a revolução de 1974 e a queda abrupta dos mercados das ex-colónias, criou-se um sério problema de escoamento da produção, ainda mais numa época onde a empresa não tinha liberdade para reduzir a produção. Como a necessidade aguça o engenho, a empresa teve de se voltar ativamente para a exportação, e as comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo foram o mercado prioritário e que muito bem recebeu os nossos produtos.

Qual foi a importância dos portugueses emigrados na história do sucesso da Aveleda?
Acho que essa importância é maior do que a maioria das pessoas pensam, foi crucial. Em todos os mercados que hoje são importantes para nós (EUA, Canadá, França, Alemanha, Suiça, etc), a porta de entrada foi a mesma: as comunidades Portuguesas. Hoje vendemos a maioria dos nossos produtos a consumidores “locais”, mas não nos podemos esquecer que nunca teríamos chegado a eles sem as comunidades. Foi aí que ganhámos distribuição, passámos a estar presentes e gerámos a curiosidade e interesse dos locais, muitas vezes influenciados por amigos Portugueses, que são verdadeiros embaixadores dos nossos produtos.
Repare-se na dificuldade que temos tido em novos mercados emergentes (China, índia, Nigéria, Japão, Rússia, etc.), onde não há comunidades Portuguesas organizadas, e por isso a introdução dos nosso produtos tem sido extremamente difícil.

Desde 1872 que a Aveleda está na mesma família. Qual é o segredo quando vemos diariamente grandes grupos a degladiarem-se?
Numa frase eu diria: “Zanguem-se as ideias e não as pessoas”. É um princípio que se aplica na família e na empresa, onde todos temos as nossas opiniões, mas sabemos respeitar as diferenças. Nos últimos 70 anos a Aveleda tem tido sempre uma gestão partilhada por dois familiares, com quatro “parelhas” diferentes ao longo do tempo, o que não é habitual. Isto ensinou-nos a trabalhar em conjunto dentro da própria família.

De toda a vasta de coleção de prémios e distinções que a Aveleda já ganhou em Portugal e no estrangeiro, qual é aquele ou aqueles que mais “tocam” a empresa?
Distingo dois principais. As medalhas de Berlim e Paris de 1888, que foram as primeiras, marcam um início de uma aposta incondicional na qualidade, que foi sempre a visão do meu trisavô Manuel Pedro Guedes. Mais recentemente a distinção em 2014 do Quinta da Aveleda como a melhor relação preço-qualidade do mundo, pela “Wine Enthusiast”, confirmando a enorme aceitação internacional deste vinho, que nos últimos 8 anos teve sempre 90 pontos ou mais.

Vindimou-se mais este ano? Com mais qualidade?
Este foi um ano excecional na região dos Vinhos Verdes. Ao contrário dos últimos anos, o clima foi muito estável entre Maio e Setembro, período crítico para a vinha. Isto permitiu que a planta se desenvolvesse da melhor forma, sem doenças e com a máxima qualidade. Assim, tivemos uma uva de boa qualidade e em quantidades normais.

Qual a percentagem da Aveleda que vai para exportação? E que linha de vinhos tem mais sucesso?
A marca Casal Garcia continua a ser a principal referência da empresa, é o vinho branco Português mais vendido no mundo. É o que está presente em mais mercados (cerca de 70) e que mais presença tem nesses mercados. No entanto, a marca Aveleda continua a crescer e a ganhar o seu espaço, tanto em Portugal como na exportação. O mercado nacional continua a ser o nosso principal mercado com um terço das nossas vendas, fazendo a exportação os restantes dois terços.

Quais os principais mercados da Aveleda?
A Alemanha e os EUA são os dois maiores mercados de exportação, seguidos de França, Brasil e Canadá. Em dois deles temos já presença local, de formas diferentes. Nos EUA temos uma equipa de três pessoas da Aveleda de forma permanente, por ser um mercado muito complexo e que exige um acompanhamento muito próximo. Em França adquirimos em 2015 uma participação no capital do nosso distribuidor, “Le Portugal des Saveurs”, passando a estar presentes na gestão, em parceria com os fundadores da empresa, as famílias Alves e Teixeira. Assim, podemos ter uma maior proximidade ao mercado e procurar a melhor forma de activar as nossas marcas junto do mercado local e das comunidades Portuguesas.

Que importância reconhece ao SISAB PORTUGAL para o desenvolvimento do vosso trabalho?
A Aveleda participa neste certame desde a primeira edição e fazemos uma avaliação muito positiva. No nosso caso particular não tanto para angariar novos clientes diretos, mas mais como ponto de encontro e alinhamento de estratégias com os nossos atuais parceiros.

Qual é a primeira ou uma das primeiras recordações que tem da empresa, enquanto ainda jovem?
Praticamente desde que nasci que todos os anos passava férias na Aveleda, por isso as minhas primeiras recordações são pessoais. Era o local onde estava com os meus primos, sobretudo os que viviam fora do Porto e que não via com frequência. Fazer cabanas na mata, brincar com os cães, atirar os primos ao lago e outras malandrices afins eram brincadeiras habituais nos verões da Aveleda. Só muito mais tarde, pelos 25 anos, comecei a olhar para a Aveleda de um prisma empresarial.
A Aveleda tem bastante preocupação social, nomeadamente com os seus trabalhadores. Fale-me um pouco do que tem sido feito ao longo dos anos nesse sentido
Sim, é uma política que vem de trás, os nossos avós sempre olharam para a Aveleda como uma comunidade, uma grande família onde todos têm de estar bem integrados. Ainda hoje temos 80 casas da Aveleda habitadas pelos nossos trabalhadores. Uma grande parte deles já teve pais ou avós a trabalhar na Quinta. Cria-se uma relação de longo prazo, de compromisso e lealdade. É difícil explicar em palavras, mas quem fala com os nossos trabalhadores rapidamente fica com a percepção que existe uma ligação com a empresa muito mais forte que uma normal relação laboral.

Uma empresa com os anos de mercado da Aveleda ainda tem de explicar os seus vinhos? Como é que o faz?
Penso que teremos sempre de o fazer e de continuar a ir ao encontro dos nossos atuais e potenciais consumidores. Se temos até aqui tido algum sucesso, isso não nos dá um lugar cativo na cesta do consumidor, temos de continuar a trabalhar para o conquistar. Sabemos que o mercado em geral é competitivo e que há centenas de empresas Portuguesas com excelentes vinhos, tendo o consumidor sempre muitas e boas alternativas. Por isso temos de melhorar todos os dias e tentar continuar a merecer a preferência dos apreciadores de vinho por esse mundo fora.

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