“Pretendo dar a conhecer e destacar a presença da Língua Portuguesa na Suíça”

Data:

A Comunicação entre todos os atores e intervenientes no EPE, a Formação docente e a Visibilidade do trabalho realizado são os eixos de atuação traçados pela coordenadora do EPE na Suíça. A estes, Lurdes Gonçalves pretende acrescentar outro, em 2016: um trabalho mais estreito com as autoridades educativas dos vários cantões suíços. O objetivo maior é dar a conhecer e destacar, cada vez mais, a presença da língua portuguesa na Suíça…

Está há quanto tempo à frente da Coordenação do EPE na Suíça? O que a motivou a assumir esta Coordenação? 
Estou nesta função deste setembro de 2013, portanto, este é o meu terceiro ano letivo. Coordenar o Ensino de Português na Suíça abria-me todo um novo espectro de possibilidades, dentro da área de investigação do meu doutoramento. Poderia continuar ligada ao desenvolvimento profissional docente, num contexto diferente, e alargar o conhecimento no âmbito da educação em línguas, desta feita no contexto do português como língua de herança. Outro aspeto muito importante diz respeito à valorização do plurilinguismo e a da interculturalidade, que já conhecia no âmbito do meu trabalho no ensino de línguas estrangeiras e poderia agora aprofundar no contexto de um país plurilingue. Foi assim que decidi abraçar este desafio, que me trouxe a um país onde nunca tinha pensado vir a trabalhar.

Qual é o número de alunos e professores da rede EPE na Suíça, nos vários níveis de ensino?
No presente ano letivo, a rede de ensino EPE na Suíça conta com 83 docentes para um total de 10.731 alunos, divididos do seguinte modo: A1-1597 e A2-2327 (1CEB = 3924); B1-5467 (2/3CEB = 5467); B2-870 e C1-291 (ES = 1161)

Que ‘peso’ tem o ensino do Português inserido nos meios associativos?
Na Suíça, todo o EPE é assegurado pelo Camões. As aulas de Português asseguradas por associações sãs as aulas de Português do Brasil, asseguradas pela ABEC, uma associação brasileira para o Ensino de Português com Língua de Herança. Conto desenvolver trabalho colaborativo com esta associação, no sentido de enriquecer a língua portuguesa e ligar os profissionais que a ela se dedicam.

O que mudou no EPE na Suíça nos últimos anos? Quais têm sido as principais orientações e que metas ainda há a alcançar?
Quando assumi esta função tracei três objetivos orientadores do meu trabalho. Em primeiro lugar, naturalmente, conhecer o trabalho realizado e o contexto. Neste âmbito, tive a tarefa facilitada, pois tanto o Adjunto de Coordenação, Dr. Carlos Oliveira, como todos os DAP (Docentes de Apoio Pedagógico) se mostraram disponíveis para colaborar e dar o seu melhor.
Em segundo lugar, consolidar o que são as boas práticas e projetos em curso, que valorizam o trabalho dos docentes e o empenho do Estado português no EPE e, em terceiro lugar, intervir para melhorar as condições de trabalho e o desempenho dos docentes, o que, desejavelmente, se repercute num ensino com mais qualidade e em aprendizagens mais significativas para os nossos alunos. Tenho vindo a traçar eixos de atuação, explicitados nos Planos de Atividades elaborados para cada ano civil. Comecei em 2014 com dois eixos de atuação, ‘Comunicação’ entre todos os atores e intervenientes no EPE e ‘Formação’ docente; em 2015 juntou-se um terceiro que diz respeito à ‘Visibilidade’ do trabalho realizado no EPE-Suíça. Para 2016, estes eixos serão alvo de aprofundamento, juntando-lhe um outro eixo que diz respeito a um trabalho mais estreito com as autoridades educativas dos vários cantões suíços, nomeadamente, o início de contactos que possam levar à construção de protocolos de colaboração com instituições educativas suíças. Passo a explicar um pouco mais o que tem sido realizado em cada um dos eixos:
– No âmbito da Comunicação, tenho trabalhado no sentido de melhorar a circulação da comunicação e partilha entre todos os docentes EPE, através da realização de reuniões pedagógicas e do uso da plataforma da Camões para divulgação e partilha de informação e garantindo uma resposta atempada a todas as solicitações que nos chegam via email. Também procurei reforçar as relações com as comunidades portuguesas, através das comissões e/ou associações de pais. A título de exemplo, é do trabalho colaborativo com a Associação de Pais de Gstaad que existe a possibilidade de ter uma sala gratuita à disposição desta Coordenação de Ensino para lecionar os cursos de Língua e Cultura Portuguesas (LCP).
– No âmbito da Formação, para além do apoio e monitorização do trabalho pedagógico, a promoção da formação contínua é uma prioridade. Foi nesta perspetiva que organizei, em conjunto com uma colega da Universidade de Aveiro, a formação ‘Gestão da diversidade e diferenciação na sala de aula’ (março de 2014). Outra das exigências profissionais do séc. XXI é a capacidade de manusear ferramentas informáticas e, nesse sentido, também promovi formação sobre as ferramentas Office (sobretudo excel, em março 2015).
Ainda no âmbito da formação, organizei em 18 outubro de 2014 a I Jornada EPE-Suíça, em Friburgo. Contou com uma participação de 74% do corpo docente na Suíça. Também organizei outra formação que pudesse ajudar os docentes a atuar junto de cada aluno de acordo com a sua individualidade, nomeadamente ‘Aprendizagem e psicologia: o papel da cognição e dos afetos no desempenho escolar’ (26 de Fevereiro de 2015). Neste momento, estou a preparar uma formação em articulação com um docente da Escola Superior de Educação de Biel (HEP-BEJUNE). Intitulada ‘O potencial intercultural da biografia linguística, no âmbito do trabalho com o Portfolio Europeu de Línguas (PEL)’, a ocorrer em dezembro de 2015, tem como objetivo desenvolver as competências dos docentes no seu trabalho com a diversidade na sala de aula, explorando o seu potencial intercultural através da utilização do portfolio como ferramenta pedagógica.
– No que diz respeito à Visibilidade, pretendo dar a conhecer e destacar a presença da língua portuguesa na Suíça, bem como a organização das oportunidades para a sua aprendizagem, no sentido de valorizar não só o trabalho de todos os docentes EPE, mas também o empenho do Estado português para a manutenção da oferta do ensino da Língua e Cultura Portuguesas, como língua de herança aos lusos descendentes.
Iniciámos uma colaboração regular com a revista trimestral ‘Lusitânia’, tendo aí um espaço reservado para divulgar as atividades realizadas pelos docentes com os seus alunos. Também renovámos a página internet da Coordenação: www.ensinoportugues.ch. Não temos os meios para a tornar mais dinâmica, pelo que, em breve, iremos elaborar uma página no Facebook.
Ainda neste eixo, estamos a organizar a entrega oficial dos Certificados de Competência Linguística aos alunos que realizaram o exame para a certificação. Dos projetos em curso, aos quais dei continuidade, destacam-se o projeto DIP (Departement d’Instruction Publique)-Portugal, dinamizado em Genebra e que apoia alunos luso-descendentes na sua integração no sistema de ensino suíço, intervindo ao nível do desenvolvimento linguístico, evitando que alunos sejam encaminhados para ensino especial, sem que tenham antes sido apoiados para ultrapassar as suas dificuldades. Os docentes EPE apoiam aproximadamente uma centena de alunos em cada ano letivo.
MOCERELCO é a designação de outro projeto interessante, desta feita, no cantão de Friburgo. É um projeto de colaboração com as autoridades educativas cantonais para o desenvolvimento de trabalho colaborativo entre os docentes do ELH e os docentes do ensino regular. Um dos professores EPE foi até selecionado para a videogravação de uma das suas aulas para inclusão num vídeo explicativo do sistema de ensino do cantão de Friburgo e é mostrado às novas famílias migrantes que chegam ao cantão: http://www.fr.ch/senof/fr/pub/migration_et_integration/documentaires.htm
Este ano letivo abraçámos um novo projeto. Recebemos uma professora estagiária da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no âmbito do Mestrado em Português Língua Estrangeira / Língua Segunda. O estágio decorre no cantão de Ticino e tem como orientadores os docentes Rute Venâncio (1ºCEB) e Manuel Filipe Sousa (2º/3ºCEB e ES), sob a minha supervisão científica.

Que programas de complemento ao ensino, têm sido desenvolvidos?
O Plano de Incentivo à Leitura do Camões, é um dos complementos que podemos mencionar, bem como o Concurso Internacional de Leitura, no qual temos participado. Outras iniciativas se podem mencionar que promovem o contato com a língua e o envolvimento dos pais e encarregados de educação nas atividades do EPE, nomeadamente as Olímpiadas da Língua Portuguesa (realizadas em Genebra e tendo como dinamizador principal o docente Álvaro Oliveira), sessões de leitura, feiras do livro, etc. Devo dizer que estas iniciativas são organizadas e dinamizadas pelos docentes EPE e, naturalmente, que a Coordenação de Ensino as apoia, incentiva e saúda. De salientar que há muitos encarregados de educação que também se empenham nestas iniciativas e que sem o seu apoio, muito dificilmente contaríamos com um número tão significativo de alunos participantes.

Num país com forte comunidade portuguesa, a aprendizagem do Português terá como base uma língua de identidade comunitária, ou pode vir a afirmar-se mais como língua estrangeira?
A presença da comunidade portuguesa na Suíça é significativa. Em alguns locais quase que se ouve mais a língua portuguesa que a francesa. Quando cheguei, já existia um projeto em curso para a introdução da língua portuguesa no currículo do sistema de ensino do cantão de Genebra, não como língua estrangeira, mas como língua facultativa. Dei continuidade ao projeto e, com um grupo de trabalho, foi elaborado o programa para os níveis inicial e avançado, que apresentámos ao Departement d’Instruction Publique (DIP). O projeto tem passado por vários contratempos. No ano letivo passado tivemos apenas uma turma, que este ano tem continuidade, embora o estatuto da Língua Portuguesa ainda não esteja bem definido. É claro que vamos continuar a trabalhar neste projeto, desbravando caminho e … caminhando até onde nos for possível.

Que caminho há ainda a percorrer?
Em primeiro lugar, uma articulação mais estreita com as autoridades educativas, tanto ao nível da CDIP (Conferência Suíça de Diretores Cantonais da Instrução Pública), como das autoridades educativas de cada cantão. Estes serão passos importantes no reconhecimento da importância do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo EPE e pelo Camões, I.P., e talvez, facilitadores de uma futura integração da língua portuguesa no currículo do ensino regular suíço, mesmo que apenas como disciplina de oferta facultativa.
Só deste modo poderemos ambicionar, por exemplo, a inclusão da língua portuguesa como língua facultativa nos currículo ou ainda a possível inclusão como uma das línguas passível de escolha no trabalho final do ensino secundário (Maturité), pelo menos em alguns cantões. Também gostaríamos de ver o Diploma de Certificação de Competência Linguística passado pelo Camões I.P. inscrito na lista de diplomas reconhecidos pela Suíça.
Outro aspeto importante é a articulação do trabalho realizado pelo EPE e pelas Associações Brasileiras para o ELH. Creio que uma colaboração profissional só poderá enriquecer a língua portuguesa e o trabalho dos profissionais de ensino. Por fim, a articulação e colaboração com os encarregados de educação e Associações de Pais. Tal como no sistema escolar suíço é há muito reconhecido, o sucesso educativo e pessoal passa pelo acompanhamento sistemático, partilhado e interessado do percurso escolar de cada aprendente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Share post:

Popular

Nóticias Relacionads
RELACIONADAS

Compal lança nova gama Vital Bom Dia!

Disponível em três sabores: Frutos Vermelhos Aveia e Canela, Frutos Tropicais Chia e Alfarroba e Frutos Amarelos Chia e Curcuma estão disponíveis nos formatos Tetra Pak 1L, Tetra Pak 0,33L e ainda no formato garrafa de vidro 0,20L.

Super Bock lança edição limitada que celebra as relações de amizade mais autênticas

São dez rótulos numa edição limitada da Super Bock no âmbito da campanha “Para amigos amigos, uma cerveja cerveja”

Exportações de vinhos para Angola crescem 20% desde o início do ano

As exportações de vinho para Angola cresceram 20% entre janeiro e abril deste ano, revelou o presidente da ViniPortugal, mostrando-se otimista quanto à recuperação neste mercado, face à melhoria da economia.

Área de arroz recua 5% e produção de batata, cereais, cereja e pêssego cai 10% a 15%

A área de arroz deverá diminuir 5% este ano face ao anterior, enquanto a área de batata e a produtividade dos cereais de outono-inverno, da cereja e do pêssego deverão recuar 10% a 15%, informou o INE.