São portugueses e ‘Justos entre as Nações’ por terem salvo judeus durante a II guerra mundial

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O ‘Yad Vashem’, Memorial do Holocausto de Jerusalém, Israel, inclui três português na sua lista dos não-judeus com o nome gravado no mural de honra do Jardim dos Justo: Aristides de Sousa Mendes, Carlos Sampaio Garrido e José Brito Mendes. O próximo será o padre Joaquim Carreira, vice-reitor e reitor do Colégio Pontifício Português, de Roma, entre 1940 e 1954. Com ele, serão quatro os portugueses considerados ‘Justos Entre as Nações’, por Israel e o seu povo. Porque, arriscando a própria vida, salvaram judeus perseguidos durante o período da Shoah (holocausto judeu) na Europa…

Aristides de Sousa Mendes
Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu a 19 de Julho de 1885, em Cabanas de Viriato (Carregal do Sal), localidade situada a cerca de 30 quilómetros a sul de Viseu. Pertencia a uma família aristocrática e católica da Beira-Alta. Tinha um irmão gémeo, César, e um irmão mais novo, José Paulo. Cursou Direito na Universidade de Coimbra, juntamente com seu irmão César, tendo sido um dos seis melhores estudantes do seu curso. Depois de se licenciar, em 1907, com 22 anos, fez o estágio de advocacia, tendo defendido alguns casos no início da sua carreira.
Em 1910, Aristides e César ingressaram na carreira diplomática. Aristides exerceu funções como Cônsul de Carreira na Guiana Britânica, em Zanzibar, no Brasil (Curitiba e Porto Alegre), nos Estados Unidos, (San Francisco e Boston), em Espanha (Vigo), no Luxemburgo, na Bélgica  e, finalmente, em França (Bordéus).
Casado com sua prima direita Maria Angelina, a família de Aristides de Sousa Mendes foi crescendo a par da sua carreira diplomática. Valorizando a presença da família, Aristides de Sousa Mendes optou por nunca dela se separar, assegurando a educação dos seus 14 filhos, em todos os países por onde passou.
Nomeado para exercer funções como Cônsul-Geral em Bordéus, em 1939, pouco antes do início da 2ª. Grande Guerra, Aristides de Sousa Mendes viu-se confrontado com um problema de consciência: por um lado, a existência de milhares de refugiados que, com a invasão da França pelas tropas alemãs, afluíram a Bordéus na esperança de conseguir um visto para a ‘liberdade’ (Américas do Norte e do Sul, principalmente); por outro lado, as ordens recebidas do seu próprio Governo (Circular 14) que o impediam de passar vistos à maior parte dos refugiados, nomeadamente judeus, exilados políticos e cidadãos provenientes de países do Leste Europeu, sob pena de vir a ser castigado.
Perante esse dilema, Aristides de Sousa Mendes optou por obedecer à sua consciência e desse modo, contrariando ordens, decidiu passar vistos a todos que o solicitassem, independentemente da sua religião, raça ou credo político. No Consulado de Portugal em Bordéus, passa mais de 30.000 vistos a judeus e outras minorias perseguidas pelos nazis, lê-se na biografia publicada pela Fundação Aristides Sousa Mendes, na sua página na internet. É considerada como a maior ação de salvamento empreendida por uma pessoa individualmente.
O gesto do diplomata valeu-lhe a instauração de um processo disciplinar que na prática teve como resultado final a expulsão da carreira diplomática, apesar de no despacho de punição, datado de outubro de 1940, constar que o mesmo deveria ficar na situação de inatividade com direito a metade do vencimento da categoria, durante um ano, findo o qual deveria ser aposentado. No entanto, esta determinação não é cumprida, sendo Sousa Mendes pura e simplesmente expulso da carreira, sem passar à situação de aposentação.
Fica interdito até de trabalhar como advogado. Entre 1940 e 1954, Aristides entra num processo de “decadência”, perdendo, mesmo, a titularidade do seu gesto salvador, pois Salazar apropria-se desse ato. O cônsul morre a 3 de Abril de 1954. Aristides de Sousa Mendes faleceu muito pobre, no hospital dos franciscanos em Lisboa. Não possuindo um fato próprio, foi enterrado numa túnica de franciscanos. O seu gesto só foi relatado e enaltecido depois de 25 de Abril de 1974, principalmente pela imprensa. Em 1988, 14 anos depois da instauração do regime democrático em Portugal, Aristides de Sousa Mendes foi reabilitado pela Assembleia da República (sob proposta de vários deputados entre os quais o Jaime Gama e Jorge Sampaio). Depois disso, muitas homenagens lhe foram feitas em Portugal e no estrangeiro.

Carlos Sampaio Garrido
Carlos de Almeida Fonseca Sampaio Garrido, embaixador de Portugal em Budapeste entre 1939 e 1944 é outro português ‘Justo entre as Nações’ pela sua ação de proteção e salvamento de judeus húngaros.
Diplomata, Sampaio Garrido chegou a Budapeste a 27 de Julho de 1939,  para assumir o porto de embaixador de Portugal na Hungria –  naquele país e nos territórios anexados ao abrigo da aliança com a Alemanha nazi, viviam perto de 800 mil judeus. Depois da derrota dos exércitos alemães em Estalinegrado, o regente Miklos Horthy tentou retirar-se da aliança com a Alemanha, mas a resposta foi imediata: a 19 de Março de 1944, Hitler invadiu a Hungria, nomeou um novo governo mais fiel e enviou Adolf Eichmann encarregado de aplicar a ‘Solução Final’ naquele país. Aos judeus foram confiscados bens e propriedades, obrigados a usar a estrela amarela e encerrados em guetos. Entre 15 de Maio e 9 de Julho foram deportados perto de 450 mil judeus, na sua maioria para Auschwitz, onde mais de metade morreu nas câmaras de gás, logo à chegada.
Na Hungria operavam na época cinco representações diplomáticas de países neutrais que incluíam a Suécia, a Suíça, Portugal, Espanha e Turquia, para além da Cruz Vermelha e o Vaticano. Perante os bombardeamentos dos aliados (em resposta à invasão alemã), Sampaio Garrido deixou a embaixada e alugou uma vivenda em Galgagyörk, a 60 km da cidade, onde sem informar Salazar, escondeu doze judeus entre os quais se encontravam cinco membros da família Gabor, parentes da atriz Zsa Zsa Gabor.
“Mas já antes tinha vindo a alertar sobre a perseguição aos judeus, tomando a iniciativa de os proteger antes mesmo da mobilização no mesmo sentido dos diplomatas dos países neutros e sem o apoio de Salazar”, conta Esther Mucznik, no artigo «Sampaio Garrido, o outro “Justo” português».
A 28 de Abril de 1944, às 5h da manhã, a residência oficial de Portugal em Galgagyörk é assaltada pela Gestapo húngara: os hóspedes foram presos e levados para o posto da polícia central de Budapeste. O embaixador português faz questão de também ser preso com o intuito de poder vir a ajudar os seus hóspedes. Sem se intimidar, o diplomata exigiu de imediato a libertação dos detidos alegando o conceito de extraterritorialidade da residência de embaixador, e ainda um pedido de desculpas.
Sampaio Garrido tornou-se persona non-grata para o governo húngaro que exigiu a sua partida da Hungria. Salazar nomeou o encarregado de negócios Alberto Carlos de Liz-Teixeira Branquinho para o substituir. Mas Sampaio Garrido não voltou logo para Portugal. A 5 de Junho partiu para Berna levando consigo a sua secretária judia e, daquela cidade suíça, continuou a orientar Teixeira Branquinho no apoio aos judeus, nomeadamente enviando-lhe listas com nomes para os quais pedia assistência e asilo na legação de Portugal. Branquinho obteve de Salazar a autorização de atribuir passaportes portugueses a judeus húngaros na condição destes terem uma relação familiar, cultural ou económica com Portugal.
Ao todo foram concedidos por Portugal cerca de 1000 documentos de proteção, dos quais 700 passaportes provisórios sem indicação de nacionalidade portuguesa, conforme exigência de Salazar para que mais tarde a não pudessem reclamar. Em 1945, Sampaio Garrido foi enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em Estocolmo. A 2 de Fevereiro de 2010, a Comissão para a Nomeação dos Justos, criada pelo Yad Vashem concedeu-lhe a medalha dos Justos entre as Nações, entregue à sua família, pelo embaixador de Israel em Portugal.

José Brito Mendes
Em França, José Brito Mendes arriscou a sua vida, escondendo a pequena Cecile, cujos pais judeus foram deportados para campos de concentração, onde faleceram. O português emigrou para França em 1926, onde casou com a francesa, Marie-Louise, e de quem teve um filho, Jacques. Viviam em St. Ouen, arredores operários de Paris e eram vizinhos e amigos de um casal de judeus polacos, Aron e Fojgel Berkovic, e da filha destes, Cécile, nascida em 1937.
Cécile e Jacques, foram praticamente criados juntos naquele bairro onde se aglomeravam, na época, imigrantes espanhóis e italianos, portugueses e polacos.
A 15 de junho de 1942, Aron foi deportado e morreu em Auschwitz. A sua mulher encondeu-se algures em Paris, mas antes disso, confiou Cécile à guarda da família Brito Mendes, numa tentativa de a salvar. Meses depois, Fojgel Berkovic foi presa e levada para o campo de trânsito de Drancy, de onde partiam os transportes para os campos de extermínio. Antes da sua partida, José Brito levou Cécile ver a mãe uma última vez. A menina tinha cinco anos, e aquela seria a útima vez que veria a mãe. José Brito e a mulher apresentavam a menina como sobrinha de Marie-Louise e prima de Jacques.
A família Brito tomou conta de Cécile como uma filha e enviou-a juntamente com Jacques para a província, onde ficam a salvo, em casa de familiares do casal. O tempo passou, a guerra chegou ao fim, os pais de Cécile foram mortos e o casal Brito preparou-se para adotar a criança. Mas do campo de concentração de Dachau chegou um sobrevivente da família: um tio de Cécile, que obtve a sua guarda e a levou para os Estados Unidos, para desgosto dos Brito Mendes. Cécile nunca mais viu aquela família.
Nos Estados Unidos, mudou de nome, estudou, exerceu advocacia, casou e teve duas filhas. Voltou a França em 1987 à procura dos Brito Mendes, mas não os encontrou e morreu sem os rever. Também Jacques nunca desistiu de encontrar a ‘irmã’. Não a conseguiu rever, mas em 2002, com o apoio das associações das Crianças Escondidas e extensas buscas na internet, descobriu as filhas de Cécile, que, embora ao corrente de que a mãe nascera em França e que os avós tinham sido mortos em Auschwitz, nada mais sabiam sobre o passado francês de Cécile.
Num artigo intitulado «José Brito Mendes – Um justo português, Esther Mucznik publica declarações de Cara, filha e Cécile. “’Ela não falava nunca’, explica Cara, filha de Cécile. ‘Era a época em que ficou órfã e o sofrimento permaneceu muito vivo’. Para Jacques, encontrar as filhas de Cécile foi ‘um vazio que se encheu com o que se tornou Cécile, a sua vida’. ‘O tempo passou, muitos atores desta história estão mortos, mas, se os nossos filhos se conhecerem, a história continua’”, escreve Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.
Em 2004, devido aos esforços de Cara, o Yad Vashem, Autoridade Nacional para a memória dos Mártires e Heróis do Holocausto, de Jerusalém, atribuiu a José e a Marie-Louise Brito Mendes o título de «Justo entre as Nações».

Padre Joaquim Carreira
O padre Joaquim Carreira será o quarto «Justo entre as Nações» português. O ‘Yad Vashem’, Memorial do Holocausto de Jerusalém, prepara-se para incluir o vice-reitor e reitor do Colégio Pontifício Português, de Roma, entre 1940 e 1954, na sua lista dos não-judeus que, durante o Holocausto, arriscaram as suas vidas para salvar judeus, informou o blogue ‘Religionline’, de António Marujo, numa publicação em dezembro último.
Nascido a 8 de Setembro de 1908 no Souto de Cima, freguesia da Caranguejeira, concelho de Leiria, Joaquim Carreira era o filho do meio de Inácia e Joaquim Carreira, que tinham mais quatro filhas. Em 1920, aos 12 anos, entrou para o seminário de Leiria. Foi em 1925 para Roma onde completou o curso de Teologia na Universidade Gregoriana, sendo ordenado padre em 1931 e regressou a Portugal. Não terá ficado muito satisfeito quando, o bispo de Leiria decidiu enviá-lo para Roma, onde chegou a 4 de Maio de 1940, com 31 anos, para ocupar o cargo de vice-reitor do Colégio Pontifício Português. Em 1941, com a morte do reitor, monsenhor Manuel Pereira Vilar, passaria a reitor interino.
A cidade foi ocupada pelas tropas nazis entre setembro de 1943 e junho de 1944 e muitos foram os que passaram a ser perseguidos. Perante as situações concretas que lhe batem à porta, Joaquim Carreira assume como suas as orientações do Vaticano.
“A hospitalidade que está na base dos princípios da caridade cristã e a exemplo de todas as comunidades religiosas de Roma, achei que a devia oferecer a pessoas perseguidas, procuradas ou em perigo”, escreveu. “Concedi asilo e hospitalidade no colégio a pessoas que eram perseguidas na base de leis injustas e desumanas.” Uma decisão que o levou a tomar um “maior contato com as misérias, as dores e as tragédias em consequência da guerra”, disse ainda.
António Marujo, que teve acesso à documentação do Colégio Pontifício Português, revela que pelo colégio passaram pelo menos 40 pessoas, conforme o próprio padre escreveu num relatório – no qual registou exatamente 39 nomes de foragidos. “Mas há pelo menos um depoimento de um dos refugiados que fala em 50 pessoas e outro em 42. Como nem todas estiveram ao mesmo tempo na casa, será difícil ter certezas sobre o número exato”, escreveu o jornalista.
Para além de esconder pessoa perseguidas pelos nazistas, Joaquim Carreira também assumia para si a responsabilidade de procurar comida. “Se não conhecesse tantos moleiros nos arredores de Roma, os meus hóspedes teriam passado muita fome”, escreveu o padre que ainda sugeria pequenos truques aos responsáveis pela cozinha: “o milho, cozido em grão, valia por bom bife”, contou, citado na página do Santuário de Fátima na Internet a propósito do centenário do seu nascimento, em 2008.
Roma foi libertada da ocupação nazi em junho de 1944, mas mesmo depois, houve refugiados no Colégio Português. Em 1945 e 1946, e durante algumas semanas, mais seis pessoas terão ali estado escondidas, conta António Marujo.
Nomeado monsenhor em 1950, Joaquim Carreira desempenhou, a partir de 1952, o cargo de conselheiro eclesiástico da embaixada portuguesa junto da Santa Sé. Desde 1958 passou a residir na casa Madonna di Fatima. A 19 de Setembro de 1981, Joaquim Carreira celebrou as bodas de ouro sacerdotais no Souto de Cima. Em Outubro regressou a Roma, e intuiu que essa seria a última vez que visitava o seu país. Tinha apenas 73 anos de idade, quando faleceu, em Roma, a 7 de Dezembro de 1981. Sepultado inicialmente naquela cidade, o padre Carreira seria trasladado para Portugal em 2001, estando os seus restos mortais sepultados no cemitério dos Soutos-Caranguejeira, sua terra natal.
Aristides de Sousa Mendes, Sampaio Garrido, José Brito Mendes e futuramente o padre Joaquim Carreira integram a lista de pessoas com o seu nome gravado no mural de honra do Jardim dos Justos das Nações no memorial Yad Vashem em Jerusalém, Israel. Porque, arriscando a própria vida, salvaram judeus perseguidos durante o período da ‘Shoah’ (holocausto judeu) na Europa…

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