Estudantes açorianos criam projeto multimédia que preserva memórias do terramoto de 1980

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Quatro estudantes açorianos da Universidade de Aveiro, todos naturais da ilha Terceira e nascidos depois de 1980, lançaram um projeto multimédia que vai manter viva a memória do sismo que em 1980 atingiu os Açores, com maior incidência na ilha Terceira. Intitulado «Sismo d’Oitenta», o projeto é um repositório público de informação sobre a tragédia, com testemunhos, fotos e documentos. “Torna-se importante registar o que ainda existe para que sirva de base para eventos futuros, como inspiração ou consolo”, justificam os quatro estudantes açorianos.

“Estava a descansar, vivia na ultima casa da Serreta do lado esquerdo, indo na direção dos Biscoitos, era uma casa de pedra , junto à mata da Serreta. De repente ouviu-se um barulho estranho vindo debaixo da terra, ficámos sem perceber o que estava a acontecer, mas logo de seguida a terra começou a tremer e fugimos para o jardim e as poucas casas que se avistavam nas curvas e entre curvas, caiam como se fossem peças de lego, foi impressionante. (…) Seguimos no nosso carro em direção a Angra, e para chegarmos até Santa Barbara foi uma verdadeira loucura, eram pedras das casas, postes de luz, muito pó, gente a pedir socorro, enfim, toda a zona norte da ilha estava devastada, muros, casas, igrejas. Quando avistamos Angra era uma nuvem de pó, que persistiu lá ficar durante muito tempo. Era uma agitação nas ruas, as lojas com as montras partidas, casas que só tinham as fachadas, chaminés que punham em risco outras casas. (…) Lembro-me como se fosse ontem.”
O testemunho de Sandra Lima, de 50 anos, moradora em Serreta, concelho de Angra do heroísmo, é um dos vários disponíveis no site do «Sismo d’Oitenta», espaço multimédia que pretende manter viva a memória do sismo que atingiu as ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa, no arquipélago dos Açores a 1 de janeiro de 1980, tendo causado 71 mortos (51 na Terceira e 20 em São Jorge) e 400 feridos e deixado mais de 21 mil desalojados e 12 mil estruturas danificadas.
O projeto «Sismo d’Oitenta» – batizado com esse nome, por ser assim que o abalo é popularmente referido nas ilhas – está a ser desenvolvido há cerca de dois anos e os quatro estudantes destacam que “não foi uma tarefa fácil” reunir as condições de trabalho perfeitas.
“O nosso objetivo consiste na criação de um inventário com o maior número possível de testemunhos de sobreviventes do terramoto ocorrido a 1 de janeiro de 1980 dos Açores”, explicam João Aguiar, Luís Melo, Rúben Ramos e Luís Silva, no site que criaram para que jamais se perca a memória do terramoto que abalou os Açores há 34 anos atrás.
O site reúne fotos, documentos e, sobretudo, testemunhos escritos e em vídeo de pessoas que viveram e sobreviveram ao terramoto. Disponível online no endereço eletrónio http://www.sismodoitenta.com/ o trabalho já recebeu um voto de congratulação na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.
“Pretendemos homenagear e registar o máximo sobre esta tragédia, antes que os anos apaguem testemunhos, fotos, documentos e, sobretudo, as pessoas que são parte desta história. Em todos os momentos fomos movidos pela curiosidade de querer saber mais, reunindo fotos, fazendo entrevistas e trabalhando textos, tendo sempre a noção de que este é um trabalho nunca acabado”, referem João Aguiar, estudante da licenciatura em Novas Tecnologias da Comunicação (NTC), Luís Melo e Rúben Ramos, estudantes no mestrado em Comunicação Multimédia e Luís Silva licenciado em NTC e pós-graduado em Audiovisual e Multimédia, todos pela Universidade de Aveiro (UA).
João Aguiar recorda que são “inúmeras” as histórias de “heroísmo e sobrevivência, de dor e de pranto” que não foram registadas na altura do sismo, porque era mais importante tratar os feridos, enterrar os mortos e reconstruir as casas. Daí advém a importância do «Sismo d’Oitenta» que aproveita as possibilidades oferecidas pelas tecnologias da comunicação, para se apresentar como “um projeto multimédia independente sobre as histórias, sentimentos e lembranças dos sobreviventes do terramoto”, sublinha João Aguiar. O site tem ainda banda sonora original composta por Patrícia Aguiar, aluna da Licenciatura em Música na UA e também natural da Ilha Terceira.
Os jovens esperam agora que o produto multimédia que criaram “se transforme num trabalho com pertinência científica e que seja contemplado como um registo válido da história e memória das ilhas açorianas”, explica uma nota divulgada pela UA.
O terramoto que atingiu as ilhas Graciosa, São Jorge e mais duramente a Terceira, foi registado às 15h42 (hora local) do dia 1 de janeiro de 1980, tendo atingido 7,2 na escala de Richter (considerado “grave”) ou 9 na escala de Mercalli (considerado “desastroso. O terramoto deu-se a apenas 35 quilómetros a sudoeste de Angra do Heroísmo e provocou a destruição generalizada em cerca de 80% dos edifícios na cidade, atingindo também com violência a vila de São Sebastião e as freguesias localizadas a Oeste e Noroeste da Terceira, as freguesias do Topo e Santo Antão, em São Jorge, e ainda as de Carapacho e Luz, na Graciosa. Foi considerado o mais destrutivo dos últimos duzentos anos em Portugal.
Para evitar emigrações em massa, como havia acontecido anos antes com outras crises geológicas, apenas quatro dias após o terramoto, e o Governo Regional criou o G.A.R. (Gabinete de Apoio e Reconstrução), que forneceu e regulou linhas de crédito acessíveis à população.

Ana Grácio Pinto

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