Português investiga área da nanotecnologia médica na Finlândia

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Hélder Almeida Santos, nasceu em Lamego, mas assume ser natural de Tarouca (Dálvares) e é mais uma das “cabeças iluminadas” que escolheu o estrangeiro para desenvolver as suas competências profissionais. Está em Helsínquia há nove anos, fez no passado mês de Setembro 9 anos. Vive com a mulher que é Finlandesa. “ A minha família portuguesa está parte em Portugal, parte espanhada por esse mundo. Pertenco a uma família de emigrantes, que sabe o que é lutar pela vida e andar à procura de melhores condicões de vida por esse mundo fora. Portanto, algo que me está no sangue” (risos).

Por quê a carreira académica?
Estava acabar os meus estudos em Química na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, e desde logo pensei que queria fazer uma carreira académica. Isto portanto, no início de 2003. Embora em Portugal já se fizesse na altura uma boa investigacão científica, eu achava que queria uma outra experiência que enriquecesse ainda mais o meu currículo académico, que depois me permitisse regressar mais tarde a Portugal com mais garantias de trabalho na área científica.
A escolha do país não foi das mais fácies, pois não conhecia ninguém por perto que tivesse uma experiência semelhante. Comecei por enviar o meu currículo para diferentes lugares da Europa, isto ainda durante o meu último ano da faculdade. Mais tarde recebi um convite para uma entrevista numa universidade de Inglaterra. Fui à tal entrevista e tí nhamos quase tudo acertado para ir fazer o meu doutoramento lá. Quando regressei a Portugal recebi também uma oferta de uma universidade finlandesa. Tinha contactado a Finlândia por intermédio do meu orientador de estágio no Porto. Como as condicões oferecidas pela Universidade Tecnológica de Helsínquia (agora com o nome de Universidade Aalto) eram muito superiores em todos os aspectos às que me ofereceram em Inglaterra, nem hesitei duas vezes e optei logo pela Finlândia.
Sabia que a Finlândia era um país nórdico, com um nível e qualidade de vida muito elevado e superior ao de Portugal, e sabia também que lá fazia muito frio no inverno, mas pouco mais. Era portanto uma grande aventura e aquilo que eu realmente tinha sonhado/idealizado para continuar a minha carreira científica. Curiosamente, acabei por ingressar num grande projecto de investigação científica no Laboratório de Química-Física em Engenharia Química, financiado pela União Europeia (http://www.rene007.utvinternet.com/SUSANA/) onde faziam parte 12 universidade europeias de 9 países diferentes, incluíndo o grupo onde fiz o meu estágio na Universidade do Porto, o que me permitiu continuar a colaborar com a Universidade do Porto mesmo estando na Finlândia.

Como foi a sensação do lugar, do país e das pessoas quando chegou?
Foi uma sensacão muito estranha, primeiro porque não conheica ninguém, e depois porque o país e a sua cultura/pessoas são muito diferentes de nós, em practicamente tudo. A cultura finlandesa e o país w em si são muito diferentes daquilo que estamos habituados em Portugal. Foi, portanto, um grande choque cultural para mim a chegada a este país. A adaptação foi muito complicada no início, principalmente, porque não conhecia ninguém (ao contrário de muitos países pela europa fora a comunidade portuguesa a residir na Finlândia é muito pequena e está dispersa pelo país, não existindo aquelas comunidades que existem, por exemplo, em países como a Franca, a Suica ou a Inglaterra) e tudo para mim era completamente novo. Confesso que nos primeiros 2-3 meses me questionei várias vezes se conseguiria levar o meu doutoramento até ao fim. Só com o suporte familiar à distância consegui superar todas as dificultades e com muita força de vontade. A comunicação era um dos grandes entraves, não no ambiente de trabalho, pois aí toda a gente fala o Inglês, mas fora dele. Embora os Finlandeses falem muito bem o Inglês, são também um pouco tímidos em certos momentos, o que muitas das vezes dificulta as interacções pessoais.
Depois claro, o clima! Eu cheguei à Finlândia nos finais de Setembro de 2003, em pleno início do inverno nórdico, e no mês seguinte já tinha neve à porta de casa. As temperaturas nesse inverno chegaram aos 25 graus negativos em Helsínquia, o que para mim era uma coisa insuportável e imaginável até então, mesmo sendo uma pessoa do interior norte do país. Mais impressionante era ver que apesar do frio o país não parava e tudo à volta parecia algo muito normal!

E hoje é diferente? As coisas melhoraram?
Hoje sinto-me totalmente integrado na sociedade Finlandesa e no país. Como é natural, e também por influência familiar, adaptei-me à vida nórdica e levo uma vida normal como todos os Finlandeses aqui. Os costumes Finlandeses foram sendo adquiridos ao longo do tempo, e agora sinto-me também parte desta sociedade e cultura. O frio deixou de ser um grande problema, a língua ainda não está totalmente dominada, mas quase, embora os dias curtos no inverno ainda continuam a necessitar de adaptação todos os anos (risos).
 

Como é o seu relacionamento com os Finlandeses?
É muito positivo, dentro e fora do local de trabalho. Eu gosto muito da maneira como os Finlandeses trabalham e da maneira como encaram o dia-a-dia e a realidade. Os Finlandeses são um pouco distantes no início, mas quando se começa a conhecê-los, são pessoas muito amigas, sempre dispostas a ajudar (sem segundas intencões!). A mentalidade deles é também muito avancada e é algo que eu aprecio muito neles. Aprecio a maneira mais relaxada e muito mais produtiva como encaram a vida e o trabalho.

Como passa os seus tempos livres?
A minha esposa diria que não tenho tempos livres, mas eu acho que sim (risos). Não são muitos, mas os poucos que tenho tento-os ocupar da maneira mais deversificada possível. Vou dar apenas alguns exemplos. Sempre que possível passo o meu tempo com a minha esposa ou a visitar a família. Também sempre que tenho oportunidade aproveito para colocar a leitura em dia, principalmente literatura portuguesa. Livros históricos são só que mais me fascinam, mas também leio outros, tanto em Português como em Inglês. Além da leitura também aprecio a música e sempre que tenho tempo toco piano lá em casa. O piano e a música ajudam-me a relaxar e é também para mim uma fonte inspiração. E como não podia deixar de ser, das influências da vida/cultura finlandesa, agora no inverno quase diariamente aproveito para fazer a minha sessão de esqui de fundo (esqui cross-country, desporto muito comum entre os finlandeses), mesmo com temperaturas negativas, para aliviar o stress de longos dias de trabalho. E para além disso, ainda à tempo para uma sessão de sauna à boa maneira finlandesa (risos).

Alguma vez se sentiu discriminado?
Não nunca. Não vou dizer que não exista descriminaão na Finlândia, porque existe, mas nunca aconteceu comigo. De uma maneira muito geral, os finlandeses são pessoas muito tolerantes e com cada vez mais emigrantes a viveram no país (algo não muito comum alguns anos atrás aqui), acabam eles por terem que se ajustarem à nova realidade.

O que é para si Portugal?
Não é fácil responder… Neste momento é a minha Terra Natal, a minha segunda casa e o meu destino turístico preferido (risos). Desde que estou fora já tive mais oportunidade de conhecer o nosso país muito melhor de de norte a sul, mais do que se estivesse a viver aí. Estando a viver fora permite-nos olhar para o nosso país com outros olhos e a dar valor aquilo que temos de melhor.

Sente saudades? De quê? De Quem? De que coisas? De que lugares?
As maiores saudades são da família e da minha Terra Natal, sem dúvida. Depois sinto também saudades dos nosso monumentos históricos, do convívio com as pessoas, da ida ao café e das longas conversas com os amigos, do sol, das praias, e de muito, muito mais. Da comida já não sinto muita saudade porque praticamente desde que cheguei à Finlândia que me tornei vegeratiano (risos).

Ter emigrado foi economicamente compensador?

Sim, ter emigrado foi sem dúvida economicamente e intelectualmente muito compensador. Mas acima de tudo, pela melhor qualidade e estabilidade de vida que me proporcionou em todos os níveis. Tem sido uma experiência muito gratificante e inesquecível e, embora com alguma tristeza, posso dizer que esta foi sem dúvida uma das melhores opcões que fiz na vida – emigrar.

Pensa um dia em regressar e investir os seus conhecimentos em Portugal?
Dadas as circunstâncias da minha vida e dos problemas que afectam o nosso país em todos os sectores, não faz parte dos meus planos voltar, pelo menos num futuro muito próximo. Nunca digo nunca, mas a probabilidade de eu um dia voltar cada vez mais reduzida a cada ano que passa, para tristeza da minha mãe (risos). As fundações e raízes que criei aqui são muito difícies agora de serem desfeitas, até porque estou muito contente com praticamente tudo aqui. A crise que o país vive e as perspectivas de emprego no futuro também não são muito animadoras, o que não nos permite sonhar com o regresso, para muita pena minha.

Actualmente faz algum tipo de investimento em Portugal?
Neste momento, para além da ligacão à família, mantenho colaboracões nas áreas científicas da minha investigacão com algumas instituicões de investigacão portuguesas (por exemplo, a Universidade do Porto), onde partilhamos em conjunto mobilidade de investigadores, mas também temos alguns projectos científicos em comum nas áreas que mencionem em cima. O investimento, ainda que reduzido, é mais numa área de cooperacão a nível de ciência e investigacão. Tento manter ligacões nesse sentido, e temos tido bastante interacão e actividade a este nível com diferente universidades e instituicões de investigacão em Portugal.

O trabalho que desenvolve
“As minhas linhas de investigação são nas áreas da tecnologia nano e micro, nanomedicina e nanotecnologia farmacêutica, onde tenho o meu próprio grupo de investigacão (www.helsinki.fi/~hsantos/research).
Trabalho no desenvolvimento e aplicação de materiais nano e micro (biomateriais) que possam ser utilizados para combater várias doencas, como por exemplo o cancro. Primeiro é preciso  compreender como esses biomaterias interagem com as células (por exemplo, se são ou não biocompatíveis, como podem levar os fármacos até células/tecidos doentes), desenvolver estratégias para proteger os fármacos (por exemplo, através da nanotecnologia) para que estes sejam transportados no organismo através da corrente sanguínea, e evitar que percam a sua eficácia durante o transporte, e sejam levados até os sítios do organismo onde eles são mais necessários (células/tecidos doentes) e ajudar a corrigir anomalias celulares, mutações genéticas, etc. Finalmente, assegurar que estes cheguem ao seu destino e possam actuar eficazmente. Neste momento o meu grupo de investigação utiliza como nanomateriais, biomateriais porosos à base de sílicio, que têm enormes potencialidades e vantagens para atingir os objectivos que se pretende. No futuro esperamos ter uma confirmação mais segura de que estes materiais possam também ser aplicados eficazmente e com segurança em seres humanos para o combate de várias doencas. Daqui a alguns anos teremos biomateriais “inteligentes” à base de silício poroso capazes de ajudarem no combate de diversas doenças que afetam os seres humanos”

José Manuel Duarte
jduarte@mundoportugues.org

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