MIGUEL HORTA E COSTA: “O Ano de Portugal no Brasil é uma oportunidade irrepetível”

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De 7 de setembro de 2012 até 10 de junho de 2013, Portugal e Brasil estão a celebrar em conjunto as culturas e economias de ambos os países e a estreitar uma relação com cinco séculos de existência. Trata-se do Ano de Portugal no Brasil – Brasil em Portugal. É um momento único para dois países que se consideram «irmãos», mas que “têm ainda muito para se redescobrir”, como defendeu a este jornal Miguel Horta e Costa. Numa entrevista exclusiva, o Comissário-Geral do Ano de Portugal no Brasil sublinha que esta é “uma oportunidade irrepetível” para Portugal divulgar no Brasil, uma imagem moderna, inovadora e contemporânea…

A resolução do Conselho de Ministros sobre o Ano de Portugal no Brasil refere no seu texto, que entre outros objetivos, a iniciativa pretende “estreitar os vínculos entre as sociedades civis”. Está é uma oportunidade para os dois países passarem da retórica de «países irmãos»?
Eu talvez começasse por transmitir o que penso ser o grande objetivo do Ano de Portugal no Brasil, que é aliás transversal a várias áreas: a atualização da imagem de Portugal no Brasil.
Curiosamente, apesar de muita coisa ter acontecido nos últimos 20, 30 anos, a nossa imagem no Brasil é ainda a imagem do país dos nossos avós. Essa é a imagem que o Brasil profundo ainda tem, muito marcada pela imigração do final do século 19, início do século 20.
Houve momentos em que essa imagem foi de alguma forma enriquecida, quando uma elite portuguesa foi para o Brasil. E mais tarde, com a abertura da economia brasileira, com as privatizações brasileiras, houve grandes investimentos portugueses no Brasil.
Fui aliás, protagonista de um deles, quando era vice-presidente da Portugal Telecom, e estive no cerne desse grade investimento que a Portugal Telecom fez no Brasil, no final da década de 90, comprando a Telesp Celular, que mais tarde viria a dar lugar à Vivo, atualmente a maior operadora móvel do Brasil. Houve outros grandes investimentos no Brasil, da Galp, da Edp, e isso teve também um grande impacto sobre a imagem de Portugal no país.
Penso que esta iniciativa do Ano de Portugal no Brasil é uma oportunidade irrepetível. Podermos levar ao Brasil, durante estes nove meses, um Portugal novo, moderno, inovador, contemporâneo, vai naturalmente surpreender o Brasil e os brasileiros. Vai quebrar, de alguma forma, essa imagem que o Brasil ainda tem um pouco estereotipada, no seu espírito. Se conseguirmos dar um contributo importante para a atualização da nossa imagem, isso será uma grande conquista.

Diz que é uma oportunidade “irrepetível” para a atualização da imagem do nosso país. Mas Portugal também precisa «redescobrir» o Brasil?
Acho que precisamos nos redescobrir todos os dias. Penso que não será tanto um objetivo, mas uma atitude. Portugal e o Brasil, curiosamente e paradoxalmente, têm ainda muito para se redescobrir.
Portugal continua a surpreender os brasileiros. Um brasileiro que aterra em Lisboa e resolve passar uns dias em Portugal, fica deslumbrado. Mas há 500 mil brasileiros que aterram todos os anos em Lisboa e não saem do aeroporto.
Há aqui um enorme desafio, Portugal pode ser para o brasileiro, uma redescoberta extremamente interessante – o Portugal natural, do Douro, do Alentejo, o tradicional. E há todo um conjunto de áreas que podem ser reveladas ao Brasil, como o Portugal da gastronomia, do imobiliário, da segunda residência.

Nestes nove meses, o que Portugal vai levar ao Brasil?
Começando pela cultura, vamos ter a oportunidade de levar a modernidade das nossas artes visuais. Vamos levar aquela que é um dos maiores expoentes da pintura moderna portuguesa: Maria Helena Vieira da Silva, que entre 1940 e 1947 viveu no Rio de Janeiro. Essa será uma exposição extraordinária, com cerca de 40 obras da Vieira da Silva, complementada com uma exposição fotográfica.
Para além da pintura, vamos levar dois grandes escultores contemporâneos ao Brasil: Rui Chaves, ao Museu de Arte do Rio, e Vasco Araújo, à Pinacoteca de São Paulo. Na área do design há uma exposição muito interessante – Os Bordalianos – que mostra aquilo que a fábrica Bordalo Pinheiro tem utilizado de design nas suas criações.
Na música, começamos com três grandes eventos musicais de muito sucesso. Levamos a Marisa ao Brasil, e sendo o Fado Património Imaterial da Humanidade, não poderia deixar de ter um lugar cimeiro nesta iniciativa. Em Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro foram três enormes sucessos. Começamos em Brasília com um grande espetáculo na Esplanada dos Ministérios, estivemos no Palácio das Artes em Belo Horizonte, capital de um estado com uma grande comunidade portuguesa, e finalmente, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Vamos ter ainda este ano, três dias de espetáculos em São Paulo. Com a Carminho a 14 e 15 de dezembro no Sesc Belenzinho, com António Zambujo, também a 14 e 15, no Sesc Bom Retiro, e depois os dois fadistas alternando com Milton Nascimento e Roberta Sá, no Sesc Itaquera, no dia 16 de dezembro. Vão ser grandes momentos. Ainda na área da música, conto levar ao Brasil, no final do período, a Orquestra da Gulbenkian. É um grande desafio que temos.
O cinema, teve um momento alto nos últimos dias, com o enorme sucesso de projeção, quer no Rio quer em São Paulo, de algumas dezenas de filmes portugueses contemporâneos de vários realizadores. Ainda este ano vamos ter uma exposição de tapeçarias da Manufatura de Portalegre, de vários artistas portugueses, que são um deslumbramento.
Na área da literatura, temos a apresentação do Prémio Literário Portugal Telecom, em novembro, estamos a editar cinco novíssimos autores portugueses no Brasil e vamos editar outros cinco para o ano. E estamos a pensar levar o bailado português ao Brasil, entre outras iniciativas que estão em preparação.

A área económica/empresarial também foi contemplada. Há setores em destaque?
Vamos ter um encontro de negócios no Recife e o centenário da Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria de São Paulo. Vamos levar as grandes empresas de inovação portuguesas a São Paulo no próximo ano, e vamos ter um grande encontro de líderes empresariais no final de março (de 2013), também em São Paulo.
O que vamos fazer é criar um espaço de contato entre os líderes empresariais portugueses e os brasileiros.
Esse parece-me ser um ponto importante para que durante o Ano de Portugal no Brasil, as pessoas se conheçam e criem uma relação que possa frutificar para a frente. O objetivo é que o Ano não se resuma ao seu calendário e se criem relações entre empresários portugueses e brasileiros.

Os encontros empresariais estão a ser pensados para as empresas portuguesas com maior capacidade de exportação e implantação no mercado brasileiro? Haverá eventos para as pequenas e médias empresas?
Estamos a tentar montar também um encontro de pequenas e médias empresas exportadoras portuguesas com potenciais compradores brasileiros. Este não é um momento fácil para as pequenas e médias empresas e ir para o Brasil, temos que ter consciência que estamos num momento difícil para essas empresas e ir para o Brasil estabelecer parcerias tem as suas «nuances» e temos que estar sensíveis a tal. Mas estamos neste momento a tentar montar um encontro.

No fundo, mais do que divulgar e dar a conhecer Portugal nas mais diversas valências, o que se pretende com este Ano de Portugal no Brasil é estabelecer parcerias?
Queremos gerar parcerias que se mantenham. O Ano só irá frutificar se efetivamente for visto como uma oportunidade única, porque não vamos ter outros anos de Portugal no Brasil para daqui saltarmos para o futuro. Se aproveitarmos esta oportunidade para as empresas estabelecerem as tais parcerias, para conseguirem construir novas plataformas de negócios, não há dúvida de que o Ano efetivamente frutificou.

Os empresários portugueses queixam-se das barreiras alfandegárias, protecionistas, burocráticas que enfrentam para se implantarem no Brasil. O Ano de Portugal no Brasil poderá e alguma forma contribuir para essas barreiras venham a diminuir?

O Brasil tem uma dimensão continental. Quanto a mim, a maneira como essa cultura protecionista possa eventualmente evoluir, aligeirar-se, será com a internacionalização do próprio Brasil.
e estiver menos fechado para dentro e se abrir, se começar a querer estabelecer essas parcerias criando negócios fora, vai ter necessidade também de se «abrir». Penso que há um movimento que poderá ter um efeito induzido, uma alteração cultural do empresariado e também com fundo político. Não tenho dúvidas disso.

O que está planeado na área da educação?

Na área da educação vamos fazer uma aposta sobretudo nas universidades, porque acreditamos que é acima de tudo na área universitária que podemos criar uma relação ainda mais forte. O programa do ensino sem fronteiras do Brasil, levou a que muitos brasileiros optassem por fazer os seus mestrados e doutoramentos em Portugal, e curiosamente, foi uma surpresa para muitos brasileiros. Portugal está à frente de outros países em termos de atração de estudantes brasileiros e aproveitando essa «onda» estamos a tentar que as nossas universidades estabeleçam um espaço de relação com as universidades brasileiras. O presidente do Conselho de Reitores, Prof. António Rendas, está neste momento a montar um conjunto de encontros no Brasil entre as universidades dos dois países.

A ciência e inovação é outra área de divulgação?
Estamos a planear divulgar a investigação científica no Brasil e temos duas iniciativas em agenda. Uma terá como base três fundações – a Fundação para a Ciência e Tecnologia, a Fundação Gulbenkian e a Fundação Champalimaud – e pretende mostra no Brasil a nossa inovação científica na área das ciências biomédicas. É um desafio que estou a colocar às três fundações e vamos fazê-lo para o (próximo) ano. Por outro lado, a Galp vai organizar um grande simpósio sobre a investigação científica portuguesa e os centros de excelência, designadamente na área ligada à investigação petrolífera.

E o desporto?
Eu ainda não desisti de ter um desafio de futebol entre as duas seleções, mas não tem sido fácil. E vamos ter que fazer, possivelmente, com clubes. Mas já teve lugar um torneio de golfe entre a Federação Portuguesa e a federação Paulista, que foi um enorme sucesso. E agora teremos a vinda dos golfistas brasileiros para jogarem cá, em três campos. Por quê o golfe? Por já estar popularizado em Portugal e por estar ligado à área profissional. É sobretudo, o desporto dos executivos, dos empresários.

Qual é o envolvimento, a contribuição do Estado português no Ano de Portugal no Brasil?
O Governo decidiu que quem tutelava este projeto seria o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, que tem a seu cargo toda a temática da diplomacia económica. No fundo, isto faz parte integrante da diplomacia económica e o Sr ministro tem sido um grande entusiasta do Ano de Portugal no Brasil.
Para além disso, o Governo decidiu dar orientações através dos diferentes Ministérios, às instituições que tem um papel na internacionalização de Portugal, em diferentes áreas – cultura, economia, educação, etc. Portanto, temos instituições como o Instituto Camões, o Instituto de Turismo de Portugal, a AICEP, que receberam orientações estratégicas de que neste período, o foco deveria ser, acima de tudo, o Brasil.
Foi uma orientação importantíssima por parte do Estado. Para lá dessas orientações, o Estado colocou uma verba à disposição do comissariado que tem a função de apoio instrumental, logístico para o comissariado, o comissário e a sua equipa do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Não se compreenderia que, neste momento em que o Estado está com s dificuldades que são conhecidas, pudesse ir mais longe.
E eu, como Comissário-Geral, adotei uma metodologia de captação de patrocínios, de apoios empresariais. Portanto, o Ano de Portugal no Brasil está a ser, acima de tudo, apoiado pela sociedade civil. É ela quem está verdadeiramente a apoiar esta iniciativa, não só a portuguesa mas também a brasileira. Lançamos um desafio à sociedade civil, através de vários meios, procurando que esta propusesse iniciativas, projetos, eventos, idealmente já com financiamentos. E apareceram vários com financiamento e outros para os quais nós conseguimos captar financiamento. É uma metodologia que continuará aberta até ao final do Ano de Portugal no Brasil, ou seja, pode continuar a receber sugestões, projetos, etc.

Do lado do Brasil, houve apetência para criar as parcerias e coorganizar eventos?
Sim. E, acima de tudo, o Brasil começa a surpreender-se com Portugal, um país que está em destaque e isso para nós é extremamente importante.
E depois, nisto, como na vida, a sorte também tem o seu papel. Tivemos sorte no arranque do Ano foi feito em conjunto em Brasília – sendo que o fecho será também em conjunto, em Lisboa – porque foi um sucesso. A Marisa «arrebatou». O espetáculo começou com o por do sol vermelho de Brasília. Quando me recordo da Marisa, a cantar na Esplanada dos Ministérios, com o morro à volta repleto de pessoas, foi arrebatador. Depois de ter cantado fados, e ter cantado com sotaque brasileiro, a Marisa sai de repente do palco e dirige-se à multidão a cantar o fado «Ó Gente da Minha Terra». Vi pessoas a chorarem. Teve um enorme impacto. Por isso, quando as coisas começam bem…
E como vamos mostrar, acima de tudo a modernidade, a contemporaneidade de Portugal, acho que vamos conseguir.

O Brasil é um pais em franco desenvolvimento, a sexta maior economia mundial, desperta o interesse de várias potências mundiais. Neste cenário, o que o Ano de Portugal no Brasil apresentar a nosso «favor», no sentido de mostra que Portugal é um parceiro privilegiado?

O Brasil pode ter em Portugal, efetivamente, um parceiro na Europa. E Portugal tem uma coisa que mais nenhum outro país da Europa tem e que faz toda a diferença: a língua em comum. Isto que pode ser algo que muitas vezes não relevamos, tem a maior importância. Já houve o Ano da França no Brasil, acabou em junho o Ano da Itália no Brasil, vai haver a seguir a nós o Ano da Alemanha no Brasil. Mas não comparemos. Porque este é um ano com todo um conjunto de realizações em que falamos a mesma língua. Isso é uma coisa única.
E Portugal, apesar da crise económica que está a viver, é um país moderno. 

O que representa para si, estar à frente do Ano de Portugal no Brasil?
É uma grande oportunidade pessoal, neste meu outono de vida, dar um contributo para o meu país, que está a viver um momento difícil.
Penso que hoje, para de alguma forma sair da situação difícil em que está, Portugal deve apostar no legado que recebeu do seu passado histórico: a relação privilegiada com todas essas geografias – América Latina, através do Brasil; África Austral; Ásia, através de Macau; Médio Oriente.
E o Brasil tem nisto um papel importantíssimo. Por isso, se durante esta oportunidade única pudermos realmente criar uma rede de relações e de parcerias para o futuro com um Brasil que está hoje a viver um bom momento económico, isso será um grande contributo para a superação desta crise que temos todos que ultrapassar.

MIGUEL HORTA E COSTA
Miguel Horta e Costa, 64 anos, é licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, atual ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão), pós-graduado em Business Administration pela Universidade de Navarra (Espanha), tendo ainda uma especialização em Comunications Management, no Reino Unido.
Ingressou nos CTT em 1972 e em 1976 foi Secretário de Estado Adjunto do Secretário de Estado das Finanças António de Sousa Franco. De 1981 a 1984, foi  presidente da Marconi e  vice-presidente dos CTT, entre 1984 e 1987. Entre 1987 e 1990 voltou ao exercício de cargos públicos, como Secretário de Estado do Comércio Externo no XI Governo Constitucional.
Foi depois administrador do Banco Espírito Santo e do Banco Espírito Santo Investimento de 1990 a 1995. Já no Grupo Portugal Telecom (PT), foi vice-presidente Executivo de 1995 a 2002 e presidente Executivo de 2002 a 2006. Na PT conduziu a entrada da empresa portuguesa no mercado do Brasil. Miguel Horta e Costa levou avante o maior investimento internacional de sempre de uma empresa portuguesa com a aquisição de uma participação no capital da Telesp Celular. Mais tarde, uniu as operações móveis da PT às da Telefónica (de Espanha) para criar a Vivo, que é atualmente a maior empresa de telefonia móvel do Brasil. Uma decisão que se mostrou acertada, como confirmou o encaixe financeiro da PT com a venda da participação da Vivo, em 2010.
A banca é outro setor da economia portuguesa, que é familiar a Miguel Horta e Costa. Foi administrador do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa entre 1990 e 1992, passando a vice-presidente Executivo do Banco ESSI S.A, de 1992 a 1995. Atualmente, é vice-presidente executivo do BES Investimento.
É desde 2009, presidente do Conselho de Administração da Fundação Luso-Brasileira. Em janeiro desde ano, foi nomeado pelo Governo, Comissário-Geral de Portugal para o Ano de Portugal no Brasil e para o Ano do Brasil em Portugal.

Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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