Portuguesa está a desenvolver dispositivo para o diagnóstico precoce do cancro

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O projeto de desenvolvimento de biosensores autónomos e portáteis para o diagnóstico precoce do cancro, valeu à investigadora portuguesa Maria Goreti Sales uma bolsa de investigação internacional de um milhão de euros, atribuída pelo European Research Council (Conselho Europeu de Investigação). A bolsa permitirá à equipa coordenada pela cientista do Instituto Superior de Engenharia do Porto, desenvolver uma investigação durante o próximo cinco anos que deverá culminar na criação de um dispositivo barato, não invasivo e permitirá obter um diagnóstico em menos de meia hora.

Maria Goreti Sales está a desenvolver biossensores que detetam precocemente células cancerígenas no organismo. O projeto de investigação, intitulado 3P’s valeu à professora adjunta do Departamento de Engenharia Química do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), uma bolsa de um milhão de euros, durante cinco anos. O prémio, atribuído pelo European Research Council (Conselho Europeu de Investigação) garante à investigadora e à sua equipa, um orçamento anual de 200 mil euros, para a criação de um dispositivo de exame quer poderá ser usado no gabinete do médico.
“Já venho a desenvolver há 13 anos atividade com biossensores. Esta é uma linha de investigação que tem algum interesse para a sociedade e o cancro está nesse interface. A ideia de criar um dispositivo autónomo surgiu porque sentimos na prática a necessidade de libertar-nos do equipamento laboratorial e podermos passar para o campo, fazer as análises no local onde elas realmente são necessárias”, começou por explicar a investigadora numa entrevista ao MUNDO PORTUGUÊS.
O objetivo principal será conseguir o diagnóstico precoce dos três tipos de cancro com maior incidência na Europa: mama, do colo do útero e o cancro do colo retal. Mas tal não significa, como frisou, que o dispositivo depois de ser desenvolvido, não possa ser aplicado a outros tipos de cancro ou outras formas de doença.
“A ideia predominante é funcionar como um diagnóstico precoce, ainda antes da instalação da doença. Existem no nosso organismo algumas biomoléculas que estão associadas a um determinado cancro. Essas biomoléculas aparecem exatamente na sequência desse estado de doença que está ainda num processo evolutivo. Se conseguirmos diagnosticar essas moléculas atempadamente, vamos poder ter alguma indicação de que existe uma doença a instalar-se, e fazer um acompanhamento mais estreito desses doentes”, explicou Maria Goreti.
A criação de um dispositivo (biossensor) capaz de detetar essas biomoléculas, de uma forma rigorosa, rápida e não invasiva, será uma revolução no campo do estudo do cancro, porque irá permitir do diagnóstico precoce da doença, acrescenta.

Exame barato e rápido

A investigadora destaca outras vantagens do dispositivo, como vir a ser muito mais barato e permitir diagnosticar as biomoléculas no próprio gabinete médico, o que até agora não é possível. Além de ser rápido em termos de resposta: “menos de meia hora”, revela.
“É revolucionário ter uma resposta em tão pouco tempo e no gabinete médico. Hoje em dia as metodologias são parcas nessa área. A autonomia e a rapidez de informação, que podem permitir uma maior precisão relativamente ao percurso do doente, são de facto revolucionárias”, destacou.
Outra questão importante prende-se com o facto de não ser invasivo, já que o exame irá utilizar um pouco de saliva, sangue ou urina, para que o marcador detete a presença de biomoléculas a circular no organismo. “Agora, esperamos nós que o dispositivo venha a ter esse desempenho. É nisso que estamos a trabalhar com todo o afinco e a tentar desenvolver investigação de qualidade para chegar ao fim e ter um dispositivo que permita gerar esse ato revolucionário”, acrescenta.
Maria Goreti sublinha que quando a sua equipa conseguir desenvolver o dispositivo da forma que está planeado, o diagnóstico precoce pode ter duas linhas de orientação. Um será o diagnóstico de rotina – já que por exemplo, poderá auxiliar ou substituir exames como a mamografia – um procedimento comum e rotineiro para as mulheres acima de 40 anos. “Será possível realizar um procedimento paralelo com a monitorização dos biomarcadores”, referiu.
Outra função dos dispositivos será o despiste em pessoas com maior predisposição genética risco de vir a sofrer de cancro, por terem casos na família. “Nestes casos, o clínico poderá fazer o despiste de uma forma mais frequente”, afirmou.
Mas se o diagnóstico precoce é o principal objetivo, tal não significa que os biossensores que estão a ser desenvolvidos, não possam ser adequados ao acompanhamento terapêutico do doente. “A evolução das biomoléculas pode ser acompanhada e conduzir a uma melhor forma de terapêutica. Em termos práticos, seria acompanhar a medicação do doente e a evolução da doença face a essa terapêutica, monitorizando esses biomarcadores (biomoléculas)”, explica.
Ou seja, nas pessoas a quem já foi diagnosticado um cancro e que estejam a ser medicadas, esta nova forma de exame (por ser rápido) permite uma acompanhamento mais estreito, o controle das biomoléculas a nível laboratorial, e, caso seja o caso, o ajuste da terapêutica que está a ser administrada.

Ainda a começar

Maria Goreti Sales lembra que a investigação está ainda a começar e tem cinco anos pela frente, “dirigidos a este objetivo”. Um trabalho que foi possível iniciar graças à conquista da bolsa de investigação internacional, à qual concorreram 4741 projetos. Foi em setembro deste ano que Maria Goreti Sales soube que o seu projeto de investigação tinha ganho uma das bolsas «Starting Grant» do European Research Council. Sediado em Bruxelas, Bélgica, aquele instituto atribui as bolsas aos melhores e mais criativos investigadores europeus, financiando as investigações científicas de alta qualidade que são desenvolvidas no continente.
A investigadora sublinha que em primeiro lugar, “esta bolsa traz dinheiro”. “Sem dinheiro pode-se ir fazendo alguma coisa, mas com mais dinheiro podemos fazer tudo mais depressa. A verdade é que neste caso, sem esse dinheiro não conseguiríamos continuar a investigação, porque há equipamento de que precisamos e não teríamos outra forma de comprar. Essa bolsa, está a tornar possível esta investigação e executá-la a curto prazo”, explica.
A investigação será conduzida totalmente em Portugal, na BioMark Sensor Research, a mais recente unidade de investigação do ISEP, que é dirigida por Maria Goreti. “Este projeto não tem parceria, é mesmo só nosso”, sublinha a investigadora que vai coordenar uma equipa formada por dois alunos de pós-doutoramento e dois alunos de doutoramento do ISEP.
Os resultados preliminares, só deverão surgir dentro de dois a três anos, e permitirão perceber o desempenho, eficiência, capacidade dos biossensores. Colocá-los em prática, só mesmo ao fim de cinco anos. “Quanto tivermos os resultados preliminares vamos passar aos testes «de campo» em colaboração com o IPO (Instituto Português de Oncologia) do Porto. Para os testes com amostras reais colhidas de doentes, cumprindo todos os requisitos éticos, vamos ter mesmo que esperar cinco anos”, acrescenta.

“Portugal faz investigação de qualidade”

“É muito difícil obter uma bolsa destas”, afirma a professora adjunta no Departamento de Engenharia Química do ISEP, quando questionada se foi com surpresa que recebeu a notícia de que o seu projeto de investigação tinha sido contemplado com uma «Starting Grant».
“Confesso que não estava à espera sequer de ter a hipótese de ir a Bruxelas, defender a investigação, por um simples motivo: no ano passado não houve ninguém em Portugal que tivesse ganho uma «Starting Grant», sublinhou a investigadora, que recebeu o financiamento de um milhão de euros para prosseguir o trabalho. São 200 mil euros por ano que permitem a compra e equipamento e a contratação de quatro investigadores, todos doutorandos e pós-doutorandos do ISEP.
Maria Goreti explica que a surpresa foi maior por estar ligada a uma instituição ainda sem tradição nesta área de investigação. “Imaginei à partida que as minhas probabilidades estivessem diminuídas. Mas isso não aconteceu e fiquei muito contente por ir a Bruxelas. Depois de lá ir comecei a repensar no que tinha respondido e a achar que poderia ter feito melhor”, recorda, acrescentando que chegou a achar “que não ia ter bolsa nenhuma”. Mas a resposta que recebeu mostrou que os temores não tinham fundamento e deixou a investigadora portuguesa “muito contente”, por si, e pelo que representa para o país.
“É muito bom para Portugal ter alguns investigadores que podem ir lá fora mostrar que têm ideias, e terem a Europa a financiar esses projetos. Quem olha para nós pelo menos pode olhar com respeito, porque Portugal mostra que também faz investigação de qualidade”, destaca, defendendo ainda que numa altura de crise no país, estas notícias dão algum ânimo. “Cá dentro, numa altura em que os desânimos estão instalados, estas notícias são algo muito positivo, que dá alento. Podem mostrar que não vale a pena desistir e que com trabalho e dedicação podemos ter vitórias”, conclui.

Ana Grácio Pinto
apinto@undoportugues.org

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