Canadá e EUA deportaram 1.175 emigrantes para os Açores

Data:

O estudo «Emigrantes Deportados nos Açores» visou a realização de um trabalho mais aprofundado sobre a questão da deportação de emigrantes açorianos do Canadá e dos Estados Unidos, explicou ao MUNDO PORTUGUÊS, Graça Castanho, diretora Regional das Comunidades, do Governo dos Açores. O estudo teve por base os dados da Direção Regional das Comunidades (DRC), fruto dos registos e notificações que aquele organismo tem recebido desde finais dos anos 80 do século passado.

O Canadá e os Estados Unidos Canadá deportaram para os Açores 1.175 emigrantes portugueses nos últimos 25 anos, indica o estudo. Apresentado no final de setembro em Ponta Delgada, foi encomendado pelo Governo dos Açores ao Centro de Estudos Sociais, da Universidade dos Açores. O documento baseou-se em dados da DRC e outros fornecidos pelos dois países, principais destinos da emigração dos Açores, e confirma os EUA são o “principal emissor de cidadãos deportados” para o arquipélago.
As deportações dos Estados Unidos representam 78,7 por cento do total das que foram contabilizadas até ao primeiro trimestre de 2012, sendo que 12 por cento das deportações a partir de território norte-americano ocorreram até 1996 e 31 por cento entre 1997 e 2001. Entre os dois países, os maiores fluxos em deportações para os Açores aconteceram em 1999, 2006 e 2008, sobretudo devido à implementação de políticas de imigração “mais restritivas”.
“Muitos dos cidadãos atualmente deportados parecem ter saído ainda jovens, provavelmente na companhia dos pais”, refere o estudo, revelando que a apesar dos fluxos de emigração açoriana terem estado a diminuir desde finais da década de 80, a “intensidade da deportação” tem vindo a aumentar.
Sobre essa crescente deportação, o estudo defende que pode ser “em parte” uma consequência “da exposição a condições estruturais das sociedades norte-americanas e canadianas que potenciem ou favoreçam a prática de atos criminosos”, numa comunidade emigrante que “não ultrapassou muitas das características de uma sociedade de origem que é, maioritariamente, de baixo estatuto social e cultural”.
Segundo o estudo, 34,4 por cento dos deportados tinham o ensino básico concluído, aquando da chegada aos Açores, enquanto 27,2 por cento tinham o segundo ciclo e apenas 19 por cento concluíram o ensino secundário. A maioria estava ligada à construção civil e à indústria, com 84,2 por cento no Canadá e 63 por cento nos Estados Unidos. Apenas 3,6 por cento eram quadros superiores da administração pública ou de empresas privadas.
Sobre a naturalidade, os investigadores concluíram que 90% dos deportados do Canadá são naturais da ilha de São Miguel (70,3%) e da Terceira (19,7%). Já dos Estados Unidos, apesar de serem também maioritariamente naturais dessas duas ilhas, a percentagem é mais próxima, com destaque para São Miguel de onde são oriundos cerca de 58%. Da terceira são cerca de 20% e de São Jorge pouco menos de 10%.
Quanto às idades à altura da deportação, o estudo esclarece que a “esmagadora maioria” tinha entre 18 e 39 anos (67,8%) e que 90 por cento tinham menos de 50 anos à data da deportação.
O sexo masculino é “dominante em quase todos os grupos de idade”, sobretudo com menos de 30 e mais de 49 anos, enquanto, entre as mulheres, 73,6 por cento tinha idades entre 30 e 49 anos à data da deportação. Entre os motivos para a deportação, de forma geral para os dois países, 23,2 por cento dos casos estudados ficaram a dever-se a mais do que um crime, enquanto a posse, tráfico e consumo de estupefacientes motivou 17,2 por cento das deportações.
Graça Castanho: “Era necessário um estudo mais aprofundado”
O estudo confirmou que esses números “ultrapassam” a base de dados da DRC, como sublinhou Graça Castanho, lembrado que as pessoas que são deportadas podem, à saída, “dizer que não querem ser referenciadas nem contactadas”.
A diretora sublinhou que era necessário “um estudo mais aprofundado sobre o género, as idades, as causas” acrescentando que tudo o que a DRC já sabia, carecia ainda de um fundamento estatístico e de um estudo. Um próximo documento de trabalho deverá incidir sobre a taxa de sucesso dos programas de acolhimento e integração criados pelo Governo dos Açores (ver página 16).
Os programas de apoio – como o «Regressos», criado em 2006 e que reúne uma rede informação entre diversas entidades do Canadá e Estados Unidos, a DRC e outras instituições regionais que acompanham estes açorianos – foram já considerados como um modelo a seguir por vários responsáveis estrangeiros, como David Kanstroom, diretor do Programa Internacional para os Direitos Humanos.
“A questão da deportação e acolhimento é da responsabilidade da República, mas face à inexistência e ao abandono do país, o Governo dos Açores sentiu a necessidade de criar estes programas, integrando ainda uma rede internacional de organismos que nos apoiam”, afirmou Graça Castanho, revelando que o Governo açoriano apoia atualmente cerca e 200 indivíduos. “O restante está integrado”, afirma.
A diretora da DRC Alerta que muitos portugueses estão a ser deportados “fruto de leis punitivas e retroativas que penalizam também pessoas que cometeram pequenos delitos, alguns na adolescência” e que acabam por deixar “famílias desestruturadas nos países onde esses deportados viviam”.
“Muitas vezes é o chefe de família que parte e esses casos Não compreendemos: pessoas que estão legais e que chegam na sequencia de pequenos delitos, como consumo de álcool e brigas. Em relação aos que estão ilegais e os que são presos, compreendemos a decisão”.
Graça Castanho acrescenta que esta política de deportação em muitos casos acaba por se tornar numa “fatura” que Canadá e Estados Unidos pagam duplamente, por “libertarem-se de indivíduos profissionalmente válidos” e pelo que “tem que pagar às famílias em termos de apoios”.
Apesar disso, não acredita que, nomeadamente nos Estados Unidos, venha a haver tão cedo uma alteração à lei da deportação. “Estão à beira de eleições e ninguém vai agora mexer em leis para mudar drasticamente o atual panorama”, explica.
Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Share post:

Popular

Nóticias Relacionads
RELACIONADAS

Compal lança nova gama Vital Bom Dia!

Disponível em três sabores: Frutos Vermelhos Aveia e Canela, Frutos Tropicais Chia e Alfarroba e Frutos Amarelos Chia e Curcuma estão disponíveis nos formatos Tetra Pak 1L, Tetra Pak 0,33L e ainda no formato garrafa de vidro 0,20L.

Super Bock lança edição limitada que celebra as relações de amizade mais autênticas

São dez rótulos numa edição limitada da Super Bock no âmbito da campanha “Para amigos amigos, uma cerveja cerveja”

Exportações de vinhos para Angola crescem 20% desde o início do ano

As exportações de vinho para Angola cresceram 20% entre janeiro e abril deste ano, revelou o presidente da ViniPortugal, mostrando-se otimista quanto à recuperação neste mercado, face à melhoria da economia.

Área de arroz recua 5% e produção de batata, cereais, cereja e pêssego cai 10% a 15%

A área de arroz deverá diminuir 5% este ano face ao anterior, enquanto a área de batata e a produtividade dos cereais de outono-inverno, da cereja e do pêssego deverão recuar 10% a 15%, informou o INE.