Vindimas: Ano de menos uva mas com mais qualidade

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Para a maioria dos portugueses a época das vindimas, é associada ao mês de Setembro. Porém há uns anos a esta parte e desde que o Alentejo despertou para o cultivo da vinha, é lá que se iniciam as vindimas e no mês de Agosto. Este ano, as vindimas iniciaram-se duas semanas mais cedo que o previsto…

A época das vindimas no Alentejo começou duas semanas mais cedo que o previsto, já que as condições climatéricas na Primavera proporcionaram um desenvolvimento da rebentação, floração e maturação do fruto. A vinha como todo o sector agrícola está dependente do factor – tempo e, de verdade o tempo não ajudou os viticultores. A produção de vinho no Alentejo deve sofrer este ano uma diminuição devido à instabilidade climática, que permitiu o desenvolvimento de míldio. O resto do país não foge à regra.
No caso das vinhas as condições climatéricas prejudicaram a floração e provocaram surtos de míldio – doença que afecta as folhas das plantas. A intensidade dos prejuízos dependeu da susceptibilidade das castas à doença e da oportunidade e eficácia dos tratamentos fitossanitários realizados, sendo que em muitos casos a produção ficou irremediavelmente reduzida,  prevendo-se uma redução na produtividade na ordem dos 25% no caso do vinho e de 10% no caso das vinhas para uva de mesa. Esta quebra pode afectar as exportações de vinho que o ano passado atingiram 649 milhões de euros, representando 1,6% das exportações portuguesas e mais de 15% do sector agro-alimentar. Porém nem tudo são más notícias e se há menos produção, a qualidade essa ainda é maior que em anos transactos e como lá diz o povo “até ao lavar dos cestos é vindima” a nossa reportagem esteve no dia 10 de Agosto nas vinhas de J. Portugal Ramos que com esta campanha totaliza 31 vindimas no Alentejo e que nos refere “ nunca encontrei duas vindimas semelhantes”.

Em Estremoz

Na Adega de Vila Santa “às portas de Estremoz” colhem-se as uvas e neste início da campanha, de algumas das castas que no anfiteatro de uma vinha jardim, a que a torre do castelo por trás dá uma imagem bela. Homens e mulheres colhem as uvas à mão, para caixas que logo são transportadas e refrigeradas. O engº Joaquim Faia conduz-nos pela vinha, pelas diversas castas, cuja maturação é diferente e,  é claro nas ordens aos vindimadores “cachos menos bons, logo cortados para o chão”. Haverá depois uma segunda escolha e aqui colhe-se uvas para vinhos topo de gama, para vinhos que irão ganhar mais medalhas. Dizem-nos que o Alentejo talvez não fosse o que é hoje se por lá não tivesse passado João Portugal Ramos. Enólogo, produtor e empresário, sedeado no Alentejo e com projectos igualmente desenvolvidos no Ribatejo, nas Beiras e no Douro, produz quatro milhões de garrafas e 60% do seu vinho é  exportado, tendo a Escandinávia como o seu mercado forte. Noutras vinhas a máquina fará o trabalho dos vindimadores e destas uvas sairá o Marquês de Borba, o Lóios ou Quinta Santa, entre outros.

Ervideira

Rumamos depois à Adega da Ervideira, empresa vitivinícola do concelho de Évora, que iniciou as suas vindimas, num processo que “terá o seu auge uma semana, ou duas mais tarde”. Para assistir à vindima tornou-se necessário estar na vinha às sete da manhã, já que toda a produção é vindimada “à máquina”. Duarte Leal da Costa espera-nos em Alvito,  e rumamos às vinhas na Vidigueira que se estendem por vários hectares.  Estas herdades do Monte da Ribeira e da Herdadinha, pertencem à família Leal da Costa, descendente directa do Conde de Ervideira, agricultor de sucesso dos séc. XIX e XX. Duarte Leal da Costa o director executivo da empresa, foi pioneiro na introdução de vindima mecanizada. Aqui o operador da máquina, a primeira a ser comprada no Alentejo percorre as videiras e através de vibração e sucção, deixa o “engaço” sem bagos, recolhendo os bagos de uvas. Numa “manta” de vinha ou seja numa fila, este ano, ao contrário dos outros não precisa de vir, despejar para o tractor e para as cubas os mil e tal quilos que armazena de bagos, sinal evidente, que gasta o seu tempo, percorre o mesmo espaço e número de cepas, mas como há menos uvas, menos colheita obtém.
Duarte Leal porém está satisfeito com a qualidade “ a produção média é de 6,5 a sete toneladas por hectare e este ano será muito mais baixa, na casa das cinco toneladas. A qualidade não foi afectada pois não se verificou depois de um ano de míldio haver muita chuva. Se vindimarmos sem haver chuva a qualidade é muito boa, apesar de menor”. Na Adega na Vendinha, às portas de Reguengos de Monsaraz, o enólogo Nelson Rolo, chegadas as uvas à adega, que dista 60 Km em transporte refrigerado, irá transformar as uvas em mosto, para uma fermentação controlada que irá produzir os afamados vinhos Conde da Ervideira, Lusitano ou Invisível. Setecentas mil garrafas de produção média anual, irão para o mercado nacional e 40% para o mercado internacional, e Leal da Costa afirma” o futuro está lá fora e já fizemos a primeira exportação para a Estónia e Letónia, continuando a crescer no Brasil. É mais fácil crescer lá fora do que cá dentro. Portugal está a melhorar a sua imagem internacional e os vinhos beneficiam dessa projecção”

Reguengos Monsaraz

Rumamos depois a Reguengos e na Carmim- Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz – criada em 197,  trinta e sete anos depois, recebe toneladas e toneladas de uvas dos sócios produtores de todas as castas da região, vindimadas à máquina e manualmente.  Esta empresa lidera o mercado nacional no segmento dos vinhos de qualidade, possuindo actualmente cerca de mil associados e produz 24 referências de vinhos: dos brancos aos tintos, dos jovens aos reservas, passando pelos licorosos, rosé ou espumantes.
Nesta Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz (CARMIM), no distrito de Évora, cujos associados já começaram as vindimas no dia 11, a perspectiva é de “uma diminuição de produção entre 10 a 20 por cento”, face a 2010, refere o enólogo da empresa, Rui Veladas, que à frente de uma vasta equipa, é o responsável pelos vinhos da casa. Esta é a sua décima primeira vindima e está à frente de uma equipa de enologia de quatro pessoas.
O engenheiro da CARMIM explicou que “a primavera foi extremamente favorável ao desenvolvimento de míldio, que provocou algumas quebras de produção”, acrescentando que o granizo que caiu em várias trovoadas afectou também algumas vinhas. O enólogo referiu que tem ainda dificuldade em dar uma estimativa da quantidade de uva que a Carmim vai receber dos seus associados, indicando que em 2010 a empresa recebeu 23,4 milhões de quilos de uva.
Segundo Rui Veladas, as previsões apontam para uma “boa” qualidade da uva, visto que houve “boas maturações devido a um Verão menos quente. O ano de 2009 foi o ano mais baixo de sempre na produção. Em 2010, foi um dos anos históricos na produção, a maior produção de sempre. Este ano há menos uvas mas a qualidade é maior. As plantas estão mais equilibradas porque há menos uva e o Verão tem sido muito temperado, sem as ondas de calor e isso significou que a uva foi fazendo bio-síntese a amadurecer, desde o princípio do Verão, até final do Verão.
Este Verão fresco tem ajudado muito a qualidade das uvas, mais do que é normal, em termos de acidez e aromas”. A produção média desta adega anda na casa dos 14 quinze milhões de litros e Rui Veladas acredita que no final da campanha provavelmente poderá ter menos um milhão, ou dois de litros de mosto que se irá transformar em vinho, vinho esse de marcas tão conhecidas como Bom Juíz, Monsaraz, Terras d’el Rei, ou Garrafeira dos Sócios, vinhos esses que há muito alcançaram os mercados internacionais. As uvas tintas são as primeiras a ser vindimadas, nas próximas semana as uvas brancas. Mais perto de Lisboa,  no distrito de Setúbal o presidente da Associação dos Agricultores do distrito refere que 80% da uva da região está perdida.
Com  menos uvas, este sector de actividade ocupa milhares de pessoas, e Portugal orgulha-se de produzir vinhos de cada vez maior qualidade. É um sector agrícola de forte peso nas exportações e os vinhos portugueses são vendidos em todo o mundo, com taxas de crescimento efectivo, mas que muito mais podem crescer, já que há produção e qualidade.
António Freitas
afreitas@mundoportugues.org

 

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