Maioria dos portugueses em França não pretende regressar a Portugal

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Os portugueses e os luso-descendentes que vivem em França sentem-se divididos entre permanecer naquele país ou regressar a Portugal. É o que revela um estudo recente realizado pela Fundação Vox Populi: 45 por cento dos inqueridos pretendem continuar em França, contra os 42 por cento que ainda pensam regressar. A razão mais alegada pelos primeiros é “o facto de terem família em França”, refere o estudo. Luís Queirós, presidente da Fundação sublinha que “s portugueses de França, trazem Portugal no coração, mas a balança começa a inclinar-se para a terra onde ganham o pão de cada dia”.

Os portugueses e luso-descendentes que residem em França ainda se sentem divididos entre os dois países, mas “já são mais franceses do que portugueses”.
Esta é uma das conclusões do «Estudo das Comunidades Portuguesas em França – 2010», realizado pela Fundação Vox Populi.
“É a França que os alimenta, foi a França que educou os seus filhos, é na França que recebem os seus salários e as suas reformas, é na França que tratam as suas doenças”, lê-se no texto do estudo.
E apesar de terem “o coração em Portugal” e a maioria sonhar com o regresso, nem todos vão concretizar esse desejo, já que os filhos e os netos são as raízes que os prendem definitivamente ao país que os acolheu.
“Os portugueses de França, trazem Portugal no coração, mas a balança começa a inclinar-se para a terra onde ganham o pão de cada dia. Revelam um sentimento de abandono por parte dos nossos governantes. Foi por reconhecer a sua importância que nós, na Fundação Vox Populi, sentimos o dever de auscultar e dar a conhecer a opinião destes portugueses. Afinal, é uma forma de exprimir o nosso lema: Sou português, tenho opinião, cuido o futuro”, refere Luís Queirós, presidente da Fundação Vox Populi.

“Esquecidos por Portugal”

E se os mais velhos – aqueles que passaram a juventude em Portugal – nunca “serão franceses”, muitos sentem-se “esquecidos por Portugal”, e alguns afirmaram mesmo não sentirem “orgulho de serem Portugueses”. “Este será o primeiro sintoma do divórcio e da renegação da paternidade”, lê-se no documento a que O Emigrante/Mundo Português teve acesso.
Uma das principais conclusões do estudo é que estes emigrantes “sentem que Portugal os abandonou: deixou que esquecessem a língua e não a ensinou aos descendentes. Não estava junto deles quando precisavam de resolver problemas, tratar de papeladas”.
Mas apesar esse sentimento, ainda se ligam emocionalmente a Portugal, uma proximidade visível nos produtos que consomem. “Conhecem alguns políticos, sobretudo aqueles que mais se movimentam na cena internacional. Mas participam muito pouco nos actos eleitorais”, revela ainda o documento.
Ainda é no desporto que revelam mais a emoção portuguesa e vibram quando Portugal tem um êxito desportivo, “uma forma de reafirmar o orgulho da nacionalidade”. “Talvez por isso, preferem o “Porto”, o clube que mais vitórias lhes deu no plano internacional”, lê-se.
A maioria dos portugueses e luso-descendentes residentes em França sente falta de apoio de Portugal.
Cerca de 63 por cento – quase dois terços dos inquiridos –  afirmaram não se sentir apoiados quando precisam. Apenas 21 por cento sente essa ajuda, nomeadamente no que diz respeito tratamento de documentos nos consulados e ao facto de serem bem recebidos em Portugal.

30 por cento “menos ligados”

O «Estudo das Comunidades Portuguesas em França – 2010» conclui ainda os laços que ligam portugueses e luso-descendentes a Portugal, “começam a enfraquecer”.
“Viver fora de Portugal não é razão para se estar menos ligado ao seu país de origem. É isso que nos dizem os portugueses e luso-descendentes em França.
Mas a ligação com Portugal começa a ser tendencialmente menor”, refere o documento, fundamentado nos 30 por cento de inquiridos que confessaram sentir-se hoje menos ligados ao país.
Do total dos entrevistados, apenas dez por cento afirmou sentir uma maior ligação a Portugal.
Quando questionados sobre o que os levava a sentirem-se mais afastados de Portugal, 43 por cento dos inquiridos não indicaram as razões. Os que o fizeram, indicaram entre outras razões, a família em França, a assistência médica, as condições de vida em Portugal, a política e o “não ser português em Portugal”.

Quase 86 por cento fala português

Numa análise à relação com as línguas francesa e portuguesa, o estudo indica que 85,8 por cento fala fluentemente português e 88 por cento francês.
Entretanto, a percentagem global de quase 86 por cento dos fluentes em português baixa para 78 por cento no grupo etário dos 18 aos 44 anos.
Ainda em relação à língua portuguesa, 13,5 por cento dos inquiridos fala pouco, mas desses, a grande maioria (75 por cento) gostaria de aprender a língua. Dos inquiridos, 0,5 por cento disse não falar nem compreender a língua de Camões.
Sobre a intenção de regressar a Portugal, mostram-se divididos, mas “a balança já pende para o lado do «não»”, revela o estudo. Do total, 49 por cento não tenciona voltar, enquanto 42 referem que têm intenção de o fazer. Um valor que é mais elevado no que refere às mulheres e “bastante mais elevado” na faixa etária dos 18 aos 44 anos (54 por cento quer regressar) do que nos que têm mais de 54 anos (apenas 26 por cento pensa voltar a Portugal).
O estudo, feito por amostragem, incidiu nos testemunhos de 275 famílias de portugueses e luso-descendentes residentes em França. Em cada família foi entrevistado um elemento com 18 ou mais anos. “Entrevistámos192 homens, 83 mulheres, 85 pessoas com idades compreendidas entre os18 e os 44 anos, 124 com idades entre os 45 e os 64 anos, e 66 com mais de 64 anos”, referem os responsáveis pelo estudo.
As entrevistas foram realizadas através do auto-preenchimento de um questionário enviado pelo correio e respondido em papel ou através da internet. O universo dos inqueridos poderia ter sido maior, já que foram contactados 3808 lares de portugueses e luso-descendentes, escolhidos aleatoriamente de uma lista de contactos, mas a taxa de resposta foi “de 7,5 por cento”.

Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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