Projecto pioneiro reúne cartas de emigração guerra prisão e exílio

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Investigadoras da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Lisboa têm em mãos dois projectos que até hoje nenhum académico levou avante. Coordenadas por Rita Mariquinhas, investigadora responsável e autora dos estudos, Mariana Gomes, Leonor Tavares e Ana Guilherme, estão a levar a cabo dois projectos que vão culminar na publicação de quatro mil cartas – duas mil do projecto Cards, do século XVI ao século XIX, e duas mil do projecto Fly, que abrange o período de 1900 a 1979. Cartas escritas, em boa parte, por pessoas do povo, que vão ser reunidas num arquivo digital e ajudar a trazer um novo olhar sobre os portugueses. Entre essas, estão cartas de emigrantes, correspondência trocada entre portugueses que vivem no estrangeiro e os seus familiares. São «cartas de saudade», difíceis de obter e que originaram um apelo, dirigido a todos os que, em Portugal e no estrangeiro, possam contribuir para esta iniciativa.

Os projectos Cards e Fly surgiram no âmbito do doutoramento da coordenadora da equipa, Rita Mariquinhas.
“Nos estudos de Linguística Histórica, associados aos estudos académicos, normalmente investigam-se documentos que não são produzidos por populares”, explica Mariana Gomes a O Emigrante/Mundo Português.
Apesar de uma pessoa «do povo», poder transcrever a sua oralidade para a escrita, numa forma de preservar usos e tradições, os manuscritos populares antigos são pouco conhecidos.
A vontade de publicar precisamente alguns desses escritos deu origem ao projecto Cards: Cartas Desconhecidas, redigidas entre 1500 e 1900. Mas o número estabelecido – duas mil cartas – ampliou-se… ao dobro. Porque aos dois primeiros milhares, juntaram-se mais dois mil manuscritos, reunidos no projecto Fly – uma recolha de cartas redigidas por populares, entre 1990 e 1979, e que dará destaque à correspondência trocada entre emigrantes portugueses e os seus familiares.
O Cards começou com a análise de alguns processos inquisitoriais que contêm cartas pessoais, reunidos nomeadamente, na Torre do Tombo. “Ajuda muito o facto das cartas estarem contextualizadas nesse processo judicial, porque percebemos quem escreveu a carta, quem a enviou, onde foi encontrada. Muitas das quais em rusgas feitas a casas de presos, que encontravam um molho de cartas num baú”, revela Mariana Gomes.
O grande objectivo do projecto Cards é disponibilizar as cartas, preparando-as já para certo tipo de estudos, nomeadamente linguístico e histórico. O projecto Fly, além dessas vertentes, inclui a sociológica. “Acabamos por estudar mais a nível linguístico, mas disponibilizamos os dados, de forma a que historiadores e linguistas possam estudá-los. Não estamos tão preocupados em fazer um perfil das pessoas, mas em disponibilizar os documentos para que outros possam estudá-los”, avança a investigadora.
Todas as cartas já tratadas, estão disponibilizadas no site do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (http://alfclul.clul.ul.pt/cards-fly/), para pesquisa automática. Até agora podem ser visualizadas 707. As investigadoras explicam que as outras, nomeadamente as restantes do projecto Cards, já concluído, ainda estão a ser revistas, mas muito proximamente estarão disponíveis.
Em relação às cartas escritas no século XX, a demora será maior, porque por lei não podemos revelar dados privados. “Vamos tendo permissão, mesmo assim é complicado: podemos obter a permissão do destinatário, que é quem nos dá a carta, mas estão e o destinatário e as pessoas mencionadas nela?”, questiona a investigadora
Por esse motivo, estipularam um princípio: em todas as cartas do século XX, os dados que tenham em conta nomes e lugares demasiado específicos foram retirados.

Projecto Fly

O projecto Fly tem um período temporal mais curto, mas o trabalho de investigação é mais difícil. É no seu âmbito que se inserem as cartas de Emigração. Planeado como uma continuação do Cards, pretende reunir duas mil cartas, redigidas no século XX, entre 1900 e 1979. São cartas particulares, escritas em ambiente de guerra, prisão, exílio ou emigração. “Concentramo-nos nesses quatro contextos, porque são os que proporcionam distância entre as pessoas. No século XX português, foram basicamente esses que levaram as pessoas a escreverem cartas”, explica Mariana Gomes.
Mas apesar do universo alargado, a dificuldade prende-se com o facto de não ter havido até agora, nenhuma preocupação em reunir cartas escritas por pessoas ditas «vulgares». “Se formos a um arquivo que tenha fundos epistolográficos, normalmente são de pessoas conhecidas. No Arquivo Histórico Militar, por exemplo, estão reunidas cartas em fundos que têm outros documentos, como processos da PIDE, mas dizem respeito sempre a pessoas conhecidas, como generais envolvidos na guerra colonial”, sublinha a investigadora, que considera “injusto” não se mostrar todas as facetas de um mesmo contexto, “como a guerra colonial ou a Primeira Guerra Mundial de que já estamos também a transcrever cartas”, revela.

Dificuldades

E se em relação ao Cards, o objectivo das duas mil cartas já foi atingido, o projecto Fly reúne neste momento pouco mais de 200 documentos. “Começamos há relativamente pouco tempo, mas tem sido mais difícil, ou porque ainda não estão localizadas, ou porque nem todas as pessoas pretendem divulgá-las mesmo com a salvaguarda dos dados pessoais”, revela Leonor Tavares. Porque retratam temas íntimos, sensíveis e mais recentes.
Por esse motivo, coordenadora e investigadoras decidiram lançar um apelo, que crêem, que irá fazer chegar a informação sobre o projecto a um universo mais de pessoas. Nele, pedem a quem tenha guardado cartas escritas num dos quatro ambientes definidos (guerra, prisão, exílio ou emigração), e esteja aberto à sua divulgação enquanto objecto de investigação, que as faça chegar às investigadoras.
“ Temos divulgado o apelo e contactado pessoas conhecidas que sabemos terem passado por situações como o exílio, e que tenham um espólio familiar que nos possam ceder”, diz Mariana Gomes. Mas apesar das pessoas só estejam, em geral, disponíveis para revelar o seu espólio a quem confiam, dizem até têm sido “abertas”. “Já temos por exemplo dois espólios com 40 cartas cada, um de prisão política e o outro de guerra”, revela Mariana. O apelo, agora enviado a várias entidades, tem sido feito também a familiares, amigos, conhecidos e até vizinhos. “Porque não é difícil alguém conhecer um ex-soldado que tenha ido para a guerra colonial”, exemplifica.
Assim como não será difícil conhecer alguém que viveu no Ultramar, nas chamadas ex-colónias – neste contexto, essa correspondência é contabilizada como emigração. São cartas como a escrita em 1971 por um português residente em Lourenço Marques, actual Maputo, à sua irmã e à sobrinha, que viviam em Portugal, a relatar a sua vida e o porquê do atraso na sua correspondência.
“Aqui estou a pedir desculpa de só agora lhes escrever e também quero agradecer o cartão de boas festas e o telegrama que me mandaram pelos anos. Não julguém que não me lembrei de lhes mandar um cartão de Boas-Festas, lembrei-me, sim, mas o tempo é que faltou. Desde que cheguei tenho andado em andanças”, escreve para de seguida explicar o motivo da sua falta de notícias. Conta-lhes depois como passou as Festas natalícias na capital de Moçambique. “Não queiras saber o que foi nesta Cidade, no que respeita aos turistas. Foi mesmo uma loucura”. E termina com beijos à irmã e um abraço ao pai.

Cartas de Emigração

Quanto às cartas escritas entre emigrantes portugueses e os seus familiares que ficaram em Portugal, tem sido particularmente complicado, chegar até elas.
“Essas são as mais difíceis de obter, as pessoas estão fora, por isso é difícil trazê-las de lá para cá”, confirma Leonor Tavares, que tem sido responsável pelo tratamento dessas cartas. Já foram reunidas 95, das décadas de 30, 60 e 70, e escritas por portugueses residentes em vários países, sobretudo Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, França, Holanda e ex-colónias. De entre as cartas que já analisou, Leonor recorda uma em particular. “Houve uma de um emigrante português, escrita em plena época da Segunda Guerra Mundial. Ele diz que foi «apanhado» na viagem de navio e vai relatando aspectos da guerra. Ali fica-se a saber não só aspectos da emigração, mas também da guerra, porque conta alguns acontecimentos interessantes”.
Mas há cartas mais «tradicionais». Como a de uma emigrante portuguesa, residente em Amesterdão (Holanda), escrita em 1976 e endereçada à irmã. À semelhança de muitas outras cartas da época, começa com uma saudação típica. “Desejamos que esta nossa casa te vá encontrar de boa saúde, assim como todos aí de casa. Nós ficamos bem graça a Deus”. Mas esta não é, curiosamente, uma carta apenas de «saudade». A emigrante, pede à irmão que vá a uma determinada loja descobrir o preço e a quantidade de peças de um serviço de louça, peça para que seja reservado – “porque eu já cá tenho o dinheiro para ele”, justifica –  e que lhe mande a informação por carta.
Mas com uma ressalva importante.
“Quando me escreveres a dizer, que digas da seguinte maneira: olha eu já cá tenho o serviço para te oferecer, porque sabes que os maridos não  gostam que nos compramos muita coisa, e também por causa das minhas noras; e assim, julgam que és tu que me ofereces”, explica. A compra, «escondida», seria feita quando a irmã emigrante viesse de férias a Portugal.
São cartas como esta, mas principalmente aquelas carregadas de saudades, que fizeram Leonor Tavares ter uma perspectiva “diferente” da emigração. Porque, sublinha, “parece que os portugueses no estrangeiro, ainda se sentem mais portugueses”. “É uma saudade, um nacionalismo muito presente e intenso. Fiquei um bocado espantada nesse sentido. Às vezes as cartas não são tanto a falar de assuntos recorrentes, como o que estão a passar nesses países, mas mais a referir as saudades de Portugal, das coisas de Portugal”, destaca, acrescentando que esse é um sentimento geral, vivido em todos os países onde eles estejam.

Apelo à recolha de cartas

Foi a dificuldade na recolha de cartas no âmbito do projecto Fly, principalmente aquelas relacionadas com a Emigração, que motivou o apelo (ver caixa). Inicialmente, a pesquisa das cartas de emigração tem sido feita com base no SNI (Serviço Nacional de Informação), que está disponível na Torre do Tombo e no conhecimento de pessoas que tenham passado por essa experiência.
As investigadoras já começaram também a contactar instituições no estrangeiro, mas estão ainda à espera de respostas. “Temos feito chegar a informação a instituições que tenham contacto com emigrantes. A nível pessoal, fazemos mais por cá, individualmente”, explica Mariana Gomes. Em vão daqui a uma semana, começar a percorrer o país, desde Fafe, que acolhe o Museu da Emigração, a V. Nova de Famalicão, Vila Real, Aveiro, Coimbra, Leiria, etc. E enquanto percorrem o país, fazem «figas» para que os contactos do estrangeiro surtam efeito.

Distanciamento “impossível”

Se no início o Cards e o Fly eram projectos intrinsecamente académicos, já não conseguem lerem uma carta e analisá-la, apenas como investigadoras. “É impossível ler uma carta da Primeira Guerra Mundial, ver que (os soldados) passavam fome e falavam disso aos pais, e isso não nos dizer nada. São pessoas que estão ali a contar a sua história, não é literatura. São experiências pessoais muito vividas. Isso afecta-nos um bocado”, revela Mariana.
Ana Guilherme partilha do mesmo sentimento. A trabalhar principalmente as cartas escritas em contexto de prisão, diz que essas “marcaram um bocado”. “Uma pessoa que está na situação de preso político, toca-me. Até por serem (situações) relativamente recentes”, conta. Mas, curiosamente, é uma carta antiga que não lhe sai da memória. “Houve uma situação, nas cartas do projecto Cards, que me marcou: de Diogo, nunca mais me esqueci do nome, um senhor que foi preso por ser judeu, e acabou por se suicidar na prisão”, diz. Porém, confirma que há um distanciamento temporal nas cartas do Cards, que não ocorre nas cartas do projecto Fly. “Estas do século XX, de facto marcam. Uma pessoa sente-se mais sensibilizada para a situação”, acrescenta.
Ambas afirmam que em grande parte das histórias, sentem vontade de conhecer a pessoa hoje em dia e “saber o que se seguiu”. “Aliás, uma das nossas ideias é que algumas das pessoas de que nós tenhamos os dados, e que não se importassem de ser contactadas, posteriormente nos concedessem entrevistas, para nos dizerem como se recordam desses tempos, como os ultrapassaram e como os vivem hoje em dia”, reforça Leonor Tavares.
Actualmente a tratar cartas da Primeira Guerra Mundial, Mariana Gomes diz que tem sido uma experiencia bastante intensa. “Encontrei 75 cartas, e todas têm um contexto especial. A guerra foi censurada, portanto todas as cartas tiveram o filtro da censura. As que se podem consultar no Arquivo Histórico Militar, são do grupo expedicionário português, vistas pela censura e que não chegaram ao destinatário. São cartas que têm alguma informação considerada negativa: que descrevem uma batalha, que demonstram algum descontentamento e que por isso, não chegaram aos familiares. É um tema bastante forte, bastante violento e por isso impressionam-me mais”.
Com o prazo limite a acabar em 2012, as investigadoras não têm muito tempo para recolher as restantes cartas e cumprir para o projecto Fly, o mesmo objectivo que já foi conseguido no Cards: reunir duas mil cartas de guerra, prisão, exílio e emigração (estas, as mais difíceis de obter até agora). Gostariam de poder continuar o projecto, para lá de 2012, um desejo que dependerá do orçamento disponível. Ana Guilherme revela que numa segunda fase têm já ideias para uma exposição, ou uma publicação em livro.
“Mas neste momento, só temos o apoio da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), mas estamos a pensar pedir apoios exteriores. São mesmo necessários”, sublinha Mariana Gomes.
No fim o que esperam ganhar a nível pessoal?
Mariana diz que para além de obter mais conhecimento sabe que terá “uma maior sensibilidade em relação a estes contextos” que não lhe eram tão familiares. Nem a ela nem a Leonor e Ana, já que nasceram todas depois do 25 de Abril – e depois da data final do projecto Fly (1979).
“Temos outras memórias familiares e também históricas e culturais, mas a partir destas histórias tão pessoais e individuais acabamos ver estes contextos com outra profundidade”, acrescenta.
Ana sublinha que este é um contacto com a história, contada na primeira pessoa, por quem a viveu realmente. “No âmbito do projecto Cards, recebemos uma carta na qual o autor disse que esteve tanto tempo sem dizer nada porque ele estava a ir para a Índia e houve um confronto com um galeão holandês. Isso é a História a acontecer. Aquela pessoa esteve envolvida naquela batalha, conta que houve uma série de aventuras e nunca mais pode escrever. E estas «riquezas» são muito valiosas.
Já Leonor sabe que vai sair do projecto Fly “com uma visão totalmente diferente do que é a história de Portugal nos diversos contextos” que abordaram. “É uma riqueza inestimável, é uma memória que não está divulgada e seremos nós a fazê-lo”, garante.

 

Divulgado com a autorização das investigadoras

Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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