Bruno Faria: “A música clássica também é vibrante”

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Bruno Faria sempre gostou de música, dos mais variados estilos. Mas a paixão pela guitarra, que começou a tocar aos 12 anos, levou-o a descobrir os temas clássicos, e daí em diante o universo dos grandes compositores nunca mais o abandonou. Licenciado em Composição Musical pelo Berklee College of Music – uma renomada faculdade de Música, nos Estados Unidos – dedica-se de corpo e alma ao erudito. Bruno Faria espera um dia poder desenvolver um projecto no âmbito da música clássica com a Gulbenkian ou a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Para já, trabalhar actualmente numa composição para orquestra sinfónica, baseadas nas «Pinturas Negras», do pintor espanhol Francisco De Goya. Diz que “era feliz a ouvir Mozart” o resto da vida e garante que a música erudita “é um mundo inteiro”…

Se apenas lhe fosse permitido ouvir temas de um único compositor, “tinha que ser Mozart”. Arrisca dizer que “era feliz a ouvir Mozart” pelo resto da vida, mas foi a Sinfonia nº 6 de Tchaikovski, a peça que mais o sensibilizou. Bruno Faria diz que não sabe explicar a opção pela música clássica, mas recorda-se de um álbum que poderá ter começado a influenciá-lo mais do que imagina. “Lembro-me de em criança, ter recebido um disco sobre temas clássicos para miúdos, que tinha na capa uma imagem de Beethoven”, recorda o luso-descendente, hoje com 35 anos e que reside nos Estados Unidos desde os cinco. O disco a que se refere é «Ana Faria brincando aos clássicos 1», foi lançado em 1982 e adaptava, para crianças, árias de ópera e peças dos mais famosos compositores clássicos.
“Quando ouvia, não sabia que eram canções a partir de originais de Mozart ou Beethoven, sabia apenas que aquela era uma senhora a cantar temas líricos, mas para crianças. Não me lembro das letras, mas gostava das melodias, que recordo até hoje. É estranho como as coisas são”, recorda numa entrevista a O Emigrante/Mundo Português.

Do rock para o clássico

Iniciou-se no acordeão aos 6 anos, um ano depois começou a tocar violino e descobriu que gostava de instrumentos de corda. “Além de violino toquei violoncelo e com 12 anos comecei a tocar guitarra, primeiro rock e depois comecei a aprender música clássica e jazz”, explica, sabendo que não é muito comum iniciar com o rock e optar depois pelo erudito. “Comecei a ouvir tocar peças sinfónicas na guitarra. Interessava-me e queria ouvir a peça original, ouvia um grupo a tocar Beethoven e ia ouvir a sinfonia”, recorda.
Bruno iniciou as aulas de guitarra em Bridgeport, na Porto Music School, em Bridgeport, escola fundada pelo português Frank Porto, que se tornou um apoiante desde o início. “Eu era o tipo de aluno a quem o professor mandava aprender a tocar o que estava em duas ou três páginas de um livro e eu ia aprender o livro todo, queria sempre avançar mais”, sublinha. Mais tarde, haveria de regressar à antiga escola, como professor de guitarra.
Em 1993 entrou na Joe Tinari School of Musica, em New Haven para ingressar dois anos depois no Berklee College of Music, sediada em Boston e considerada, a nível internacional, a mais importante instituição autónoma de ensino superior de Música. Aos 20 anos conseguiu uma bolsa de estudos para  ingressar naquela que é também considerada o principal centro mundial de música contemporânea e licenciou-se em Composição Musical. “Praticava guitarra clássica todos os dias, mas podia ser um estudante que apenas tocava ou podia aprofundar a composição. Dedicar-me por igual às duas coisas, não era possível. Para compor, tinha que estudar a fundo a teoria e se quisesse especializar-me na guitarra clássica tinha que praticar seis a sete horas por dia. Percebi que gostava mais de escrever música de câmara e composições para orquestra”, revela.
A guitarra ainda é uma «companhia», mas a dedicação à composição é quase total. Desde a a licenciatura, concluída em 1999, já compôs várias peças eruditas, entre as quais uma «Sonata para violino e piano» e «Ugolino», uma peça para orquestra de câmara. O processo criativo não é linear, e tanto pode concluir um trabalho em semanas, ou levar mais de um ano a ter um composição pronta a tocar. “A composição de uma peça para orquestra pode demorar seis meses, um ano. Uma peça para piano, por exemplo, pode levar algumas semanas”, explica. Das peças que já compôs, considera “especial” «Música para cordas, trompa e soprano», que teve como base os poemas da avó.
«Back Paintings» é a composição em que está trabalhar desde 2009 e que deverá estar concluída este ano. Uma peça baseada nas «Pinturas Negras», do pintor espanhol Francisco De Goya. “São obras um pouco estranhas que Goya pintou no fim da sua vida, já doente, nas paredes da quinta onde vivia. São mais abstractas, com temas mais «pesados» e descobri que gostaria de escrever música para essas imagens. Vi ali algo que me ligou às imagens. Escolhi três pinturas e agrupei-as de uma maneira que, penso, vão trabalhar para a música. É uma peça «escura» para ser tocada por uma orquestra grande, cerca de 80 músicos”, revela. Um trabalho que vai finalizar apenas quando regressar aos Estados Unidos, porque assegura que no Verão português não se sente inspirado para terminar uma composição mais «sombria». Depois pretende divulgar este trabalho em concursos e junto de alguns maestros.

Projectos em Portugal

Projectos na área da música clássica não faltam ao jovem músico e compositor, mas afirma que ainda tem muito o que aprender. “O Clássico não é um estilo simples, tem uma grande história, grandes compositores. Posso dizer que estou a contribuir para a continuidade deste tipo de música, mas sei que ainda tenho muito para aprender. Gosto de não saber qual será a minha próxima peça, porque quando disser que já cheguei onde quero ir, é porque já não tenho mais nada e novo a fazer”, defende.
Entre o muito que ainda lhe falta fazer, Bruno gostaria de experimentar a composição para filmes, porque gosta de ver as imagens e pensar que música clássica melhor se adapta ao que vê. Em Portugal, sonha poder vir a desenvolver um projecto com a Gulbenkian ou a Orquestra Metropolitana de Lisboa e gostaria de criar algo na área da música para teatro. Até porque a ligação afectiva mantém-se «intacta», apesar de ter saído do país ainda criança. “Quando estou cá tenho saudades da América, mas quando regresso fico com saudades daqui. A minha ligação a Portugal é principalmente pela família, mas há mais alguma coisa. As minhas primeiras memórias são de Portugal, as estradas, as casas, a comida. Lembro-me muito bem dos passeios com os meus pais e os meus avós, dos verões passados cá, da praia. São coisas que nunca se esquece e deixam um sentimento de nostalgia”, assegura.
Tem ainda planos de frequentar um mestrado na Europa para onde gostaria de se mudar, pelo menos por algum tempo. “Sempre me senti melhor na Europa, onde a música clássica nasceu. Seria importante estudar com actuais compositores que são bastante conhecidos, e muitos dos quais estão em Londres”, revela salientando que “é importante conhecer as pessoas e entrar nesse meio”.
Um meio que o fascina.. “Às vezes as pessoas associam a um estilo muito «tranquilo», mas na verdade não é. A música clássica também é vibrante”.

Jazz, electrónica e heavy metal…

Apesar de se dedicar à música clássica, Bruno Faria tem um universo musical mais vasto que inclui outros géneros. “Eu gosto de tudo. Gosto de jazz, mas ouço também heavy metal e música de outros países. Tento sempre estar aberto a outros estilos e outras culturas musicais”, revela o músico que já compôs temas para música electrónica, incluídas em álbuns gravados pelo amigo Dave Piekoz.
O ensino foi outra experiência que considerou enriquecedora. Bruno ensinou Teoria Musical e Guitarra na Porto Music School, do português Frank Porto. Ainda hoje não se nega a ensinar teoria, composição ou guitarra, tanto a crianças como a adultos. Diz que a ensinar, aprende mais. “Quando dou aulas, tenho que saber o que estou a ensinar, e volto a recordar o que aprendi”, explica, acrescentando que no futuro gostaria de vir a dar aulas, a nível universitário.
Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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