Cantoliva: Azeitonas e tremoços portugueses de Cantanhede para o mundo…

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Joaquim Domingos, 56 anos de idade, nasceu no Algarve na Serra do Caldeirão. Um dia, como ela gosta de dizer, veio por aí acima e fixou-se em Cantanhede onde abriu a sua empresa. Antes disso foi emigrante em França onde apenas esteve dois anos e meio, tinha então 13 anos. Foi o 25 de Abril que o fez regressar a Portugal mas afirma nem saber se fez bem ou mal. Acaba por dizer que fez mal, nós achamos que fez bem. Ganhámos um empresário dinâmico e empreendedor sério que soube construir um projecto de raiz A CANTOLIVA e que hoje factura para cima de seis milhões de euros com as azeitonas, os tremoços e os picles. O mercado nacional já não lhe chega e por isso com a energia que o caracteriza está a expandir a fábrica e a internacionalizar o seu produto cada vez mais…

Então quais são as dificuldades que se encontram aqui em Portugal?
Tudo muito burocrático. Para a gente fazer uma construção anda aqui 2, 3, 4 anos a fazer papelada, a fazer projectos. Todos os dias mudam as leis. De manhã é uma lei, de tarde é outra. A gente chega a um sítio qualquer e as pessoas não sabem explicar correctamente o que é. Parece que aqui não há palavras. Devia haver o sim e o não e há apenas o ‘nim’.

Isso é muito complicado para a vida de empresário?
Complica-se muito. Acho que ser empresário em Portugal é sempre um risco. Mas a gente luta, e cá andamos.
Mas ser empresário é ser lutador…
O empresário é sempre lutador. Esta empresa nasceu do zero há 30 anos. E tem vindo a crescer. Temos já 60 postos de trabalho. Estamos espalhados por todo o mundo, por toda a Europa.

Quais são os países para onde a empresa já vende?
Vendemos para o Brasil, para África, para a América, para o Canadá, para toda a Europa, incluindo até Espanha. Não é fácil vender em Espanha. Há muita competição

Todos eles gostam do nosso tremoço, do nosso pickle. O que é mais apreciado?
Depende do lugar. Os pickles são mais apreciados pela comunidade portuguesa espalhada pelo mundo. As azeitonas é por toda a gente. Fazemos azeitonas de diferentes paladares.

Diferentes paladares?
É fácil. Nós fazemos azeitonas a que chamamos cozinhados. Levam diversas coisas, azeite e outros temperos. Não deixa de ser azeitona. Mas chamamos-lhe cozinhados porque tudo o que pomos pode ser comido. Pomos lá pimento, piri-piri, cebolinho ou alho ou outra coisa qualquer. São paladares muito característicos, que dá para a França, dá para a Alemanha. São mais virados para os paladares deles. Aqui em Portugal é mais a azeitona característica portuguesa.

Quem é que se lembra dessas receitas?
Quando vamos a feiras, ao estrangeiro, a França, à Alemanha, vamos vendo e depois trazemos para cá alguns paladares que têm lá. Assim é que vale a pena a gente trabalhar. Se estivermos à espera do nosso mercado…

O nosso mercado é fraquinho?
É um mercado pobrezinho. Isto tem valor acrescentado. Acrescentamos valor à azeitona. Vendemos muita azeitona dessa cá. Mas é muito mais fácil vender na França, na Alemanha, ou até mesmo em Espanha. E estes paladares não estão ao alcance de toda a gente.

Suponha que vai vender azeitonas para um país que gosta por exemplo de azeitonas com folha de louro. O senhor está em condições de fornecer esse produto?
É isso mesmo que a gente faz. Com folhas de louro, com orégãos, com tomilho, portanto com uma variedade de misturas de ervas aromáticas que dão à azeitona um aroma especial.

Como começou essa aventura da exportação?
A primeira exportação foi para o Brasil, aqui há muitos anos. Fomos um exportador muito grande para o Brasil durante cerca de um ano. Mas o Brasil gosta de azeitona galega e os agricultores deixaram de ter boa azeitona galega. É o que se exporta mais para o Brasil. E eles importam mais barato da Argentina. Mas foi por onde começámos. E agora para onde exportamos mais é para a Europa.

Os importadores vieram ter consigo? Como é que foi?
Esse importador do Brasil era português. Ele veio e comprou muita azeitona. E agora conhecemos o Brasil todo já.

Quais são os grandes mercados onde gostava que a sua empresa estivesse e ainda não está?
Há mercados muito bons, com grande crescimento. A Rússia, a China, provavelmente a Índia vai ser um grande consumidor, o Brasil, como já falei. Os mercados a explorar são esses.

E acha que os indianos, os russos, os chineses gostam das nossas azeitonas?
Gostam. Eu sei que gostam porque nós já exportamos para lá.

Uma empresa como a Cantoliva, que nasce aqui em Cantanhede, que se calhar nem tem um departamento específico para a exportação, o que vale o SISAB onde sei que já esteve?
Foi a primeira vez que fui ao SISAB. Nunca lá tinha estado nem de visita. E achei que o SISAB é muito importante para fomentar a exportação. Uma vez que lá vão empresários de todo o mundo. Tive contactos da Argélia, do Brasil, de África, do leste, da Polónia. Acho que é importante o SISAB continuar.

Acha que pode ser uma das portas de saída para as empresas como a sua poderem exportar?
Penso que sim. Sendo divulgado penso que cada vez vão lá mais profissionais visitar. Reconheço que não tive mais sucesso ainda no SISAB  porque não estávamos bem preparados. Tive uns clientes da Argélia que fizeram contactos e não estávamos bem preparados para lhes poder vender. É preciso saber preparar uma feira como o SISAB…

O que é que faltava?
Faltava-nos maquinaria. Eles têm paladares diferentes, e têm características diferentes dos europeus ou dos americanos. Já tive oportunidade de os visitar, sei aquilo que eles querem, e vamos estar preparados.

Qual é a facturação da Cantoliva e quanto exporta?
Factura 6 milhões de euros e exporta cerca de 30 por cento.

Para o futuro há novos projectos?
Há um armazém novo, já estamos a elaborar o projecto. Vamos aumentar as vendas de azeitona. Estamos a pensar em ajudar os agricultores a produzirem, que é o que já estamos a fazer na couve-flor, no pimento, nas cebolas, isto para os pickles. E este ano também estamos a fomentar as parcerias com agricultores para as azeitonas. Para termos melhor preço e melhor qualidade.

A Cantolivo compra aos agricultores da região ou compra no país todo?
A Cantoliva compra no país todo. No Alentejo, Trás-os-Montes, Beira Baixa.

Quando compra a azeitona, na altura da colheita, por Novembro, onde é que guarda tanta quantidade?
Guardamos em depósitos especiais para a azeitona chamados fermentadores.

E não se estraga?
Não. Fica em salmoura devidamente tratada, com os seus conservantes. Com tudo o que faz falta para conservar a azeitona. Depois vai embalando à medida que é precisa.  À medida que é precisa. Depois ainda leva outros tratamentos. Tratamentos térmicos, nomeadamente esterilizações, etc.

Quanto tempo é que pode conservar a azeitona assim?
Um ano ou dois sem problema nenhum.

Não tem produtos químicos?
Não. Tem conservantes. Como é que podíamos aguentar um produto alimentar ou hortícola sem conservantes? Temos que por, mas não são produtos que fazem mal. São produtos que até as águas têm.

O pickle é um produto tradicional português?
Português e europeu. Aqui em Portugal os pickles são mais avinagrados. Se formos para a Europa são mais doces. Levam açúcar. São mais adocicados.

Que medidas é que acha que o Governo devia tomar para facilitar a exportação?
Devia incentivar feiras. Não só em Portugal mas também no estrangeiro. Tipo SISAB. E apoiar os empresários em feiras, a exporem lá os seus produtos. Se calhar facilitar mais as exportações. Porque para exportarmos para fora da Europa é preciso tanto certificado, tanta burocracia. Enquanto em Espanha ou em França – eu tenho uma empresa em França e sei do que estou a falar – não é preciso nada. Nós queremos exportar para os Estados Unidos, está aqui uma factura para os Estados Unidos, sim senhor. Aqui é preciso o certificado de origem, o certificado do Ministério da Agricultura, inspecções e não sei para quê, porque lá não exigem isso. Não é o nosso cliente que exige. Se fosse o nosso cliente a exigir nós concordávamos com isso tudo. Mas o nosso cliente não exige. Ainda aqui há poucos dias exportei um contentor para o Brasil e foi preciso o certificado de origem da Associação Comercial Portuguesa, não sei para que é aquilo, foi preciso o certificado do Ministério da Agricultura, a inspecção do Ministério da Agricultura…Não percebemos para quê, porque no fundo ninguém vê nada. Isso é tudo burocracias que acrescentam o valor da mercadoria. E depois deixamos de ser competitivos.

Torna a mercadoria mais cara?
Torna. Porque só aquelas burocracias todas… A Espanha não tem nada disso, nem a França, e isso facilita a exportação. Aqui parece que não querem exportar. Querem criar mais um posto de trabalho para se passar mais um certificado, mais um papel. Eu conheço bem as empresas em França e Espanha, e se eles vissem as nossas empresas e vissem as deles, se calhar fechavam aquelas todas. As nossas podem não estar bem mas estão melhor que as deles.

Há alguma outra actividade que gostasse de fazer?
Gostava de apoiar muito a agricultura. Há uma grande possibilidade de exportarmos produtos agrícolas, desde a azeitona, o azeite, e outras culturas que podemos cá fazer. Mas não vejo grandes incentivos a isso. Quando digo incentivos não digo dar incentivos, porque o Governo não devia dar nada a ninguém. Devia apoiar sim, não quer dizer que esteja tudo mal nos apoios, mas fundos perdidos não devia dar. Nem ao agricultor nem a nós. E em vez de darem subsídios para não semear, para não plantar, para não lavrar a terra, para não fazer, deviam era dar subsídios para a apanha do produto, para a colheita. O produtor produz mil quilos, sim senhor, um subsídio para isso. Para produzir. Agora para não produzir é impensável para mim. Que é o que se está a fazer. Tenho um exemplo. Pedi aqui a uns agricultores do baixo Mondego para semearem tremoço. A primeira pergunta foi esta: “tem subsídio? Não, acho que não tenho. Então não planto.” Está tudo à espera do subsídio. Em Espanha isso não se passa, nem em França nem em lado nenhum, por isso é que vemos os campos deles todos cheios de agricultura e aqui não. Os apoios deviam ser dados nas máquinas, no gasóleo mais barato, na luz mais barata, na água mais barata. Já era um subsídio. E abrangia toda a gente.
É habitual os agricultores baterem-lhe à porta para venderem os seus produtos agrícolas?
Não. A gente também não pode comprar de qualquer forma. O que estamos a fazer com a nossa engenharia é um acompanhamento da agricultura, vendo quais são os produtos químicos que eles utilizam, para eles obterem melhores produções sem usarem produtos que não sejam bons para os alimentos. Estamos se calhar a ser os primeiros em Portugal a dar apoio nessa área, com técnicos da empresa. E contando também com os agricultores.

Está optimista em relação à agricultura em Portugal?
Não acredito que não possamos ser competitivos em certas plantações, no azeite, nas vinhas, no tremoço, de cenouras, de couve-flor. Temos de ser competitivos. Não acredito que não se consiga produzir igual à França, à Espanha ou outro país qualquer neste tipo de agricultura. Noutra eles serão mais competitivos. Aquelas que precisam de mais água, como o girassol, a soja, aqui é mais difícil. Digo-lhe uma coisa: o futuro deste país passa pela agricultura. Não temos minerais, não temos petróleo, não temos outro recurso a não ser a agricultura. A agricultura é que tem que ser apostada. Termos esses campos cheios de agricultura. E termos circuito comercial para isso. Já estive no Chile, que é um país que dizem que é mais pobrezito que o nosso, mas tem um circuito comercial espectacular para a agricultura. Nós não temos. Têm que ser empresas como a nossa, e outras já a associar-se àquilo que estamos a fazer, que têm que dar valor acrescentado ao agricultor. Temos que fazer contratos com os agricultores para eles produzirem para nós, nós escoarmos o seu produto, e não estarmos a depender da importação.

O tempo do agricultor semear o que lhe apetece e depois ficar à espera de comprador já acabou?
Isso acabou. O agricultor tem que fazer contratos com as empresas, seja de que produto for, para ter a certeza que o produto é escoado. Semear e não ter contrato, ou não saber para onde vai vender o produto, é dar um tiro no pé. Temos que dizer o que queremos que o agricultor semeie. No espaço de 4 ou 5 anos penso que vão aparecer esses empresários em Portugal. Já há. E a agricultura vai aparecendo lentamente.

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