Dois portugueses ligaram França a Portugal em bicicleta

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A aldeia de Calvinos, na freguesia de Casais, concelho de Tomar, jamais teve uma alegria tão grande e recebeu com lágrimas, palmas, flores, muita emoção, dois filhos da terra (tio e sobrinho) e um cidadão francês, invisual e surdo, que de bicicleta após cerca de 2.400 quilómetros e 21 dias depois chegaram aos Calvinos, Tomar. Partiram de Wittelsheim, em França no dia 10 de Julho – Fernando Silva, Manuel Mendes e Thierry Keller chegaram cansados mas com o orgulho por cumprirem a “aventura” a que se propuseram…


Largas dezenas de pessoas, sobretudo moradores da aldeia de Calvinos, familiares dos ciclistas, o presidente da Câmara de Tomar e autarcas de várias freguesias, jubilaram de alegria ao receber em ambiente de festa os ciclistas. Muita fotografia para mais tarde recordar e depois o agradecimento de todo o apoio das pessoas e instituições que os apoiaram desde que saíram de França até chegaram a Calvinos e um lauto beberete oferecido à população. Foi emotivo, com a presença da mãe de Manuel e tia-avó de Fernando D. Rosa Mendes de 86 anos as abraçá-los, acompanhada de sua mãe, D. Maria Rosa de 103 anos, avó de Manuel.
Em Cernache do Bonjardim, testemunhámos o apreço e simpatia da Junta de Freguesia desta vila “óasis do Zêzere” que deu o apoio nas suas instalações aos ciclistas e demais elementos da comitiva, no total de onze pessoas. Fernando dizia-nos “desde que chegámos a Portugal, o apoio e carinho foi outro, em Penamacor e aqui em Cernache. Apesar de ser uma das etapas mais difíceis Penamacor- Cernache, o respirarmos ar de Portugal, dava-nos forças para pedalar e chegar ao fim. Ao longo desta prova, chegou-nos vontade de desistir, é muito difícil, e ser o “piloto” de uma pessoa com deficiência é uma tarefa árdua, que só o carinho e a força de o levar a provar que um deficiente pode vir de França a Portugal, acalentou a moral, para jamais desistir” . Fernando da Silva refere-se à viagem como “uma aventura louca”, que nasceu da relação de amizade entre dois portugueses e um francês e de uma promessa feita há algum tempo. No último dia da viagem de Cernache do Bonjardim, terra de D. Nuno Álvares Pereira à foz do Zêzere na Ponte Vale da Ursa, por vezes as bicicletas, em descida vertiginosa, atingiam 80 Km/h, depois as subidas a passo. Vale Serrão, Bela Vista, e Águas Belas. Estávamos no concelho de Ferreira do Zêzere. Junto à câmara local, Luís Pereira, presidente da Câmara recebeu os ciclistas, e, oferece no CRIFT- Centro Recuperação de crianças com deficiência o almoço. Com emoção os “aventureiros e sua equipa” aceitam. Afinal era a única Câmara a dar uma refeição. Faltavam poucos KM para o final e pelas 15H00 fizeram-se à estrada, já com um grupo de cicloturistas de Tomar. Faltavam menos de 12 Km. Ferreira do Zêzere- Alviobeira, o tempo estava soalheiro. A chuva da manhã, tinha passado. Em Alviobeira são recebidos pela Junta de Freguesia e dali até Calvinos foi um ápice. Em Calvinos a emoção, a festa. Não esperavam tanto apoio. Tinham conseguido. Á sua espera o presidenta da Câmara de Tomar- Côrvelo de Sousa, Jaime Lopes, presidente da Junta de Freguesia, autarcas de Juntas de freguesia vizinhas e muito, muito povo. “Nunca alguém tinha ligada esta terra ou esta região de emigração, do país de acolhimento, com sua terra natal, de bicicleta e ainda por cima, um dos aventureiros é deficiente” comentava o povo. Cada um deles perdeu em média 10 Kg e para uma aventura de 2.400 Km foram necessárisos 4.000 Km de treino, treinos esses que Manuel Mendes, ex-ciclista e com um físico de um jovem, orientou.

Fernando e Thierry, que é invisual, numa tandem (bicicleta de dois lugares) foram acompanhados por Manuel Mendesl numa viagem cuja organização, só foi possível, dado os seus custos, com a ajuda de empresas e particulares, franceses e portugueses. A nível oficial nenhuma ajuda, nem apoio, nem presença. Fernando da Silva, contou que a “ideia um pouco louca” do percurso Wittelsheim-Calvinos surgiu a partir de uma viagem de férias que fez a Portugal com a sua família e a de Thierry. Ao ouvir o amigo francês comentar que tinha “gostado muito do país” e que gostaria de voltar um dia, Fernando lançou-lhe o desafio. “Disse-lhe que, se quisesse, íamos, mas dessa vez, de bicicleta”, recorda, acrescentando que a proposta foi logo aceite.

A longa experiência como ciclistas – participaram em várias competições, como a Tour Alsace 2008 – ajudou à tomada de decisão de se «lançarem à estrada».

Enquanto angariavam os apoios necessários a uma viagem dispendiosa, os ciclistas cumpriam um plano de treinos que se iniciou em Abril do ano passado e que nem o Inverno rigoroso da região onde vivem, interrompeu. “Com a neve e o gelo raramente se consegue treinar com a bicicleta, mas mantivemos os treinos nas piscinas públicas da autarquia de Cernay, que nos permitiu fazermos os treinos gratuitamente, duas a três vezes por semana”, explicou ao Fernando da Silva ao Mundo Português. Os treinos com as

bicicletas foram retomados em Março e foram cumpridos e forma mais intensa a partir de Junho. Até ao fim de Maio, treinaram três vezes por semana, num total de cerca de 250 quilómetros semanais. A partir de Junho a preparação intensificou-se e passaram a treinar todos os dias. “Tem que ser, porque senão depois o corpo não aguenta”, explicou Fernando Silva, sublinhado que durante a viagem cumpriram em média, percursos diários de mais de 100- 140 quilómetros.

Fernando refere que a preocupação inicial sobre a capacidade de reunirem todo o material necessário, foi rapidamente ultrapassada. Amigos e familiares incentivaram-nos a apresentar o projecto às empresas da região e os apoios começaram a aparecer.

“Não estávamos à espera de receber tanto”, confessou o emigrante português, recordando que as mais de 20 empresas que colaboraram, “foram dando, umas mais outras menos” e que acabaram assim por conseguir adquirir “quase tudo”. O apoio fez-se sentir também junto da comunidade portuguesa de Wittelsheim e das cidades em volta, e duas das empresas que deram apoio monetário pertencem a portugueses.

Entre os apoios desde a primeira hora destaca o da «Vaincre par le sport» (Vencer através do desporto), uma associação criada em 2008 por um grupo de amigos de Thierry Keller e afiliada à Federação Francesa Handisport (FFH).

A associação tem por objectivo colocar à disposição de Thierry Keller (surdo e cego), os meios materiais e financeiros necessários para a prática desportiva. Michel, cidadão francês e presidente da Associação, fazia parte da equipa e foi a primeira vez que veio a Portugal.

Sempre junto dos ciclistas, a sua simpatia e força de ajudar, tocou-nos bem fundo.

Outro apoio importante foi o empréstimo, por uma empresa da cidade vizinha de Cernay, das duas auto-caravanas que acompanharam os três ciclistas e nas quais seguem as suas mulheres.

Para além de todo o apoio logístico ao longo da viagem, têm funções definidas: Marie-Christine, cozinheira, foi responsável pela confecção das refeições; Mauricette, massagista, teve como missão manter os ciclistas “em forma durante todo o desafio”; Fabienne, com formação de socorrista pela Cruz Vermelha, vai estar “de prevenção” para qualquer problema físico que possa surgir. Mas nem uma queda afinal houve.

 

Dificuldades na montanha

 

A equipa optou por pernoitar nos parques de campismo ao longo da viagem. Em França e Espanha, todas as autarquias ajudaram e deram acolhimento e apoio logístico a tão espinhosa missão. Fernando e os amigos sabiam quais as dificuldades que iam enfrentar, temiam a chuva e tiveram-na por companheira e sempre o vento forte de frente. Centro e noventa pedaladas em média dava um Km, contou Fernando, em mudanças médias, multiplicar este valor por cerca de 2400 Km, é “muita pedalada”. “Tantas horas a pedalar deu para pensar em tudo, fazer a retrospectiva das suas vidas; quem eram, o que queriam e depois Fernando foi os olhos de Thierry e, fazia-lhe ver a paisagem que ele infelizmente não via, e aliado aos cheios e sensações, na escuridão total, que uma doença o condenou “viu esta viagem” que tão útil , segundo os médicos é para a sua saúde e a prova que afinal um deficiente pode vir de França a Portugal – de bicicleta”, refere.

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