Investigador Nuno Cláudio: “Temos que passar por cima do país dos doutores e engenheiros”

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Aos 24 anos de idade, o biólogo Nuno Cláudio está a trabalhar no seu doutoramento em Marselha, França. Antes disso, para fazer o mestrado, o jovem português escolhera a cidade de Erlangen, na Alemanha. Depois de se ter licenciado em Portugal na área da biologia, Nuno Cláudio optou por rumar ao estrangeiro para seguir a sua carreira académica e profissional. Nesta entrevista revelou-nos as razões da sua escolha, e confessou que tenciona regressar a Portugal quando terminar o doutoramento.

És licenciado em biologia. Que saídas profissionais tinhas em Portugal, quais as tuas expectativas?
Que rumo seguiste depois da licenciatura?
Depois da licenciatura realizei o mestrado. Com o início do processo de Bolonha foi apenas necessário realizar o estágio e uma cadeira. Fiz o estágio em Erlangen, junto de Nuremberg, na Alemanha. Fui por minha conta, sem bolsas sem nada. Lá o Instituto pagou-me cerca de 400 euros durante 3 ou 4 meses. Estive lá durante 7 ou 8 meses. Trabalhei em Salmonella, especificamente numa proteína responsável pela adesão da bactéria a superfícies semelhantes ao intestino.
As saídas profissionais para a Biologia em Portugal são escassas, limitam-se em grande parte à investigação. Agora começam a surgir com mais força empresas de biotecnologia, mas desconheço o grau de empregabilidade.
As minhas expectativas estão centradas na parte académica, fazer o doutoramento, e depois pós-doutoramento, ou seja, continuar a fazer investigação. Ou mesmo fazer investigação ligada à parte clínica, cancro essencialmente.
Eventualmente, se surgir a oportunidade, gostaria de enveredar pela parte da indústria, nomeadamente fazer a ponte entre a investigação e produtos ligados à biotecnologia ou à medicina. Não sei concretamente as ofertas que existem nesta área em Portugal.
Por enquanto, estou focado no doutoramento. Trata-se de um projecto exigente de 4 anos, e creio que apenas após este período é que vou ter plena capacidade de decidir o que quero fazer a seguir.

O que te levou até Marselha? Como surgiu a oportunidade?
Depois do mestrado queria prosseguir para o doutoramento. Contactei diversas pessoas, em Portugal não tive grande ‘feedback’ dentro das áreas que me interessavam.
O que acabou por me trazer a Marselha foi a realização do doutoramento. Li um artigo do grupo onde estou actualmente em Marselha, interessei-me pelo trabalho deles. Contactei o investigador, que me aceitou, escreveu-me um projecto, trocamos vários e-mails para acertar detalhes, e por fim candidatei-me a uma bolsa de doutoramento. Houve ainda um projecto para doutoramento misto, entre Portugal e a Grécia, mas como a candidatura ia ser feita à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tal como o projecto que tinha para Marselha, optei pelo último, pois oferecia maiores hipóteses de conseguir a bolsa.

Em que área estás a trabalhar?
Estou a trabalhar na área da Imunologia, mas com uma abordagem mais ligada à biologia celular.

Em que consiste o teu trabalho? 
Em termos gerais, o grupo em que estou inserido está interessado na regulação da síntese proteica durante a resposta imunitária ou em condições em que é induzida tolerância imunológica, em células dendríticas. Especificamente, eu pretendo estudar as consequências que condições de tolerância imunológica (nomeadamente expressão duma proteína que degrada o aminoácido triptofano) têm na regulação da síntese proteica e no processo de apresentação antigénica, assim como na interacção entre células dendríticas e linfócitos T. Ou seja, perceber que efeitos têm estas condições no combate a infecções por agentes patogénicos e eventualmente no cancro.
Em termos práticos preparo células detríticas a partir da medula óssea de ratinhos, cultivo-as ‘in vitro’, sujeito-as a várias condições experimentais. Analiso marcadores na superfície das células por citometria de fluxo e analiso a expressão de determinadas proteínas correndo géis para esse propósito.

Quais são as tuas ambições para o futuro a nível profissional?
Por enquanto é terminar com sucesso o doutoramento e posteriormente continuar a fazer investigação.
Poderei continuar na área da imunologia, ou enveredar por algo completamente diferente se acreditar que mais tarde isso me ajuda a chegar a algo novo quando conjugado com a experiência que já tenho, poder analisar algo numa nova perspectiva, fazer algo de inovador.

Que condições há para exercer a tua profissão em Portugal?
É difícil responder a isto pois nunca trabalhei verdadeiramente em Portugal…
Há sítios com muito boas condições, que fazem coisas muito interessantes. Daqui a uns tempos vai ainda ficar melhor com o novo instituto de investigação financiado pela Fundação Champalimaud.
Contudo, o que posso acrescentar é que em Portugal ganha-se mal enquanto estudante de doutoramento: 980 euros. Os aumentos não são feitos há muitos anos.
É duro para alguém com muitos estudos ganhar 980 euros. É difícil criar uma autonomia financeira, ter casa…
No estrangeiro, igualmente pago pelo FCT, ganha-se 1.700. É claro que o custo de vida é mais elevado, mas por exemplo Lisboa não é assim uma cidade tão barata.
Em termos europeus, os estudantes de doutoramento não ganham muito, mas não conheço todos os casos. Na Alemanha, os ordenados podem ir até aos 1.400 euros, não sei se com descontos ou não. Em França creio que anda pelos mesmos valores. Contudo, eles têm mais direitos sociais.

O que te oferecem em França que não tinhas em Portugal?
Como referi, nunca trabalhei verdadeiramente em Portugal, não posso fazer uma comparação. Posso é dizer que aqui tenho óptimas condições, tenho acesso a todos os materiais que quero, equipamento de ponta, não tenho que contar os tostões para mandar vir um produto de que necessite.
No entanto, em Portugal já há sítios com equipamento de ponta e grupos com muito bom financiamento. Portugal tem evoluído muito, embora ainda haja muito que se pode fazer e acredito que se vai fazer desde que seja feito o devido investimento.
Começa a chegar muita gente talentosa, que fez o doutoramento e pós-doutoramentos no estrangeiro, que vêm cheios de garra, e no futuro serão ainda mais. No fundo, poderá reflectir-se o bom investimento que o FCT tem feito ao longo dos anos em financiar doutoramentos e pós-doutoramentos no estrangeiro.

Se a oportunidade surgir consideras ficar a trabalhar aí ou noutro país?
Por razões pessoais penso regressar a Portugal depois da aventura do doutoramento.

Na tua opinião, que dificul-dades encontram os jovens licenciados para entrar no mercado de trabalho?
O problema é que todos querem trabalhadores com experiência e no geral todos os alunos saem da universidade ‘verdinhos’ no que respeita a experiência. Creio que as pessoas não podem ver a licenciatura como bilhete de acesso directo a um trabalho.
Penso que isto é algo que vem da geração dos nossos pais, em que nem todos conseguiam ter um licenciatura, mas os que tinham não tinham dificuldade em ter emprego.
Uma percentagem muito significativa de pais faz grandes esforços financeiros para levar os filhos para as universidades, aquilo que eles acreditam que lhes dará um futuro melhor, mais certo.
Infelizmente não é bem assim… Uma licenciatura é uma formação cara, muito cara em Portugal. É normal que as pessoas se sintam no direito de, ao possuírem uma licenciatura, exigir um emprego.
Na minha área, a licenciatura não me garante nada, nem o mestrado – com Bolonha toda a gente sai com mestrado –, o doutoramento é agora a nova licenciatura, sem ele não há grandes oportunidades.
No fundo, é preciso ser-se bom, lutar, fazer para ser melhor, reflectir, e não seguir cegamente.
Mais tarde ou mais cedo as pessoas hão-de começar a dedicar-se a profissões que não precisam de licenciatura e que são essenciais. Este tipo de actividades tem que ser valorizado. Precisamos de bons pedreiros, carpinteiros, pessoas qualificadas e competentes, que gostam do que fazem e que sejam devidamente retribuídos e apreciados.
Temos que passar por cima do país dos doutores e engenheiros. É algo profundamente irritante.

Consideras-te um emigrante no sentido tradicional do termo ou apenas um europeu a trabalhar longe de casa?
Mais um europeu a trabalhar longe de casa, no meu caso a estudar, pois ser estudante de doutoramento não é propriamente visto como profissão…mas é como se duma profissão se tratasse.

José Pedro Duarte
jduarte@mundoportugues.org

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