10 de Junho: Dia especial para quem vive fora de Portugal

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São unânimes em afirmar que o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, é diferente dos outros. Quer vivam em cidades onde as comemorações reúnem os emigrantes em festa, ou noutras onde
a data não é assinalada pela comunidade, os portugueses que falaram a O Emigrante/Mundo Português sobre
a importância do 10 de Junho dizem que se sentem um pouco mais perto de Portugal.
É também um dia em que a saudade é ainda mais forte…

Na região de Lausanne, Suiça, a importância do 10 de Junho é visível na intensidade da vida associativa. “A data é sistematicamente assinalada na agenda das associações que aqui existem”, destaca António da Cunha, Presidente da Federação das Associações Portuguesas na Suiça e do Fórum para a Integração dos Migrantes. Composta por 70 freguesias, a região tem cerca de 330 mil habitantes, dos quais 15 mil serão portugueses, revela ainda o professor universitário, dando como exemplo a cidade de Renans, onde vive, e que acolhe uma comunidade portuguesa constituída por cerca de dois mil emigrantes. “Há aqui uma grande convivência entre pessoas de várias nacionalidades, com os portugueses a constituírem o grupo mais importante”, explica ainda. Esses portugueses são responsáveis pelo colorido que decora Renans por altura do 10 de Junho.
“As casas dos portugueses já estão «embandeiradas», já se vêem muitas bandeiras nas janelas das casas particulares e também das casas comerciais, até porque aqui, os próprios comerciantes portugueses distribuem pequenas bandeiras aos clientes”, revela, acrescentando que, este ano, a animação é ainda maior, por causa da realização do Campeonato Europeu de Futebol. Com a selecção nacional concentrada ali perto, em Neuchatel, na última semana de Maio começou a ser organizada “uma festa muito grande”, que se realiza hoje à noite num pavilhão da cidade. Para o dia 8, estão ainda programadas várias manifestações que vão decorrer à volta do Lago de Neuchatel.
As bandeiras portuguesas são também decoração obrigatória em Joanesburgo, na África do Sul. Assim como a organização de um vasto programa de comemorações que começou já a 31 de Maio e termina a 16 de Junho. Ao Torneio de Golfe das Comunidades e o almoço no Clube Português, realizados a 1 e 2 de Junho, junta-se outro torneio de golfe, organizado no dia 10 pelos quatro clubes portugueses desta modalidade existentes em Joanesburgo, além de uma recepção na embaixada de Portugal em Pretória. Depois, a 14, tem lugar um jantar comemorativo, com a presença, entre outros, do embaixador de Portugal, do cônsul-geral em Joanesburgo e do secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, Fernando Serrasqueiro, que vai participar nas comemorações em Pretória. Um dia depois acontece o Arraial Português, com provas desportivas, eventos culturais, gastronomia portuguesa e um circuito de ciclismo. A fechar o programa de comemorações, realiza-se uma Feira do Livro e um concurso intitulado «Conhecer Portugal».
Para Silvério Silva, conselheiro das Comunidades Portuguesas, que está “sempre envolvido” no programa de comemorações, o 10 de Junho contribui para a manutenção da cultura e das tradições portuguesas no estrangeiro. “É uma forma de passarmos aos filhos e netos este sentimento de ser português. Se não fizermos nada, ninguém se lembra que existe uma comunidade portuguesa na África do Sul”, destaca. Diz que é por esse motivo que os protugueses que vivem naquela cidade enfeitam as casas e o comércio com a bandeira de Portugal. “A minha já está à janela”, afirmava ao Emigrante/Mundo Português na semana passada.

A “força das raízes”

São mais de quatro décadas a viver nos Estados Unidos, mas continua a vivenciar “de uma forma bastante forte” o 10 de Junho. Vereador há uma década na Câmara de Newark, cidade do estado de Nova Jérsia, Augusto Amador, diz que sente “a força das raízes”, e que o Dia de Portugal serve “para ajudar as raízes a manterem-se fortes”. “Não é apenas uma forma de mantermos a ligação a Portugal, mas também de expressarmos o nosso portuguesismo, algo que no nosso dia-a-dia temos a tendência de «esquecer»”, completa o vereador que lamenta apenas o facto dos luso-descendentes “não sentirem o 10 de Junho” da mesma forma.
“Mas não quer dizer que não saibam o valor da cultura dos pais”, sublinha. Este ano, o vereador foi o responsável pelo hastear da bandeira portuguesa na Câmara Municipal de Newark, a 31 de Maio, numa cerimónia que contou com a presença do presidente da câmara, do cônsul de Portugal e de representantes de associações de várias cidades americanas.
Para Francisco Leal Serra, o 10 de Junho é um dia em que reflecte “um pouco mais” sobre a sua situação de emigrante e “o distanciamento físico” entre Portugal e o local onde vive. “Recordo situações sobre a vida e a minha ligação a Portugal, que se mantém muito forte”, explica o português, residente em Pelotas, no sul do Brasil, há 33 anos.
Prova dessa ligação é o programa de rádio que comanda, todos os domingos na Rádio Pelotense, já há 25 anos. Entre as 9h30 e as 11h30, o «Páginas de Portugal» – que no dia 1 de Maio completou 70 anos no ar – transmite informações sobre Portugal, notícias e música. O cônsul-honorário e presidente da Beneficência Portuguesa de Pelotas, revela que na cidade onde vive os comerciantes portugueses também decoram as montras com motivos alusivos à data, que, aliás, é comemorada no Centro Português 1º de Dezembro com a realização de um acto cívico onde participam autoridades civis e militares brasileiras. “É uma forma de reunir a comunidade portuguesa e a sociedade que a acolheu”, finaliza.
Mais a norte, noutro continente, há quem também faça questão de assinalar a data, mesmo que a comunidade portuguesa praticamente não exista. Na Ilha do Príncipe, José Pedro Simões, deverá reunir-se aos poucos portugueses que lá estão a trabalhar em projectos ligados à construção de novas infra-estruturas para uma mostra de filmes do cinema português actual.
Professor de português há 29 anos em São Tomé e Príncipe, diz que a data lembra-lhe sempre o nome de Portugal, “e sobretudo o de Camões”. “É o nosso dia, durante o qual acabo por me lembrar ainda um pouco mais de Portugal”. E sublinha que apesar de ser um dia normal de trabalho em São Tomé e Príncipe, faz questão de “cumprir religiosamente” este feriado. “Na escola compreendem e facilitam esta minha opção”, diz ainda.

Sem entusiasmo

Até ao fim da semana passada, Manuel Cardia não sabia se haveria alguma comemoração oficial do 10 de Junho em Lyon, França. O Presidente da Federação das Associações Portuguesas de Rohne-Alphes lamentava o pouco entusiasmo com que a comunidade portuguesa vive a data. “Em Lyon tentamos realizar algumas manifestações, mas as pessoas estão muito de fora, só as que estão ligadas ao meio associativo é que comemoram”, sublinhava.
Como português, diz que sente ser aquele “um dia diferente” e que “há alguns anos atrás”, a comunidade estava mais presente nas comemorações. Acredita que tal devia-se ao facto de, então, irem menos a Portugal e por isso, “no 10 de Junho parece que se sentiam especialmente ligados ao país”. “Agora, estamos mais «próximos», as ligações são mais rápidas, vai-se mais a Portugal. Além disso, os mais jovens não ligam muito à data”, lamenta ainda.
O reduzido entusiasmo vivido em Lyon, repete-se em Gotemburgo, Malmö e Estocolmo, segundo Carlos Esteves da Silva. Residente na Suécia há 40 anos, diz que, pessoalmente, nunca conseguiu separar das comemorações, a imagem, nos anos 60, do Terreiro do Paço em Lisboa, “com palanques onde a ditadura fazia uma parada militar para comemorar os heróis do Ultramar”. “Mascaravam isso com o «Dia da Raça» e depois do 25 de Abril deram-lhe uma volta e chamaram-no Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, que ainda hoje continuam abandonadas. O que interessa comemorarem se as comunidades estão tão abandonadas?”, questionou o lisboeta. Carlos Esteves da Silva explica ainda que naquelas três cidades suecas, “o 10 de Junho passa praticamente sem ser comemorado”, sendo lembrado apenas nas associações “que, aliás, vão rareando”.
Para o português, “o Dia de Portugal não tem que estar ligado ao 10 de Junho, ele existe todos os dias”. Carlos Esteves da Silva prefere destacar a mágoa de quem continua a sentir-se português apesar de viver no estrangeiro há mais de 30 anos e apesar de ser sempre “português na Suécia e «estrangeiro» no seu país.
“Quando chego a Portugal sou um «emigrante», mas português não sou. É um drama”.

Celebrar as origens

Já Peter Ferreira vive plenamente o 10 de Junho. No Canadá, país para onde emigrou aos 8 anos, pretende marcar presença em todas as comemorações oficiais, que começaram já a 29 de Maio com a inauguração da Semana de Portugal, no consulado-geral em Toronto. “Para mim, é uma altura do ano em que celebro as minhas origens”, afirmou o Presidente do Conselho Etnocultural do Canadá, que destaca das comemorações em Toronto, uma cerimónia de homenagem aos voluntários da comunidade portuguesa, além de vários eventos culturais.
As bandeiras portuguesas também decoram as casas de emigrantes em Toronto e reflectem o facto da comunidade portuguesa ser a quinta maior da província. Peter Ferreira está convencido de que por estarem longe, os portugueses no estrangeiro vivem o Dia de Portugal “de forma diferente”. É o seu caso.  “Nesse dia, penso ainda um pouco mais em Portugal”, sublinha para de seguida comparar as comemorações em Toronto com as que presenciou em Setúbal, no ano passado. “Em Portugal não senti o 10 de Junho como cá”, afirma.
A milhares de quilómetros de Toronto, também Rogério Oliveira diz que apesar de ter sempre “o coração em Portugal”, talvez nesse dia se sinta “um pouco mais próximo” do seu país. Há 30 anos no Luxemburgo, diz que é importante não esquecer que Portugal “também está por este mundo fora”. “Nos países de acolhimento não é feriado, mas fazemos sempre uma festa. Sou convidado sempre para as comemorações oficiais organizadas pela embaixada e vou com muito carinho”, sublinha. E à semelhança de Peter Ferreira, também pensaa que em Portugal “não se festeja como nas comunidades”, apesar de lamentar o “afastamento” que não permite às associações portuguesas no Luxemburgo, organizarem conjuntamente uma festa.
Entretanto, apesar de participar no programa organizado perla embaixada, Rogério Oliveira destaca que, para ele, as melhores festas de 10 de Junho são as acções de solidariedade que a Associação dos Amigos da Bairrada no Luxemburgo (ACBL), que preside, organiza já há 14 anos. E dá como exemplo a que realizaram recentemente, em prol de um menino de 2,5 anos, deficiente profundo, residente em Matosinhos, a quem entregaram uma cadeira de rodas no valor de mais de 2600 euros. O pedido chegou à ACBL através da Liga Nacional Criança Esperança «Renascer» e foi respondido com a realização de um jantar, que contou com a presença de 180 pessoas, na Cidade do Luxemburgo. Ali, a ACBL reuniu a quantia de 2625, suficiente para a compra da cadeira de rodas, que foi entregue aos pais do menino no passado dai 20 de Maio, em Matosinhos.
“Esse é o nosso 10 de Junho, o nosso Dia de Portugal”, diz.

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