Arcos de Valdevez: Depois dos incêndios as secas

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Os pastores do Soajo, em Arcos de Valdevez, ainda a recuperar dos prejuízos dos incêndios de 2006, voltam a viver “dias muito difíceis” por causa da seca prolongada que deixa os montes sem alimento para os animais.

“Se não vierem muito rapidamente umas boas semaninhas de chuva, vai ser um caso muito sério”, augura Venâncio Domingues, pastor há 16 anos e dono de 320 cabras. “A cabra é um animal que não gosta muito de feno, que precisa de erva para encher a barriga como deve ser para enfrentar o Inverno. Nos 16 anos que já levo disto, não me lembro de ver um Outono assim”, acrescenta.

No Verão de 2006, os incêndios consumiram cerca de 3 mil hectares de monte no Soajo, para desespero dos criadores de gado daquela aldeia serrana, que viram as chamas dizimar os pastos dos seus animais. Muitos tiveram de ir comprar feno a Espanha para dar de comer aos seus animais, mas, entretanto, graças a condições atmosféricas que se foram mostrando favoráveis, os pastos “voltaram a rebentar com alguma facilidade”. “Podemos dizer que o Verão até acabou por ser muito bom, porque caiu alguma chuva e ajudou os pastos a rebentar. Mas o problema é agora. Não chove e a erva não nasce. E, se continuarmos assim por mais algum tempo, vai ser um bico-de-obra”, afirma Venâncio Domingues.

Também preocupado com a falta de chuva está o presidente da Junta do Soajo, Manuel Barreira Costa, que adivinha “tempos mesmo muito complicados” para os pastores da freguesia. “Com a chegada do Inverno, os animais começam a ficar mais perto das aldeias, por causa do frio. O problema é que nem sequer nas zonas agrícolas há alimento. Depois da recolha do milho, semeia-se a erva, mas este ano pouca ou nenhuma nasceu, por falta de água”, explica o autarca.

O ataque dos lobos, que, volta e meia, provocam baixas nos rebanhos da aldeia, é outro dos problemas que perseguem os pastores do Soajo durante todo o ano, quer chova quer faça sol. “Os lobos atacam cada vez mais perto das casas e ai de nós se lhes fazemos alguma coisa. São espécies protegidas e, como tal, temos de os deixar comer os nossos animais à vontade. A nós é que ninguém nos protege”, queixa-se Venâncio Domingues. O pastor afirma que o pagamento das indemnizações pelos prejuízos provocados pelos lobos “chega tarde e mal”, acrescentando que, neste momento, tem a haver perto de 2 mil euros pelos animais que perdeu desde Abril do ano passado. “Só de uma vez mataram-me seis éguas. Sempre que vejo um animal morto pelo lobo, sinto desgosto, revolta e desânimo. É uma tristeza muito grande. A gente ganha afecto aos animais, pois é com eles que eu passo todos os dias do ano. Quando se perde algum, ficamos com o coração mais negro do que os montes queimados pelos fogos”, confessa.

Ministro do Ambiente desdramatiza

Entretanto, aproveitando a realização da Conferência Internacional sobre Siste-mas de Gestão de Secas, o ministro do Ambiente, Nunes Correia, e o vice-presi-dente do Instituto da Água (INAG), José Rocha Afonso, desdramatizaram os efei-tos do tempo seco que se tem sentido nos últimos meses, referindo que as reservas das albufeiras portuguesas “são boas”. “Estamos num período seco, mas não de seca”, disse o vice-presidente do INAG, acrescentando que as albufeiras e os aquíferos estão em bom estado no que respeita aos níveis de água.

Já o ministro do Ambiente disse que as barragens “estão bem abastecidas” e que “a situação está a ser acompanhada com muita atenção”, mas sem muita preocupação.

Por sua vez, o presidente do Instituto de Meteorologia (IM), Adérito Serrão, que interveio no debate de uma das sessões da Conferência, esclareceu que a “situa-ção de seca meteorológica não é grave” e que corresponde ao primeiro nível da escala de seca, abrangendo dois terços do território. Adérito Serrão referiu, no entanto, que as previsões para os próximos três meses não oferecem “conforto” em relação à situação que o país atravessa.

Luís Filipe Nunes, responsável pela divisão de observação meteorológica e do clima do IM, lembrou que o facto de dois terços do território português estarem “em situação de seca fraca desde Outubro, devido às elevadas temperaturas para a época e à falta de chuva”, obrigou a “limitar a exploração hidroeléctrica de algumas barragens”, o que “não acontecia no mês anterior, já que a 30 de Setembro quase todo o território estava em situação normal – 76 por cento – e apenas parte do interior do Alentejo em situação de seca fraca – 16 por cento”.

Apesar destas declarações, o vice-presidente do INAG reforçou que “não há razões para preocupação”, acrescentando que a Comissão de Gestão de Albufeiras se irá reunir para avaliar a situação, não estando previsto que se tomem quaisquer medidas de “restrição” no uso de água.

José Rocha Afonso referiu também que a situação vai ser revista em Janeiro porque, muitas vezes, os meses de Outono são secos e os de Inverno são chuvosos, invertendo as situações.

A Conferência Internacional sobre Sistemas de Gestão de Secas reuniu em Lisboa especialistas portugueses e norte-americanos, que analisaram e compararam políticas de gestão de seca nos dois países.

“O objectivo era conferir o estado de desenvolvimento das políticas de gestão de seca na Europa e nos Estados Unidos, ver o que temos em comum e original e retirar algumas conclusões que nos permitam progredir rapidamente”, disse o director do departamento de planeamento do INAG, Adérito Mendes.

As consequências das secas e escassez de água constituem, de acordo com a União Europeia, problemas que terão cada vez mais impacto ao nível europeu, especialmente num contexto de alterações climáticas em que os fenómenos extremos se tornam mais frequentes e devastadores.

O mês passado foi o mês de Outubro mais seco deste século e o segundo mais seco dos últimos dezoito anos, com uma precipitação de apenas 35,4 milímetros, bastante inferior à média – 92,5 milímetros – registada entre a década de 40 e 1998.

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