Investigar português recebe prémio europeu de referência

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No dia 8 de Outubro, João Paulo Gomes vai estar em Göttingen, Alemanha, para receber o «PhD Award 2007», uma distinção atribuída às três melhores teses europeias de doutoramento de 2006 na área da sequenciação dos genomas de microorganismos patogénicos para o Homem. Durante a cerimónia, vai fazer uma apresentação do seu trabalho.

 

Investigação de qualidade

 

Para o investigador do Centro de Bacteriologia do Instituto Nacional Ricardo Jorge (INSA), em Lisboa, o prémio além de ser “bastante gratificante”, faz “muito bem ao ego”, tendo em conta os cinco anos de investigação que investiu no tema da sua tese.

A tese de doutoramento de João Paulo Gomes – «Contribution for the understanding of biological differences among Chlamydia trachomatis serovars using Genomics and Transcriptomics» – foi defendida na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e o estudo foi feito em colaboração com o laboratório norte-americano Childrens Hospital Oakland Research Institute, na Califórnia. À Agência Lusa, o investigador destacou que o seu trabalho de pesquisa foi “feito essencialmente cá” e é uma prova de que em Portugal “se faz investigação muito boa e com qualidade”. “Quem conhece um bocadinho a realidade dos Estados Unidos percebe que a investigação nos EUA, muitas vezes considerada de ponta, é feita à custa de mão-de-obra estrangeira”, afirmou.

No trabalho, João Paulo Gomes expõe as diferenças do genoma dos 18 serotipos da bactéria intracelular «Chlamydia trachomatis», que afecta actualmente cerca de 80 a 90 milhões de pessoas no mundo. As variantes desta bactéria são a maior causa bacteriana de infecções sexualmente transmissíveis e de traucoma, um problema que começa com uma inflamação no olho para depois se transformar numa conjuntivite crónica e que pode conduzir à perda de visão, comum em zonas rurais do Médio Oriente, África, Austrália, América Latina, entre outras.

O estudo incidiu especialmente sobre a vertente de doenças sexualmente transmissíveis, um problema de saúde pública que afecta muito as mulheres europeias e que em cerca de 70 por cento dos casos é assintomática, causando complicações como a doença inflamatória pélvica, a gravidez ectópica e a infertilidade tubária, entre outras. “As pessoas estão infectadas sem o saber, sem ter qualquer tipo de sintoma, o que faz com que sejam reservatórios de transmissão, e portanto transmitam aos seus parceiros com uma certa facilidade”, explicou à Lusa salientando que “isto está na base da elevada prevalência desta bactéria em todo o mundo”.

A tese de doutoramento consistiu “num estudo detalhado da biologia desta bactéria, nomeadamente nas diferenças a nível do código genético de todas as suas 18 variantes”. “Estudámos o melhor possível as variações genéticas de variante para variante, bem como as variações de funcionamento de alguns dos genes que nós sabíamos poderem ser importantes”, a pensar no objectivo de contribuir para o “desenvolvimento de métodos de diagnóstico eficazes que façam o despiste das doenças em todo o mundo e, por outro lado, o desenvolvimento de uma vacina adequada ao combate a estas infecções”, realça o investigador.

 

Descobertas

 

João Paulo Gomes descobriu que a bactéria difere mais de variante para variante do que se esperava. Tal como um vírus, a «Chlamydia Trachomatis» desenvolve-se dentro das células e, como é uma bactéria intracelular, os cientistas pensavam que teria uma evolução muito lenta. “Não é isso que acontece. O que acontece é que ela é uma bactéria muito polimórfica, ou seja, tem uma variação genética muito grande, tem uma variedade muito maior do que se esperava e isso tem uma dificuldade acrescida para o desenvolvimento de uma vacina”, afirmou o investigador, salientando que o desenvolvimento de uma vacina contra esta bactéria teria de ser adequada obrigatoriamente para a maior parte das variantes em circulação.

Na investigação, João Paulo Gomes usou bactérias isoladas de doentes infectados há muito pouco tempo, contrariamente ao que tradicionalmente se faz neste campo – a utilização de bactérias isoladas de doentes há muitas décadas, multiplicadas num laboratório norte-americano que depois as vende para investigação a laboratórios de todo o mundo. Devido a estas descobertas, o investigador insiste na “necessidade imperiosa de utilizar bactérias isoladas há muito pouco tempo”, por, pelos vistos, estar em constante mutação. O cientista frisou que esta investigação não é “um trabalho acabado”. “No final ficámos com mais perguntas do que aquelas que tínhamos quando começámos”, referiu, salientando pretender “acima de tudo continuar esta linha de investigação” e estudar a evolução da bactéria a um nível mais alargado do seu genoma, o que lhe dará trabalho durante os próximos anos.

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