Chile – antes de deixar a Região de Magalhães e Antárctida…

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Escrevendo ainda sobre Punta Arenas, outro capítulo de que particularmente gostei, foi o da restauração – restaurantes em quantidade significativa, comida boa, preços, que não sendo baixos, também não eram abusivamente altos.

Por exemplo, indo ao “Sotito“, pagava-se bem, mas tratava-se do restaurante mais fino da cidade.

Fui lá no primeiro dia que cheguei à cidade – serviço atencioso, muitos empregados, boas instalações, comida saborosa, contudo, não justificou uma segunda visita.

Se se quiser comer uma boa santola, que naquela zona do Mundo são um pouco diferentes das que se encontram em Portugal (as patas são mais grossas, tendo mais para comer, e o casco é mais pequeno e arredondado que as nossas – já quando estivera na Tierra del Fuego da Argentina, as provara e ficara “fan”), é preferível ir ao Restaurante “Puerto Viejo“.

Marisco muito fresco e com boas dimensões, serviço cuidado, porventura, um pouco familiar, restaurante com muita luz natural e uma ampla vista para aquela zona da cidade, preços muito inferiores ao “Sotito“.

Mas, foi ao Restaurante Típico “El Estribo” que eu fui muitas vezes!

Ali encontrei pratos tradicionais, que só realmente na Patagónia poderia comer.

Provei Guanaco, que é um mamífero ruminante da América do Sul, semelhante ao Lama, e que tem por hábito viver em grandes alturas, que poderão ser próximas dos 4.000 metros.

Comi também Nandu, ave, que apesar de possuir grandes asas, não voa, usando-as para se equilibrar e mudar de direcção na corrida. Vive nas zonas altas e semi-áridas do Peru e nas florestas e estepes da América do Sul.

Também saboreei Castor e Coelho Fueguino.

De todos estes petiscos, o que gostei mais foi de Guanaco, não considerando nesta apreciação o Coelho, pois não encontrei nada que marcasse a diferença, não tendo apreciado especialmente Castor, cuja carne me pareceu ter um sabor doce e de algo que não consegui definir.

É certo que Guanaco e Nandu foram servidos como bifes, que me pareceram grelhados, enquanto que o Castor foi cozinhado e apresentado numa forma mais elaborada, podendo isso também ter contribuído para a avaliação que fiz.

A carne de Guanaco, que me pareceu um pouco mais vermelha, era mais saborosa.

Gostei também muito, e repeti por diversas vezes, de um gelado de calafate e ruibarbo, que era de “comer e chorar por mais”…

Permitam-me que relate dois episódios verificados neste restaurante, que penso deixarem qualquer um estupefacto.

O interveniente comum às duas ocorrências foi um empregado do “El Estribo“, os seus interlocutores é que mudaram.

Um dos episódios passou-se comigo.

Da primeira vez que pedi o tal gelado como sobremesa, o mesmo vinha só com uma colher para comer, pelo que solicitei ao empregado que me trouxesse também um garfo, ao que ele me diz que tenho ali uma colher! Eu insisto que desejo igualmente um garfo para comer a sobremesa e ele então diz-me, “Não! Come só com a colher“.

Chamei o dono e relatei o sucedido.

Pediu desculpa, deu-me o garfo e disse que o empregado não regulava bem da cabeça!…

E realmente, ele deveria ter algo que não funcionava bem, se não atente-se no episódio que se segue.

Num outro dia, um cliente, italiano, segundo me pareceu, pediu um vinho tinto.

O empregado traz a garrafa, vira e revira-a, para cima e para baixo, várias vezes, depois agita-a, e, por fim, abre-a e serve o vinho…

Nunca tinha visto algo parecido com isto!

Insólito sem dúvida, mas nem por isso impeditivo de dar boa nota ao “El Estribo“.

Ainda na área da restauração, acerca de bebidas típicas da Região, gostaria de referir a Ona-crema, uma poderosa  mistura de brandy, licor de café e natas, especialmente indicada para combater o frio, mas que, mesmo não tendo frio, provei e gostei!

Não é como o Irish Coffee, mas tem algumas semelhanças e é bem boa.

Antes de concluir as “NOTAS DE VIAGEM” de hoje, gostaria de ainda deixar um breve apontamento sobre um belo passeio que fiz nos arredores de Punta Arenas, pleno de história e de beleza paisagística.

Num dia que amanheceu sem Sol, e com o céu nublado, fui até Fuerte Bulnes, tendo também passado por Puerto del Hambre.

Pelo caminho, de Punta Arenas até Fuerte Bulnes, pode-se seguir com os olhos as mesmas águas por onde passou Fernando Magalhães em 1520, observar pequenas localidades de pescadores, e, nalguns pontos do trajecto, ter contacto directo com o bosque nativo, cheio de uma fauna, em especial aves, que vive no seu ambiente natural.

Fuerte Bulnes fica a cerca de 60 km da capital da Região, e, como já mencionei em outro artigo, foi construído em 1843, quando o Chile decidiu colocar sobre a sua soberania as águas do Estreito de Magalhães e os territórios envolventes, tendo sido o primeiro povoado Chileno na Patagónia.

O que hoje em dia se pode visitar, é uma reconstituição histórica feita em 1943, composta por paliçadas, alojamentos, paiol, torre e uma pequena capela, tudo em madeira.

O Fuerte está implantado num local estratégico, em termos de observação e controlo da área, do qual se tem uma muito bela e espectacular vista do Estreito de Magalhães.

Entretanto, durante a visita, o Sol começou a aparecer, e, quando cheguei a Puerto del Hambre, já brilhava, bem radioso, num céu muito azul.

O local, que significa em Português, Porto da Fome, e se situa nas margens de uma bela baía, também por mim já foi citado neste conjunto de “NOTAS DE VIAGEM” que tenho vindo a dedicar ao Chile, e, quem hoje visita a zona, nem consegue imaginar a história terrível que ali ocorreu.

Foi naquele local que os Espanhóis tentaram começar a colonização da área, mas que acabou por ter um final trágico.

Assim, em 1584, o Capitão Pedro Sarmiento de Gamboa ali fundou a cidade do Rei D. Felipe.

Contudo, as condições climatéricas, os ataques dos indígenas e a falta de alimentos que caracterizavam o lugar, conduziram ao insucesso desta iniciativa de Espanha.

Quando mais tarde, em 1587, o corsário inglês Thomas Cavendish por lá passou, apenas encontrou vivo um dos 103 colonos deixados três anos antes.

Os  habitantes tinham morrido, na sua maioria, de fome…

Thomas Cavendish rebaptizou então o que restava da antiga colónia, com o nome “Port Famine”, que em Castellano significa Puerto del Hambre, nome que conserva até hoje.

Presentemente, é um lugar muito bonito – a baía, as águas do Estreito, a vegetação envolvente, os pequenos barcos dos pescadores locais, tornam este local muito agradável, e mesmo simpático, apesar da carga histórica que contém.

Este foi o último artigo sobre a deslocação que fiz à Região de Magalhães e Antárctida.

Mais uma vez afirmo, que gostei muito dos dias que ali passei, e considero que foi uma estadia bastante enriquecedora.

Nas próximas “NOTAS DE VIAGEM” abordarei visitas efectuadas a Valparaíso, Viña del Mar e Isla Negra, localizadas a norte de Santiago do Chile, que em contextos diferentes, também se revelaram bem interessantes.

Rui Oliveira e Sousa

Outubro de 2006

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